ESPECIAL
   ALMANACRE
Elson Martins

Esqueceram de mim!

Talvez a idéia possa ter ficado na cabeça do seringueiro amazonense Jaime da Silva Araújo, hoje com 70 anos, que, na tarde de 17 de outubro de 1985, encantou estudantes, intelectuais e políticos de Brasília com a desenvoltura, poesia e graça com que anunciou a existência dos Povos da Floresta. Sim, ele emergiu como um duende das matas lendo poemas e rezando a oração dos seringueiros que ele mesmo escreveu, sendo aclamado presidente do Conselho Nacional dos Seringueiros criado naquela ocasião.

Índio potiguar de origem, Jaime tinha apenas dois meses de nascido quando seu povo foi dizimado. Criado por pais adotivos no Ceará, aos 19 anos, veio para a Amazônia tornando-se pescador, castanheiro, embarcadiço, caçador e seringueiro. Perambulava pelos seringais do rio Madeira, no Estado do Amazonas, quando o encontraram e o convidaram para o Primeiro Encontro Nacional dos Seringueiros. Pela performance que exibiu foi convidado pela Universidade Federal de Brasília para dar aulas de História (da Amazônia). Mesmo sem formação universitária, lecionou durante um ano e meio.

Como presidente do CNS, Jaime Araújo fez palestras no Brasil e no exterior, reproduzidas em vários idiomas. Em 1989 lançou seu primeiro livro: “A Amazônia , o Seringueiro e a Reserva Extrativista” - traduzido para o inglês - que revelou nele um artista plástico inspirado. Após deixar a UNB, foi levado pela antropóloga Mary Allegretti para lecionar e pintar na Universidade Aberta inaugurada no Parque Chico Mendes, na cidade de Curitiba. Na segunda metade dos anos noventa, com 57 anos, Mary o levou ao Amapá, ocasião em que concedeu entrevista ao jornal Folha do Amapá que montei e editei em Macapá, a partir de maio de 1991.

Na entrevista feita por Vássia da Silveira, da qual publico alguns trechos a seguir, Jaime da Silva Araújo (que eu não saberia informar agora onde se encontra e se está bem) fala como um sábio da floresta. Um sábio aparentemente esquecido.

Entrevista

Folha - Fale de como chegou à presidência do Conselho Nacional dos Seringueiros.

Jaime - Na época (1985) eu lutava ao lado dos seringueiros do rio Madeira por nossa libertação. Era membro de uma comunidade eclesial de base. Eu organizava o pessoal denunciando agressores e prometia: - Olha, nós vamos criar uma instituição para nos representar, não sei que dia, não sei que mês, não sei que ano... O Chico Mendes fazia o mesmo no Acre, como se tivéssemos conversado antes.

Folha - Como você reagiu ao ser convidado para o I Encontro Nacional dos Seringueiros em Brasília?

Jaime - Eu pensei: então tenho que fazer alguma coisa. Visitei e conversei com as comunidades, após o que escrevi o primeiro roteiro para criação das reservas extrativistas. Este documento existe, foi escrito por mim. Depois eu pensei: ainda é pouco, e escrevi a poesia “Tu e Eu”. Na véspera da viagem, porém, ainda achei pouco e escrevi o Pai Nosso do Seringueiro, hoje conhecido no mundo inteiro (foi lido na minissérie Amazônia, da TV Globo).

Folha - E como foi a experiência como presidente do CNS?

Jaime - Eu fui porta-voz dos seringueiros, praticamente, no mundo inteiro. Fiz campanhas sobre o meio ambiente na Europa, meus textos foram reproduzidos por lá.

Elson Martins
Jaime Araújo: sábio da floresta

Folha - Você encarava isso com naturalidade?

Jaime - Sim. Eu sempre esperei por isso, porque tinha um sonho de menino. Todo menino é rei, não é? Então eu queria ganhar uma coroa, e essa coroa, eu ganhei.

Folha - Como acaba de afirmar, você viajou muito. O que achou dos lugares que conheceu?

Jaime - Vou lhe dizer uma coisa: quando chego numa cidade como Berlim (Alemanha), Barcelona (Espanha) ou Nova York (Estados Unidos) eu não vejo beleza. Acredite: pra mim é tudo feio e asqueroso. Agora, você quer ver eu achar bonito é chegar de volta, entrando na Amazônia. Quando olho a grandeza do rio, a gigante floresta, aí eu digo “aqui é bonito”. Lá é bonito pra eles...

Folha - A vida na floresta melhorou com a organização dos seringueiros e a criação do CNS?

Jaime - As melhoras foram localizadas. A gente queria generalizar, mas o governo brasileiro não cumpriu o que prometeu: o repasse de recurso e tecnologia. E como surgiram muitas ONGs e os recursos foram fracionados, diminuiu o volume do dinheiro que entrava no CNS. A entidade não pôde mais ser uma escola de líderes.

Folha - Você se considera um líder nato?

Jaime - Eu me considero sim, porque não passei por nenhuma escola.Tudo eu aprendi na prática. Pra mim, a escola é o amanhã. Eu aprendi hoje, e amanhã falo de hoje: isso é uma grande escola para mim, o dia a dia. Quando falo sobre a defesa, qualidade e comercialização da piaçaba, é porque eu cortei piaçaba. Quando lhe falo sobre a castanha, é porque trabalhei com castanha.. Quando lhe falo da copaíba é porque coletei copaíba.Quando lhe falo da malva e da juta é porque trabalhei com malva e juta...Quando lhe falo sobre a borracha é porque fui seringueiro...

Folha - E essa força de artista que você tem, de onde vem?

Jaime – Comecei muito jovem...eu escrevia com pedaços de pau. Eu morava num local onde tinha muito areia e escrevia nela com um pedaço de pau. Depois eu ficava de pé, do lado e ia discursar o que eu tinha escrito. Devia ter uns oito anos.

Folha - Hoje (1995) você continua se sentindo como o menino que escrevia na areia?

Jaime - Continuo sonhando, sempre sonhando... porque a gente pode nascer velho e morrer com 100 anos, muito criança. Todos nós temos uma criança dentro de nós. Quando nós a matamos, nós nos tornamos cruéis, ficamos individualistas e passamos a não respeitar mais os direitos dos outros. Mas enquanto essa criança está viva dentro de nós, nós temos um ponto de sensibilidade que nos leva a nos unir, pelo menos em alguns momentos, à condição de minoria dos outros, a somar com eles...

OPINIÃO

Caro Elson Martins,

Integrante do corpo de operários do jornal Página 20, acompanho, todos os domingos, a coluna “Almanacre”, de sua lavra, tanto para me certificar dos acontecimentos de minha aldeia quanto para me deliciar com a extraordinária facilidade que você tem de reproduzir opiniões como raros profissionais da nossa imprensa seringueira.

A propósito, essa admiração já cruza três generosas décadas, quando, em meados dos anos setenta, ainda imberbe, eu trabalhava como aprendiz de tipógrafo no extinto Serviço de Divulgação do Estado do Acre (Serda), em cuja gráfica você e companheiros da grandeza de Suede Chaves, Célia Pedrina, Arquilau de Castro Melo e Silvio Martinello varavam as madrugadas para pôr nas ruas “O Varadouro”, noticioso que viria se consolidar como paradigma de ousadia num período tão melancólico vivido pela República brasileira.

Escrever bem é privilégio de poucos, isso é fato. Mérito seu estar no meio de um grupo cada dia mais seletivo e restrito. Todavia, o que me levou a admirá-lo ainda mais foi sua surpreendente elegância e “sangue-frio” ao publicar no último domingo, sem cortes, a carta-agressão enviada por um engenheiro catarinense que se ofendera com uma declaração sua dirigida à categoria, na edição anterior de “Almanacre”, que se referia à recém-reinaugurada Praça dos Tocos.

Não vem ao caso registrar aqui, ipsis litteris, a passagem que suscitou a ira do signatário. Contudo, na minha descartável opinião, o doutor Airton Lopes melindrou-se gratuitamente. Para ser sincero, não consegui enxergar no texto essa carga depreciativa a que ele fez insistente alusão. Tampouco vi motivo que exigisse revide tão acintoso, com uma lamentável debilidade de argumentos.

Pessoas habituadas a receber elogios freqüentes, como você, teriam naturalmente se apressado em ocultar, ou mascarar, o teor do e-mail recebido. Foi um “golpe” de sabedoria e humildade da sua parte.

Interessante, né, Elson? Esse pessoal que mora abaixo do Trópico de Capricórnio adora se abespinhar com nosso flagrante bairrismo, e no papel costuma insinuar uma igualdade étnica que na prática nunca funcionou. São geralmente frios, dão bom-dia entredentes apenas para cumprir protocolo e espiam o nortista com o rabo do olho temendo se contaminar. Para esses nórdicos da sul-américa, o Brasil começa na Bahia e termina na Lagoa dos Patos. E acabou!

Você com certeza já se sentiu discriminado ao declarar com orgulho sua naturalidade. Eu também engoli calado manifestações de segregação. Em Santa Catarina mesmo, nove anos atrás, um senhor branquelo, ao ouvir que eu havia nascido no Acre, de pronto perguntou se aqui falavam português. Outro jurou que nossos computadores eram movidos a lenha e um terceiro chegou a garantir que Manaus era uma praia.

Longe de incitar polêmica ou protagonizar uma dessas cansativas réplica-tréplicas em voga no jornalismo local, quero tão-somente ratificar minha condição de bairrista irrecuperável. Eu e uma valorosa legião de amazônidas que, como você, Elson Martins, mesmo achincalhado por alguém que superdimensionou um contexto e o transformou num episódio de proporções desnecessárias, teve a sensibilidade de reproduzir, para juízo de quem interessar possa, aquela profusão de adjetivos desrespeitosos contra quem comete o “pecado” de amar tanto a terra que eu também amo.

Beneilton Damasceno (benedamasceno@hotmail.com)

Nota do Editor

O Beneilton (humilde que só) é formado em Letras e técnico-administrativo da Universidade Federal do Acre. Faz bico no jornal Página 20, como revisor, e de vez em quando escreve crônicas maravilhosas. Lembro dele, muito jovem, “bicando” letrinhas nas caixas de tipos da antiga Imprensa Oficial, nos anos setenta.

 
 
© Copyright Página 20 todos os direitos reservados    -      Imprimir       -       TOPO
 COTIDIANO
 COLUNAS
 EDITORIAL
 ENTREVISTA
 ESPECIAL
 POLÍTICA
 OPINIÃO
 VARIEDADES
 EDIÇÕES
 EXPEDIENTE
 E-MAIL
 
   GIRO GERAL
Com Moisés Alencastro
   NA TRIBO
Com Roberta Lima
   PORONGA
Da Redação
 
 
P E S Q U I S A

Rio Branco-AC, 27 de maio de 2007