OPINIÃO
   MIOLO DE POTE

Marcos Vinícius Neves

 

Memória da arqueologia acreana (III)

Enquanto as pesquisas arqueológicas de caráter científico na Amazônia começaram no final da década de 40 e inicio dos anos 50, no Acre isso só iria ocorrer quase trinta anos depois. Mas nesse meio tempo uma pessoa extraordinária, que vive na memória de muitos acreanos, já se dedicava a descobrir vestígios arqueológicos da maior importância, nos legando um rico acervo que hoje se encontra e pode ser visto no Museu da Borracha.

Arthur Jerosh – Um pioneiro (homem) de verdade

Há muito tempo sinto uma enorme curiosidade sobre um personagem quase lendário de Rio Branco: o Sr. Arthur Jerosch que, segundo o pouco que ouvi, havia sido dono de uma livraria em Rio Branco. Esta curiosidade era motivada pelo relato do Dr. Ondemar Dias Junior, o primeiro arqueólogo profissional a trabalhar no Acre, que o havia conhecido pessoalmente nas missões de pesquisa que realizou por aqui e o descrevia como uma pessoa extraordinária.

Curiosidade ainda maior porque ele foi o responsável pela doação de uma rica coleção de cerâmicas arqueológicas ao Museu da Borracha e ao Instituto de Arqueologia Brasileira (IAB) na década de 70 e que se constitui em uma das mais importantes descobertas da pré-história do Acre, devido às características únicas dos vasos e potes descobertos por Seu Arthur, como veremos adiante.

Mas durante muitos anos essa curiosidade permaneceu apenas latente, estranhamente não surgiam outras informações sobre esse homem que me parecia ter sido tão importante. Mas desde que comecei a escrever, nesta coluna, a história da arqueologia acreana me prometi que iria atrás de mais informações a respeito do Sr. Arthur, até por uma questão de justiça. Assim acabei encontrando duas pessoas, também muito especiais, que durante anos conviveram com Arthur Jerosch e me revelaram que ele foi muito mais do que apenas um livreiro ou um pioneiro das pesquisas arqueológicas no Acre.

O Início

Graças ao depoimento de Dona Aldeli Malveira, esposa e companheira durante toda sua vida acreana, soubemos que Arthur Reginaldo Jerosch nasceu em São Paulo, em 23 de junho de 1923 e era filho de alemães que se dedicavam a atividades industriais. O que nos leva a crer que tenha crescido sem conhecer grandes dificuldades, apesar de termos pouquíssima informação a esse respeito. O certo é que foi lá em São Paulo que se formou em Economia. Mais tarde casou e se tornou pai de Evelin e Arthur. Entretanto, como a vida é cheia de voltas e surpresas, dissabores vividos por lá o levaram a partir em busca de outros lugares e de uma nova vida.

Assim, Arthur veio para Belém do Pará e pouco depois embarcou para o Acre por motivos que desconhecemos. Aqui chegando foi trabalhar na construção da ETA da Sobral e mais tarde na implantação da primeira usina de asfalto do Acre. Mas, inquieto, Arthur logo inventou de abrir um novo negócio que o tornaria muito conhecido na cidade, em especial pelos alunos e professores da UFAC: a Livraria Cultural.

Situada na Avenida Ceará, quase em frente à UFAC (que na época funcionava onde hoje é o Colégio de Aplicação), a livraria Cultural logo se tornou ponto de encontro, conversas e discussões sobre todos os assuntos que se possa imaginar. Como leitor ávido que era, Arthur conhecia profundamente os livros que vendia, tornando-se uma referencia não só para o pessoal da universidade, mas para todas as cabeças pensantes da Rio Branco dos anos 70.

Conversando casualmente sobre isso com Silvio Margarido, fiquei sabendo que naquela época, quando o livro “Eram os Deuses Astronautas” fazia enorme sucesso, ele e o Binho viviam na livraria conversando com o Sr. Arthur. O mesmo me disse, em ocasiões distintas, o Prefeito Raimundo Angelim e o jornalista Élson Martins que acrescentou que essa livraria tinha um nome muito apropriado porque se tratava realmente de uma instituição cultural, pois era ali que aconteciam as melhores conversas e encontros dos que pensavam e faziam a cultura acreana naqueles anos em que o Acre passava por profundas transformações. E o negócio prosperou tanto que além da Livraria Cultural, Sr. Arthur abriu também um pequeno espaço dentro da própria UFAC e uma outra livraria em Porto Velho.

As aventuras

Mas Arthur Jerosch era definitivamente um homem inquieto. Segundo Dona Aldeli ele sempre dizia que aqui no Acre estava de férias e precisava se cansar. Por isso nos fins de semana pegava a estrada e ia subir e descer rios, lagos e igarapés para pescar.

E foi seu maior companheiro de pescarias, o Sr. Miguel Bichara, quem me contou como se divertiam naqueles dias. Saiam no sábado e iam ao igarapé Visionário na Vila Plácido, ou pro Quixadá, Pedra Mole, Batalha e outros pesqueiros com algumas garrafas de cerveja, malhadeiras, tarrafas e espinheís pra acampar, pescar, comer peixe amuquinhado na fogueira e voltar no domingo trazendo trinta, quarenta quilos de piaus, pescadas, curimatãs que eram generosamente compartilhados com toda a vizinhança. Caçar também era bom, mas segundo Seu Miguel, não era a preferência de Sr. Arthur que gostava mesmo de pescar.

“Pra ele não tinha tempo ruim. Pensava longe, lá na frente. Quando inventou de me fazer trabalhar com móveis de cipó, ofício que tenho até hoje, ele mesmo entrava no carro e ia com a gente entrar na mata, derrubar cipó que depois ajudava a cortar e descascar. Era engraçado ver aquele homem grandão, todo sujo dos paus que caiam na cabeça da gente na hora de colher o cipó, tomando banho no igarapé gelado pra poder voltar pra casa menos sujo”, conta Seu Miguel. “Era realmente um homem bom, que sabia conversar com qualquer um e fazer amizade.”

Descobertas

Além das pescarias, como bom autodidata que era, Arthur se interessava também por fósseis e vestígios de antigos povos indígenas. Era só receber alguma informação e lá se ia ele atrás, conforme lembra Dona Aldeli. Assim descobriu fósseis de tartaruga gigante em Assis Brasil e recolheu machados de pedra polida na área da Bonal. Mas sua grande descoberta não foi ainda totalmente avaliada pela ciencia.

Foi numa de suas pescarias, em companhia de Miguel, que Arthur recebeu a informação de um lugar, no vale do rio Abunã, onde existia um monte de “coisas de índios”. Sem titubear entrou na mata, guiado pelo pessoal local e encontrou um importante sítio arqueológico onde achou grande quantidade de material cerâmico muito variado. Eram potes, tigelas, urnas inteiras e fragmentadas de grande beleza. Havia inclusive cerâmicas zoomórficas e antropomóficas com vestígios de pintura policroma, conforme dizem os arqueólogos. Ou seja, entre os potes encontrados havia esculturas de porcos e antas em cerâmica, bem como potes que retratavam rostos humanos com vestígios de pintura colorida, conforme se diz em língua de gente.

O Prof. Ondemar Dias Junior denominou esse potes de cerâmica de “vasos-caretas” (um dos quais foi transformado na logomarca desta coluna) e chamou atenção para a forma básica da maioria dos potes composta por um segmento cilíndrico embaixo, um globo no meio e outro segmento cilíndrico em cima. Essa forma básica, com o prosseguimento das pesquisas, acabou se revelando como o tipo-guia da cerâmica da Tradição Quinari, presente nos vales do Acre e Purus, muito antes da chegada dos homens brancos por aqui. Assim, pode ser encontrada a centenas de quilômetros do sítio arqueológico localizado por Sr Arthur Jerosch, nas urnas funerárias que existem em diversos sítios do entorno de Sena Madureira. Alem do que essa mesma Tradição Quinari de povos ceramistas amazônicos, definida pelo Prof. Ondemar Dias Junior, também está presente em sítios arqueológicos com estruturas geométricas de terra (os pseudo-geoglifos).

Divulgação
Potes encontrados por Arthur Jerosch e doados ao Museu da Borracha

O fim

Com essa contribuição inestimável, Arthur Jerosch se tornou o verdadeiro pioneiro da arqueologia acreana. Conversava e informava sobre suas descobertas a todos que lhe procuravam, como aconteceu com o próprio Prof. Ondemar Dias Jr. Segundo Dona Aldeli, não era raro Arthur receber diversas pessoas em sua casa para longas conversas através das quais despertou muitas curiosidades e vocações. A ponto de, em uma matéria feita por Zé Leite e outro jornalista, pouco depois de sua passagem, ser tratado como “o maior e mais famoso arqueólogo amador do Acre”. Fato ainda mais realçado pelo desprendimento de ter doado seu acervo ao Museu da Borracha entre 1973 e 1974.

Mas durante as preciosas conversas que tive com Dona Aldeli e Seu Miguel, o que mais me surpreendeu não foram as histórias relacionadas à vida e aventuras desse homem extraordinário, mas o profundo amor e saudade que eles lhe dedicam. Através do olhar brilhante dessas duas pessoas descobri que mais que um descobridor das coisas acreanas, o Sr. Arthur Jerosch foi um grande e generoso ser humano. Capaz de conversar com igual respeito e consideração com o mais culto e com o mais simples dos homens. Dono de uma inteligência prodigiosa que nunca se transformou em arrogância. “Os problemas sempre ficavam na rua, não reclamava de nada e nem tinha inimigos”, segundo lembra Seu Miguel. E nem mesmo quando foi atingido por uma grave doença que trouxe terríveis dores e sofrimentos deixou se abater, permanecendo capaz de receber com sorrisos suas visitas para as longas conversas das quais gostava tanto. Até que no dia 13 de maio de 1985, Arthur Jerosch partiu definitivamente, deixando para todos os acreanos um legado de amor, trabalho e dedicação.

Devo confessar agora que toda a curiosidade que sentia em relação ao Sr. Arthur, agora é pura admiração. Queria muito tê-lo conhecido pessoalmente, mas já que isso não foi possível, só me resta ouvir histórias a seu respeito e tentar de alguma forma honra-lo.

OBS.: Ficaria muito agradecido de receber por e-mail (que pode ser encontrado no alto desta página) outras histórias sobre Arthur Jerosch.

 

 
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Rio Branco-AC, 27 de maio de 2007
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