OPINIÃO
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Maria Regina Canhos Vicentin *  

O serviço de José

Quando José me procurou ele estava realmente se sentindo muito mal. Aquela semana havia sido cheia de momentos desagradáveis, e uma tristeza profunda tomava conta do seu semblante. Uma discussão com a esposa, o carro batido e, além disso, uma “alfinetada” de um colega de trabalho. José compreendia que, vez ou outra, teria de fazer pequenos ajustes no relacionamento a dois. Entendia também que não estava livre de imprevistos, como o pequeno acidente que danificou em parte o seu veículo. Mas, tinha uma dificuldade enorme em compreender o que havia motivado seu colega a querer lhe prejudicar, tendo em vista nunca haver lhe causado mal algum. Gostaria de estar enganado, no entanto, a primeira idéia que lhe vinha à mente é que a intenção era ridiculárizá-lo perante o chefe e os funcionários da empresa.

Há dois anos José trabalhava naquele local sem quaisquer problemas, pelo contrário, vinha se destacando pelo seu desempenho e angariando a simpatia não só dos clientes como também do superior e demais colaboradores. Seu colega estava lá há muito mais tempo que ele. Gozava de uma situação estável, credibilidade, e o carinho de todos, que recorriam a ele sempre que necessário. Podemos dizer que era considerado o braço direito do chefe, e sua posição advinha de reconhecida competência, motivo pelo qual nada tinha a temer. José estava realmente perplexo com a situação em que fora envolvido. Chegou a pensar que somente por maldade alguém iria querer prejudicá-lo, denegrindo a sua imagem, plantando dúvidas quanto ao seu caráter, distorcendo suas palavras.

Foi aí que lhe expliquei que, talvez, não fosse maldade o que motivara seu colega a querer ridicularizá-lo publicamente, e sim uma admiração secreta, não bem assimilada, indigerida. É provável que a popularidade de José, ou mesmo sua espontaneidade em se relacionar, estivesse causando um certo incômodo em seu colega de trabalho. Às vezes, mesmo sem querer, podemos despertar ciúmes nas pessoas que estão inseguras quanto ao seu desempenho ou lutam para preservar sua posição. O fato de nos destacarmos ou conquistarmos maior popularidade pode ser sentido como uma ameaça.

Esclareci a José que, muito provavelmente, seu colega estava apenas enciumado, e sugeri que relevasse a provocação, afinal a mágoa faz mal para quem a sente e, nesse caso, José realmente seria prejudicado, não por seu colega, mas por si mesmo. Penso que ele compreendeu o que eu disse, afinal não queria se indispor em seu ambiente de trabalho. Além disso, nutria uma sincera admiração por seu colega, bem mais experiente que ele, que estava apenas começando.

José voltou a sorrir, pois percebeu que sua conduta estava causando a admiração de pessoas de peso na empresa. Talvez, num futuro próximo, pudessem trocar idéias, somando forças ao invés de dissipá-las em contendas inúteis e desgastantes. José percebeu também que para ignorar uma ofensa é preciso nobreza de caráter e fidelidade ao propósito de servir e ser útil onde quer que se esteja.

* Psicóloga e escritora. Adquira seu mais novo livro: Superdicas para ser feliz no amor – Editora Celebris.

 
 
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Rio Branco-AC, 27 de janeiro de 2008
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