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“Nós vencemos” Secretária de Saúde deixa o cargo anunciando vitória na guerra contra o transmissor da malária no Vale do Juruá |
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Muito mais que a certeza do dever cumprido, a secretária de Saúde Suely Melo deixa o cargo nos próximos dias com uma sensação de alívio por ter conseguido vencer o que a princípio parecia impossível: o recrudescimento da malária no Acre, principalmente no Vale do Juruá. Graças ao combate coordenador por Suely e sua equipe, que recorreram a expedientes de uma autêntica operação de guerra, o mosquito anofelino, o cruel transmissor da doença, vem recuando e o número de casos já foi reduzido em mais de 60% na região em comparação com igual período do ano passado, segundo atestam os gráficos que monitoram o registro da doença no Estado. A secretária diz que o sucesso da guerra se deve também ao ex-governador Jorge Viana, que soube compreender a necessidade do combate sistemático, e ao senador Tião Viana, incansável como técnico e político na condução das ações que permitiram a redução dos casos. Mesmo com a redução, Suely acha que os números ainda são altos e aconselha o atual governo e o próximo secretário de Saúde, Osvaldo Leal, a continuar as ações que permitiram ao serviço de saúde pública estadual comemorar a primeira vitória sobre a doença. “Mas não podemos descansar um só instante”, disse a secretária na entrevista cujos trechos principais estão publicados a seguir. Pelos números apresentados até aqui, vocês, da Secretaria de Saúde, finalmente ganharam a guerra contra o mosquito da malária na região do Juruá. Como isso foi possível e por que essa vitória não foi estabelecida antes? Suely Melo – Primeiro, nós precisávamos estruturar o serviço, identificar os pontos frágeis do combate à malária. Os resultados positivos não foram obtidos antes porque nós tínhamos um ambiente extremamente propício para o desenvolvimento do mosquito anofelino - transmissor da doença -, em função da formação geográfica da região, com muitos rios, igarapés, lagos e lâminas d’agua abundantes. Diante de todas essas condições favoráveis ao mosquito da malária, precisávamos de estratégias para diminuir a densidade populacional do mosquito e tirar o parasita de circulação. Um trabalho nada fácil? Suely Melo – Foi um trabalho muito duro, que levou mais ou menos, para a gente poder acertar o passo, um ano. Nesse tempo, discutimos, montamos grupo de trabalho e até que, num determinado momento, identificamos que, se fizéssemos ações integradas de controle vetorial, sensibilização social e controle parasitário, iríamos vencer essa guerra. Foi isso o que fizemos: partimos para a luta e montamos um programa de conscientização e sensibilização social junto às comunidades para a prevenção da malária. Paralelamente, montamos um trabalho de controle vetorial fazendo borrifação espacial, borrifação intradomicliar, aplicação de biolarbicida, drenagem de áreas alagadas e aterro de açudes e de viveiros de animais que não estavam mais em uso. Foi uma ação conjunta. Também trabalhávamos com inquéritos hemoscópio - ou seja, fazíamos nas áreas endêmicas, onde existia a maior concentração de pessoas com malária, coleta de lâmina de cem por cento da população. Com isso, diagnosticávamos o parasita precocemente e fazíamos o tratamento. Assim, a gente tirava o parasita de circulação naquela área com o diagnóstico e o tratamento precoce. Mas é claro que o trabalho foi além disso... Suely Melo – Com certeza. Junto a isso fizemos também um trabalho permanente de educação e orientação, conseguimos diminuir a densidade populacional do vetor e o volume de parasita circulante. Com a população mais esperta sobre o assunto, percebemos que havia diminuído também a susceptibilidade à infecção pelo parasita da malária. A senhora falou em sensibilização social. Concretamente, o que significa isso? Suely Melo – Foi um trabalho muito bonito. Fizemos palestras nas escolas, nas igrejas, nas comunidades, nos sindicatos e em todas as entidades da sociedade civil organizada. Nessas reuniões, explicávamos a realidade que eles estavam vivendo e como é que aquelas pessoas poderiam fazer para se proteger. A verdade é que a população do Juruá é extremamente resistente a fazer o diagnóstico precoce... O que vem a ser o diagnóstico precoce? Suely Melo – É aquele método que consiste em furar o dedo para fazer a lâmina de sangue sem estar sentindo os sintomas da doença. A gente chegava, por exemplo, numa casa onde havia cinco pessoas com a malária, mas entre eles havia um que não estava, e quando a gente pedia para fazer o diagnóstico também nessa pessoa, ela dizia: ‘Faço nada, não estou sentindo nada!’. São pessoas extremamente resistentes inclusive para tomar a medicação que a gente deixava. Quando se dizia a essa pessoa que ainda não estava doente, que ela podia ter o parasita mas não estava com os sintomas porque o índice parasital que estava no seu organismos não era suficiente para os efeitos colaterais e que mesmo assim ela precisava tomar o medicamento para não vir a sentir os sintomas, ela reagia dizendo mais ou menos assim: ‘Vou tomar remédio nada, não estou sentindo nada...’. Então, era algo muito difícil de fazer, de convencer. Mas quando eu expliquei isso nas escolas, para as crianças - eu calculo que falamos com 25 mil crianças. Ao que tudo indica, no dia em que as crianças entenderam isso foi que os adultos vieram a compreender. Não tenho dúvida de que foram as crianças que sensibilizaram os adultos. A partir daí passamos a fazer maratonas nas escolas explicando o que era a malária e como evita-la. As crianças faziam desenhos, escreviam textos, apresentavam peças de teatro sobre o tema. Com isso, foram absorvendo a importância do controle, a importância de tapar cacimbas, de limpar a margem dos igarapés porque é ali que o mosquito desova. Na hora em que passaram a conhecer o comportamento do mosquito, o horário em que ele se alimenta, como e por quê a pessoa pegava malária, como o parasita se desenvolvia dentro do organismo humano e o que poderia ser feito para evitar a doença, foi quando a gente conseguiu sensibilizar a população adulta. O que faltava era conhecimento das pessoas em relação à doença. Então, o maior problema era a falta de comunicação? Suely Melo - Com certeza! Acho que chegamos um momento em que descobrimos a forma de nos comunicar com a população, porque a gente não tinha canal de comunicação com as pessoas. Falar em parasita circulante, inquérito hemoscópio e outras palavras técnicas, parecia assustar as pessoas. Quando traduzimos o termo inquérito hemoscópio para arrastão e parasita circulante para o bichinho que está dentro do seu sangue, informando que hoje tem dez e amanhã tem cem, sentimos que a população começou a entender e a coisa começou a deslanchar. E, a partir daí, nós estabelecemos uma relação tão legal com a população, quando a gente fez o encerramento da campanha - uma campanha de mais de um mês, utilizando rádio, televisão, carros de som, igrejas, escolas - , as pessoas já estavam sensíveis. As mulheres chegavam para mim e diziam: “eu vou pôr o meu marido numa jaula!”. Que negócio é esse da jaula? Suely Melo – É que, numa das muitas palestras que fiz, tentei sensibilizar as mulheres a convencerem seus maridos a tomarem o medicamento e tomarem cuidado nas áreas onde trabalhavam, fora de casa, em locais endêmicos, e voltavam para casa, muitos deles infectados, recusando-se a tomar o medicamento ou tomar os cuidados para não ser picado, de usar repelente, de não irar para a beira dos igarapés ou dos açudes no final das tardes a fim de evitar ser picado pelo mosquito. Esse cidadão, ao não tomar certos cuidados, quando voltava para casa, trazia malária para os filhos, para a mulher, para os vizinhos. Uma dessas mulheres queixou-se de que seu marido era muito teimoso e eu propus, de brincadeira: “Ponha ele numa jaula!”. E a coisa pegou. A senhora defende então que, com certos cuidados, vai se extinguir a malária? Suely Melo – Eu não diria acabar, porque a doença é própria da região amazônica. O Vale do Juruá, por exemplo, é infestado de mosquito transmissor - mas o mosquito sadio. Se uma pessoa é picada por um mosquito com o parasita e volta para casa, numa região onde está esse mosquito sadio, ele vai fazer a transmissão. A senhora acha então que o próximo governo, se quiser combater a malária na região do Juruá, tem que insistir nesse trabalho que vocês fizeram? Suely Melo - Não existe outro caminho de combate. O mosquito vai sempre existir - até porque ocorre naturalmente. As condições ambientais, com temperatura, turbidez da água, tudo é ideal para sua reprodução. Por isso, nós vamos ter sempre o mosquito – mas podemos ter, é claro, o mosquito sadio, desde que a gente tire o parasita de circulação. Mas, como a gente estava vivendo uma epidemia, a gente tinha que diminuir a densidade populacional do mosquito e tinha que tirar o parasita. Isso é uma forma simples e básica que a gente sabia desde o começo. O que não sabíamos era acertar este passo, que passava, fundamentalmente, pela comunicação. Neste ano, não há risco de uma epidemia no Vale do Juruá? Suely Melo – O que eu posso dizer é que não podemos relaxar um segundo. Enquanto estivermos esses índices, que são bem abaixo daquilo que encontramos, temos que nos preocupar. Temos que passar pelo menos mais um ano fazendo uma ação integrada. Essa é uma sugestão que eu deixo para o novo secretário de Saúde: enquanto nós não tivermos um número mínimo de casos - porque deixar de ter a doença a gente nunca vai conseguir -, é preciso lutar muito, a todo instante. Só assim vamos trazê-la para índices aceitáveis. E quais são os índices aceitáveis? Suely Melo – Hoje, no Estado do Acre inteiro, só temos malária acima do normal em cinco municípios: Plácido de Castro, Acrelândia e os três maiores do Juruá - Cruzeiro do Sul, Rodrigues Alves e Mâncio Lima. Números aceitáveis? 50 casos por mês numa população como a de Rio Branco. Isso seria aceitável. Assim é possível controlá-la Mas quando ocorre de forma densa, como foi o caso do Juruá, nós temos que fazer o monitoramento e o controle da doença durante muitos anos até conseguir tirar o parasita de circulação. Como é que o parasita age no organismo do ser humano? Suely Melo – Olhe, eu não sou médica. Sou bióloga, mas tive que estudar muito a doença. Ela funciona assim: a malária é originária do macaco. O primata tem o parasita, mas ele não tem a doença, é só um hospedeiro. Na hora em que um anofelino pica o macaco, ele se contamina. Num ciclo de oito dias, ele transmite para o homem, através da picada. No homem, o parasita é patológico. Assim, uma vez hospedado no ser humano, ele rompe as hemácias do organismo. As hemácias são elementos dos globos vermelhos. Na troca gasosa, quando joga para fora o que aspiramos em busca de oxigênio novo. Dentro das hemácias está a hemoglobina, que pega esse oxigênio e leva para a nutrição das nossas células. O problema é que, numa pessoa infectada, o parasita se aloja dentro dessas células. É por isso que a pessoa fica anêmica. O organismo quer reagir à agressão e desenvolve um número muito grande de linfócitos e cai a corrente linfática e começa a verdadeira guerra entre os globos brancos com o parasita . E vem a febre, porque, com o aumento de linfócitos, vem a infecção. Qual a participação do governo do Estado e do senador Tião Viana nessa luta contra a malária? Suely Melo – O senador Tião Viana teve uma participação fundamental em tudo isso. Primeiro como médico, como um grande técnico que nos orientou muito em relação ao combate, até porque ele tem um conhecimento vasto nessa área. Ajudou-nos também como político, fazendo gestões junto ao Ministério da Saúde para que nós tivéssemos apoio financeiro e estrutural para combater a malária. Quanto foi gasto nesta guerra? Suely Melo – Nós gastamos, até hoje, uma média de R$ 600 mil a R$ 700 mil por mês só naqueles três municípios do Vale do Juruá dos quais falei. Já estamos nesta luta desde 2003. Já chegamos a R$ 1 milhão em alguns meses. Temos hoje, nesses três municípios, cerca de 600 servidores só para o combate à malária. São médicos, agentes de saúde, técnicos de nível superior, técnicos em educação, médicos, motoristas, bioquímicos. Só para se ter idéia da operação, o consumo de combustível na região chega a 10 mil litros por mês. O governo foi importante a nos apoiar nessa operações, mas o senador Tião Viana foi vital para que conseguíssemos um bom resultado. O senador e o ex-governador Jorge Viana participaram diretamente do trabalho ouvindo, dando conselhos, acompanhando de perto tudo através dos boletins e ajudando a estabelecer as estratégicas que nos permitem dizer: nós vencemos. |
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