OPINIÃO
   CRÔNICA

José Cláudio Mota Porfiro *

 

Coisa nossa!

Por que alguns dos nossos forasteiros gostam de falar tão mal da terra que lhes dá acolhida?

Na realidade, quero fazer uso, mais uma vez, do título que me pespegou tão nobre analista de codinome Leopoldo Assumpção. Hoje sou novamente crítico de costumes. Mas não quero falar mal dos rondonienses nem do povo do Amazonas. Nada tenho a ver com eles. Critico, sim, com bastante veemência, o meu povo de cá destes sopés andinos. Repito: se alguém falar mal desta gente ordeira, faço confusão. (É como diz o pai do Mauricinho: meu filho não tem defeito!) Quem deve falar desta - ou sobre esta - terra sou eu porque sou daqui e conheço dos nossos problemas até as soluções.

Senão vejamos, dentre outros fatores característicos do nosso comportamento, um ou dois exemplos crassos...

Qualquer acreano já chegou a um local, em Rio Branco ou Cruzeiro do Sul, onde está uma dúzia de amigos. Lá está, também, um desconhecido, talvez recém-chegado à terra. Digamos que seja num bar da moda. Vá lá que seja na sala dos professores de uma faculdade. Ou no living de uma residência onde se realiza encontro frugal... Dá na mesma.

Da entrada, já fui avistando a rapaziada do chope e algumas matronas aposentadas da Ufac. Era aniversário de um solerte asteróide que pensa brilhar muito nos salões das nossas academias de farra. O som era afro-reggae ou uma coisa balançada qualquer. De longe, vi um arlequim qualquer, de paletó, bêbedo, recostado a uma poltrona no canto da área, onde fazia morada a orgia da hora.

Fiquei então a conversar com dois irmãos mulatos e duas louras e meia, já de olho na morena pedra noventa que dizia ter sido aluna minha. Uma beleza! Meia hora depois, talvez, olhei de novo e o arlequim solitário continuava incólume. Um instante... E a música parou para o meu amigo socyalite fazer uso da palavra já bêbeda. Foi aí que irrompi - já pauladinho - no meio do círculo que se formara. Disse eu que, infelizmente, não é costume acreano apresentar os recém-conhecidos, o como o Walter, o de paletó, que não olhava pra ninguém e ninguém olhava pra ele. Estivera ali de castigo pagando talvez pelo fato de conhecer tão poucos ou alguém por ali. É coisa nossa!

No próprio colégio público onde vendo aulas de um português arcaico, à noite, os novos professores nunca são apresentados aos que estão há mais tempo por ali. E tenho notado que, talvez, os recém-chegados fiquem constrangidos com a frieza tão própria nossa e deles mesmos... Seríamos nós realmente hospitaleiros?

Outra observação...

No Parque da Maternidade, ainda manhãzinha, costumava fazer caminhada de meia hora, antes de ir para os meus (ainda atuais) exercícios diários de musculação. Lá encontrava gente conhecida e os que nunca vi. Então, a uns cem metros antes do encontro, na calçada, o cidadão ou a cidadã me viam, me observavam, mas se aproximavam e baixavam a cabeça... E o bom-dia! Jamais era dito ou sussurrado, com raríssimas exceções. Imagino eu que talvez tenha ficado mais pobre, ou menos belo. Imagino que o meu ex-conhecido talvez tenha ficado rico e metido a besta, ou tornara-se mais pobre do que era e está hoje com vergonha da sua maldição.

Depois de ter passado alguns anos entre o sul de Minas e o norte de São Paulo, fiquei metido a querer falar com todo mundo. Coisa que acreano da gema detesta fazer.

Coisa nossa!

 

 
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Rio Branco-AC, 27 de maio de 2007
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