VARIEDADES

Uma homenagem ao velho Lhé

Cedida
Abrahim Farhat é um dos
fundadores do PT no Estado


Selma Neves *

Resolvi escrever um texto falando do Abrahim (o Lhé), porque quero homenageá-lo em vida. Coisa que não deu tempo de fazer com Hélio Melo, Matias e Bacurau.

Bom, lembro o dia em que encontrei o Abrahim pela primeira vez. Fui convidada para ir a sua casa, não tenho certeza, mas, acho que foi pelo Nilson Mourão. Lhé havia preparado uma comida árabe para o Lula, (sim, o Luiz Inácio). Creio que foi no ano de 1981. Da comida eu não me lembro, mas, de um açaí maravilhoso que saboreamos, nunca me esqueci. Fiquei surpresa com o estilo do velho Lhé, porém, não era de se admirar muito, pois, todos ali tinham uma vestimenta própria, (como se no meio houvesse uma moda e quem andasse diferente não pertenceria ao grupo, ou coisa parecida).

Meu próximo contato foi quando vi uma propaganda eleitoral com o nome do Abrahim para senador, na chapa do Nilson Mourão, governador e Elias Rosendo, vice, em 1982.

O tempo passou e eu voltei a encontrar o Lhé num ‘empate’ que houve no seringal Catuaba, lá pelo ano de 1985. Foi então que encontrei a Marina Silva no nosso primeiro embate. Na época, eu trabalhava na Comissão Pastoral da Terra (CPT). Única brasileira a trabalhar na CPT, eu era também a única que podia disfarçar-se de filha de um morador e participar de qualquer movimento. O ‘empate’ era organizado pelos trabalhadores rurais de lá e uma mulher (moradora, é claro), chamada Ivanilde, aquela que hoje preside a Associação das Pessoas que Fazem Tratamento de Saúde Fora de Domicílio (Asfeac). É... essa mulher tem coragem! Eu a vi enfrentando cerca de 200 policiais militares, sem contar que estava com a barriga no pé da goela, grávida de uns oito meses. Em uma avaliação do ‘empate’, jogaram pesado com a Ivanilde e ela sentou-se num toco que tinha ali na Praça dos Autonomistas e chorava, chorava... Eu, ainda quase menina, não entendia direito o que estava acontecendo, mas lembro-me que ao lado daquela mulher corajosa, naquele momento, tão frágil, tinha um velho companheiro, era o Abrahim, o Lhé, com seu jeito manso de ser. Quando você menos espera, ele está por perto, sempre defendendo os humildes.

Lembro-me novamente do Lhé na ocupação do bairro Conquista, no ano de 1985. A ocupação era próxima à minha casa e, como eu já me identificava com aqueles barbudos, estava lá. Mesmo sem saber o porquê, fui para o meio dos ocupantes, e para melhor poder participar, tive que ocupar também. Quando menos esperei, o Lhé apareceu para ajudar, como é de costume. Ali nós dois enfrentamos coisas que só quem conhece de perto uma ocupação pode imaginar. O Lhé fez uma comissão e foi arrecadar alimentação para os ocupantes. Preocupava-se com os doentes, com as crianças, encorajava as pessoas e, principalmente, a mim. Ficava nas nossas casas, almoçava conosco. Era um verdadeiro companheiro, na essência da palavra. Ajudava em tudo, até em apartar brigas entre os ocupantes. Ele falava para mim: “Velha, temos que ter o cuidado de não deixar acontecer, aqui, a violência que houve no bairro João Eduardo”.

Por nossa participação nesse processo, fomos chamados a participar de um fórum nacional sobre solo urbano, que aconteceu em Petrópolis-RJ, em março de 1986. Ao nos encontrarmos no aeroporto, eu pensei: ‘Será que o Abrahim vai viajar assim de chinela de dedo?’ Bobagem minha. Ele viajou e andou no Rio de Janeiro do mesmo jeito que andava pelas ruas de Rio Branco. Esse é o Lhé! Pela primeira vez eu viajei de avião, conheci aquela cidade maravilhosa e fiquei frente a frente com o mar. Coincidência né? Sempre com o Abrahim ao meu lado. Não tinha jeito, a amizade estava selada para sempre.

Quando comecei a sair de casa para divertir-me, eu ia sempre para o “O Casarão” e lá estava o Lhé, ou Brachula, como é chamado por alguns, sorrindo, feliz, companheiro, amigo e cheio de vida. Dançava a noite toda, se não tivesse mulher querendo dançar ele dançava com o homem que topasse. Sua dança tem uma característica própria; ele cria os passos na medida em que está dançando. Sua principal parceira de dança era sua mãe. Sua bebida era sempre uma garrafinha de água mineral, e, às vezes, um café forte e meio amargo.

Nossos encontros eram freqüentes na sede do PT ou onde tivesse manifestação dos trabalhadores, ou em defesa do meio-ambiente. Porém, o encontro mais marcante foi no gabinete do senador Tião Viana, como meu colega de trabalho. Fiquei orgulhosa de poder dividir o mesmo local de trabalho. Sua sala de trabalho é um espetáculo! Só ele entende. Qualquer ser humano “normal” já teria adoecido naquela sala. Acho que é o alho que ele consome diariamente, que o faz ter tanta resistência. É papel para todos os lados, é poesia (dele é claro) espalhada na sala inteira, bandeiras do Acre, do PT e da Palestina, várias peças de artesanato local, e um ventilador quebrado, segurado por duas cadeiras jogando vento nos papéis empoeirados... é uma maravilha.

Volta e meia encontramos o Lhé em algum lugar acompanhado pelo Badate, sua mãe e sua irmã Léia ou Hélio Khoury, ou ainda, andando na rua com a blusa no ombro, empurrando uma bicicleta, cabelos brancos, barba branca, meias (um pé branco, o outro azul) sorrindo como se fosse o homem mais feliz do mundo. E eu acho que é. Além de feliz, o Lhé é imortal. Passa para nós uma mensagem de companheirismo, simplicidade, convicção socialista, de homem bom. O Lhé é petista até a alma, mas foi companheiro ao ponto de ajudar a filiar pessoas no Partido Verde (PV), para que o partido pudesse instalar o seu diretório no Acre.

Sua principal característica é a defesa dos humildes. Por eles, o Abrahim liga até pro celular do Lula. Não conto as vezes que peguei o Lhé deixando recado no celular do governador Jorge Viana, ministra Marina Silva, ministro Márcio Thomas Bastos e agora do governador Binho. Esse é o Lhé.

* Licenciada em História e militante do PT

 

 
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Rio Branco-AC, 27 de março de 2007
   GIRO GERAL
Com Moisés Alencastro
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   PORONGA
Da Redação
 
 
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