| COTIDIANO | |
Serra do Divisor respira água, floresta e muita vida Viagem pelo rio Môa mostra o que o Acre tem de potencialidades turísticas e científicas na região de maior biodiversidade do planeta |
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No Ponto do Mirante, dá para ver, de um lado, a plenitude da grande planície amazônica, numa paisagem que lembra um imenso tapete esculpido nos mais diversos tons do verde. Do outro lado, a vista é de grandes serras, também verdejantes, cada vez mais altas ao fundo, formando as primeiras ondulações da Cordilheira dos Andes, a maior cadeia de montanhas do mundo. Tudo isso é o que se pode desfrutar no local mais alto da Serra do Moa, sede do Parque Nacional da Serra do Divisor, situado no extremo oeste do Acre, no ponto mais ocidental do país. Ali, os rios, os igarapés e as muitas espécies de pássaros, insetos, animais e árvores dão a essa região acreana, com razão, o título de detentora de uma das maiores biodiversidades do planeta. Para se chegar ao Ponto do Mirante, na Serra do Divisor, o visitante tem a certeza de que viverá, antes, uma longa história, recheada de novidades e aventuras em meio a muito verde, água, vento, chuva, céu, barrancos, pássaros, animais, muitas estrelas nas noites e um sol por vezes muito ardente durante os dias. Foi essa aventura inesquecível que eu e o repórter fotógrafo Sérgio Vale vivemos em maio passado, juntamente com uma equipe da TV Nacional/Radiobrás, durante viagem de barco que fizemos em 10 dias no coração do Parque Nacional da Serra do Divisor e em duas áreas indígenas do Acre, onde pudemos conhecer de perto o povo da floresta e a riqueza ambiental da selva acreana, que faz do Acre a verdadeira terra da biodiversidade, reconhecida e admirada no mundo inteiro pela numerosa e extraordinária diversidade de sua fauna e flora amazônicas. A viagem resultou numa série de reportagem que começamos a publicar hoje no Página 20 sobre o Parque do Divisor e que deve prosseguir nos próximos dois domingos, com matérias que retratam um pouco do que é a vida nas florestas dos índios Ashaninka, do rio Amônia, e dos Kaxinawá, do rio Jordão, todas situadas no Vale do Juruá acreano. Nossa aventura para o Parque Nacional da Serra do Divisor, ou simplesmente Serra do Môa, como preferem chamar os nativos, começou em Rio Branco no dia 10 de maio deste ano, quando voamos pela empresa Rico para Cruzeiro do Sul, considerada a capital do Vale do Juruá e a terra da farinha, cuja qualidade e sabor também ganham cada vez mais adeptos Brasil afora. Seguindo um roteiro previamente traçado para viagem de selva, a primeira preocupação da equipe em Cruzeiro foi providenciar o rancho de alimentos e de produtos de primeira necessidade que pudesse garantir o mínimo de sobrevivência numa região até então desconhecida de todos. A expectativa e a ansiedade nos dominavam e não víamos a hora de, no dia seguinte, chegar a Mâncio Lima, cidade próxima a Cruzeiro, de onde pegaríamos os barcos para navegar pelo rio Môa em direção à Serra do Divisor. Chegamos logo cedo ao pequeno porto de Mâncio Lima, onde os barqueiros José Coelho e Francisco Silva já estavam a postos para comandar nossa viagem em duas pequenas canoas equipadas com motores Honda de 11 e 13 HP. Adrenalina em alta, motores ligados e bagagens e rancho devidamente repartidos e acomodados nos duas pequenas canoas, cujas bordas ficavam (perigosamente) poucos centímetros do nível da água, partimos então para a primeira etapa de nossa reportagem. Eram exatamente 7h30 da manhã do dia 11, quando alcançamos o igarapé Mâncio Lima, um atalho que se pega para se chegar mais rápido ao Môa, o rio por onde se vai ao Parque Nacional Serra do Divisor, cuja dimensão, de exatos 843.012 hectares de floresta, abrange grande parte do Vale do Juruá, sendo formado por porções territoriais de nada menos que cinco municípios da região: Cruzeiro do Sul, Mâncio Lima, Porto Walter, Rodrigues Alves e Marechal Thaumaturgo. Por Cruzeiro, a viagem até a Serra do Divisor torna-se no mínimo duas horas mais longa porque as embarcações precisam navegar antes pelo rio Juruá para adentrarem depois no Môa. No igarapé Mâncio Lima, o primeiro desafio da equipe foi se acostumar com o elevado ruído provocado pelo eco que o barulho do motor do canoa provoca ao passar rente à selva. O outro desafio foi o de ficar atento às infindáveis curvas que a canoa faz ao longo da viagem pelo igarapé, quando muitas vezes passa raspando e até se chocando contra arbustos à beira d’água, obrigando todos a um constante exercício de contorcionismo para evitar ferimentos ou machucados. Fora isso, tudo passa a ser diferente e muito atraente quando as canoas entram no igarapé Mâncio Lima, onde a maestria do barqueiro cruzeirense José Coelho, 48 anos, 15 dos quais navegando pelos rios da selva do Vale do Juruá, consegue fazer curvas e manobras, numa velocidade de até 30 km/h, dignas de um piloto de Fórmula 1 das águas. Poucos minutos depois de adentrarmos o igarapé, pudemos ver os primeiros pássaros da região, alimentando-se de flores e frutas silvestres, pulando de um galho a outro de árvores como palmeiras de buriti e de coari, muito comuns na área. Muito estreito no início da viagem, onde mede no máximo de cinco ou seis metros, o igarapé Mâncio Lima aos poucos vai se alargando, chegando a ter até 50 metros, na medida que se aproxima do rio Môa. Môa, rio da biodiversidade
Eram mais de 10 horas quando começamos a avistar as primeiras casas e pessoas ao longo dos barrancos do Môa, que àquela altura já media, em terminados locais, mais de 200 metros de largura, embora a época fosse de vazante, tais eram as marcas de mais de dois metros de altura que se podia ver nas folhas das árvores outrora cobertas pela água. A paisagem à beira do rio é predominante de árvores grandes, num emaranhado de selva constituída pela chamada floresta tropical aberta de cipó, onde predominam espécies como o juá, a castanha-de-piriquito, o taperebá e o inharé, entre outras. Em outros locais, a floresta passa a se chamar aberta de palmeiras, onde predominam árvores como a paxiúba-lisa, o patauá, o açaí, o jaci, o murmuru, a paxiúba-barriguda, o inajá e a jarina, muito usadas pelos moradores do local para construir casas, fabricar óleo caseiro ou fazer belos artesanatos, que encantam pelo exotismo das sementes da flora amazônica. Essa região do rio Môa também detém a maior diversidade de palmeiras do Brasil. Ao contrário do igarapé Mâncio Lima, o Môa, em qualquer estação do ano, é navegável em quase toda a sua extensão, apesar de, em determinados lugares, exigir cuidados de navegabilidade no verão por causa de alguns balseiros que encalham em determinados pontos do rio ou descem as águas dificultando um pouco mais o trajeto dos barcos. Durante a nossa viagem, a navegalidade ainda era plena, com barcos se cruzando periodicamente, às vezes conduzindo pessoas doentes para Mâncio Lima e Cruzeiro e outras transportando animais, como bois, bodes, porcos e galinhas, de um local para outro da região, ou mercadorias que alguns regatões comercializam ao longo do rio. À medida que nossas canoas subiam o Môa era possível ver um número crescente de pessoas, geralmente homens ou meninos, pescando às margens do rio, onde três quilos de piau, peixe muito comum na região, assim como o tucunaré e o tambaqui, pode ser comprado até por R$ 5, como fez o barqueiro José Coelho em nossa volta da Serra do Divisor. De caniço, rede ou espinhel, os peixes são pescados de dia ou de noite no meio ou nas margens do rio, constituindo-se num dos principais alimentos dos moradores da floresta, que completam suas dietas com a caça de animais silvestres, quase sempre acompanhados da boa farinha cruzeirense, da mandioca cozida, do arroz e do feijão, cultivados em pequenos roçados plantados próximo aos barrancos do rio. A viagem prossegue pelo rio acima, onde é possível, vez em quando, deparar-se com árvores gigantescas, como a samaúma, que de tão frondosa e majestosa se constitui num dos mais belos cartões postais em que se transformam os mais variados cantos da floresta para os que têm a felicidade de nela adentrar, sentindo o esplendor da paz que é produzida ali pela natureza. Estamos há mais de seis horas de canoa e as águas do Môa não param de descer, cada vez mais limpas e reluzentes à luz do sol a pique, sendo “beijadas” a todo instante por bandos de andorinhas pretas e amarelas, que acompanham os barcos da região com incríveis razantes e belas manobras aéreas, como que ensinando ao visitante o caminho da beleza que ainda há por vir rio acima. Quatro horas depois de entrarmos no Môa, avistamos o igarapé Ipiranga, por onde em uma hora de subida de barco se pode encontrar um complexo hidrográfico formado por seis grandes lagos, conforme nos relatou o barqueiro José Coelho. Sem dúvida, trata-se de um lugar que pode se transformar num ponto de grande atração turística para os futuros visitantes da Serra do Divisor. Já passavam das duas horas da tarde quando, após uma parada para o almoço, encontramos o professor Antônio Braga Conceição, que junto com sua esposa, Raimunda Nonata Maciel, cultiva feijão, milho e melancia nos intervalos das aulas que ele diz ministrar “com muito carinho” para os filhos e filhas de ribeirinhos das redondezas. Todo dia, Antônio acorda às 5 da manhã para dar tempo de preparar a merenda de seus alunos. “Tudo é nas mãos da gente. Tenho que dar aula e preparar a merenda dos alunos. Financeiramente não compensa muito, mas estamos pensando no futuro de nossas crianças”, disse o professor, cujos alunos, da 1ª à 4ª sé-rie do ensino fundamental, recebem cadernos, livros e mochilas com a marca do Governo da Floresta. Passamos depois pelas aldeias dos índios Nukini e Nawá, que com uma população de mais de 500 pessoas vivem quase da mesma forma que os ribeirinhos do Môa, plantando roçados de mandioca, fazendo farinha e alimentando-se de peixes e caças de animais silvestres. Distante dali, já próximo à subida da serra, a índia Varinaki, Nukini de 33 anos, três filhos, orgulha-se e se emociona em dizer que tem o maior prazer de dar aulas bilíngües para crianças índias e brancas cujas famílias vivem na área do parque. Combate ao tráfico de drogas e animais
Um pouco mais acima, ao final de curva maior do Môa, avistamos a base montada pelo Exército, onde tivemos de parar para se identificar e falar dos motivos de nossa viagem à Serra. Ali, além do Exército operam também a Polícia Federal e o Ibama quando há casos envolvendo tráfico de drogas ou animais. Relatos feitos à equipe por alguns ribeirinhos, que não quiseram se identificar, dão conta de que a presença constante do Exército e da Policia Federal, que param e investigam todos os barcos que sobem ou descem o rio, reduziu de maneira significativa o tráfico de drogas, principalmente cocaína, que vinham do Peru e encontravam no Môa sua principal via de escoamento para o Brasil pela cidade de Cruzeiro do Sul. Já estava anoitecendo quando pedimos pousada na casa de dona Lucileide Silva de Souza, 48 anos, que hoje vive só com o filho de 14 anos depois que o esposo meteu-se com o tráfico de cocaína originária do Peru e acabou preso há dois anos pela PF, sendo conduzido para a cadeia de Cruzeiro do Sul, onde cumpre pena. Mesmo não passando necessidade, pois possui algumas cabeças de gado e criação de porco, galinha e bode, além de plantios de mandioca, banana, laranja e limão, dona Lucileide manifestou interesse em sair do parque porque, de acordo com ela, já não se sente segura em morar ali. Segundo Lucileide, além de pressões de traficantes peruanos e da polícia, que ainda faz revistas periódicas em sua propriedade, ela também enfrenta a incerteza de ser indenizada ou mantida no parque depois que o Ibama resolver investir na região. Na volta da Serra do Divisor, dona Lucileide nos entregou uma carta, dirigida “aos caros amigos da imprensa”, em que ela relata seu drama familiar, pede para sair do parque e recomenda que cópia da correspondência seja encaminhada ao presidente Lula. Após um banho rejuvenescedor nas águas geladas do Môa nas primeiras horas do amanhecer do dia 12 de maio, seguimos viagem rumo à Serra do Divisor. Uma hora depois paramos na escola Francisco Militão de Melo, onde crianças de todas as idades, como Evinaldo (12), Elessandra (10), Joelito (8) e Marcelino (7), já esperavam a professora Flor chegar para iniciar a aula. A escola funciona ao lado de um pequeno posto de saúde, onde o auxiliar de enfermagem José Silva de França faz o que pode para atender as famílias de ribeirinhos acometidas de gripe, resfriado, verminose, malária e outros doenças menos graves. Nos casos mais graves, a própria população já sabe que o doente tem de “baixar” para se tratar em Mâncio Lima ou Cruzeiro. Ao final da manhã, depois de passar por alguns bandos de macacos pulando em árvores próximas ao rio e encontrar pássaros coloridos como o tamadião e bandos de andorinhas pescando e se banhando nas águas do Môa, chegamos finalmente aonde os ribeirinhos chamam de Pé da Serra. Ali, fomos diretos para a casa de Argemiro Magalhães, o Miro, um misto de pequeno agricultor e extrativista que nasceu na área do parque e há algum tempo é encarregado pelo Ibama de cuidar da casa que serve de sede do parque, situada a cinco minutos dali e só é habitada quando aparece, vez ou outra, uma missão do órgão na região. Casado, 35 anos, três filhos, Miro mora no Pé da Serra há mais de 16 anos e, a exemplo das 520 famílias cadastradas pelo Ibama como moradoras na área do parque, vive desde 16 de junho de 1989, data de sua criação, o grande drama de não saber o que vai acontecer com ele e a família. “Em todos esses anos, o Ibama não decidiu nada. Não disse quem vai ficar ou quem vai sair. Não disse também se vai ou não indenizar as benfeitorias das famí-lias”, queixou-se Miro, demonstrando toda a humildade que o fez, certamente, ter por 15 anos tanta paciência e resignação para esperar pacificamente por uma solução para o seu drama. Muita diversidade e grande passivo social
É o caso de Francisco Xavier Barbosa de Lima, conhecido como Xiquininim, que vive hoje na periferia de Cruzeiro, sustentando a família vendendo salgados na praça da cidade, depois de ter investido, por três décadas seguidas, numa propriedade de 496 hectares titulada pelo Incra, onde chegou a plantar 200 hectares de seringueiras, 20 hectares de café, outro tanto de roçados de mandioca, milho, arroz e feijão, além de 296 cabeças de gado e grandes criações de porcos, galinhas, que tornavam a vida muito farta na região. “Hoje, está tudo lá abandonado, destruído, roubado. Acabou-se aquela vida farta que todas as famílias tinham na região”, disse, revoltado, Xiquininim, quando da passagem da equipe pela cidade de Cruzeiro do Sul. Ele informou que a Fundação Nacional de Saúde (Funasa) efetuou um cadastro de 7,5 mil famílias que, segundo ele, viviam “com fartura e tranqüilidade” na região da Serra do Môa antes da chegada do Ibama, em 1989. As sete mil famílias que tiveram de sair da área do parque, segundo recorda ainda Xiquininim, é que fizeram a pobreza e a miséria existentes até hoje na periferia de Cruzeiro do Sul. “Os filhos e as crianças da Serra do Môa se perderam na prostituição e no tráfico de drogas na periferia de Cruzeiro”, lamentou, com olhos marejados, o outrora próspero agricultor, que acaba de criar a Associação de Seringais, Terras e Benfeitorias do Parque Nacional da Serra do Divisor, entidade civil através da qual ele e outras famílias pretendem lutar junto ao Ibama e à Justiça para que todos os danos econômicos e sociais que lhes foram causados sejam reparados pelo governo federal. Indagado sobre o passivo social do Parque Nacional, o superintendente do Ibama no Acre, Anselmo Forneck, não só o admitiu como “triste realidade”, como atribuiu a culpa de tudo ao fato de o Estado brasileiro ser “lento, vagaroso e burocratizado”. Tendo assumido o Ibama no Estado apenas no ano passado, Forneck garantiu que o órgão, contando até com instituições internacionais, vai procurar fazer “tudo que for possível” para compensar o passivo social da região, indenizando as propriedades que sejam documentadas, pagando as benfeitorias, conseguindo terras para assentar as famílias que desejarem sair do local e definindo as famílias que serão aproveitadas para trabalhar como funcioná-rios no parque após a sua abertura ao público. A nossa viagem prosseguiu no mesmo dia rumo à Serra do Divisor, onde pudemos passar por dentro, em duas horas de barco, de uma das mais belas e monumentais obras que a natureza criou na selva amazônica. Trata-se do grande cânion de floresta que o rio Môa esculpiu, ao longo de séculos, exatamente no meio da Serra do Divisor, uma das mais altas ondulações de floresta que se pode encontrar no local antes das grandes subidas da Cordilheira dos Andes em território peruano. Ali, qualquer um se sente pequeno diante das dimensões das paredes de rochas acima das quais se erguem duas grandes montanhas de árvores gigantescas, que no ponto central do cânion chegam a medir até 300 metros de altura. É uma visão inigualável de uma obra da natureza que geólogos já calcularam ter no mínimo 100 milhões de anos. No ponto central do grande cânion da Serra do Môa, a emoção, de fato, atordoa a todos que têm a certeza de ser aquela uma visão divina. Ao longo da Serra, que se pode percorrer em uma hora de barco a motor, as águas do rio Môa se tornam mais escuras e espremidas por grandes pedras, que formam locais muito estreitos, como o que os nativos chamam de “Apertado da Hora”, onde o rio se transforma numa média corredeira, bem apropriada para competições de caiaques e barcos menores. Alguns minutos depois passamos pelas cachoeiras Pirapora e Central, separadas por belas praias que começam a aparecer no verão na medida que o rio vai secando. No meio do cânion, também se pode chegar até a cachoeira do Ar-Condicionado, cuja queda d’água, de quase 10 metros de altura, deixa o lugar sempre com temperatura baixa. Com o motor da canoa desligado no meio do cânion da floresta, o visitante pode também ouvir uma sinfonia de cantos dos mais variados pássaros da região, como o curió, currupião, patativa, bem-te-vi, sabiá, periquito, papagaio e arara, inclusive a azul. A terra da biodiversidade prossegue na subida do Môa até a cachoeira Pedernal, que nesta época do ano se transforma num complexo de diminutas cachoeiras que passam ao lado das grandes pedras existentes no meio do rio. Na Serra do Môa, ao final da tarde e principalmente à noite, é também possível ouvir ruídos e gritos de macacos, antas, porcos-do-mato, capivaras, queixadas, veados, pacas, cotias, tatus, iraras, gatos-maracajás, quatipurus e até onças, que se misturam a aves como mutuas, kujubins, pacus, jabuaçus, nambus-galinhas, jacamins e gaviões. Segundo o Ibama, levantamentos preliminares indicam a existência, na Serra do Môa, de pelo menos 1.233 espécies de animais - só de macacos há 14 espécies -, 485 espécies de aves, sendo 15 migrantes do Hemisfério Norte e oito do Hemisfério Sul, seis consideradas raras, três se constituem em novas espécies e quatro se encontram ameaçadas de extinção. Ali são encontradas também 64 espécies de abelhas indígenas sem ferrão e 34 espécies de abelhas polinizadoras de orquídeas, destacando-se o gênero Aglae, extremamente raras. Tudo isso já levaram os cientistas a constatar que toda a área do Parque Nacional da Serra do Divisor se constitui, de fato, numa das regiões de maior biodiversidade da Terra. Biodiversidade situada tanto no alto quanto embaixo da grande e majestosa planície amazônica, que é vista do Ponto do Mirante, o mais alto da Serra do Divisor, conforme narramos no início desta reportagem, realizada em três dias e em mais de 25 horas de viagem de canoa a motor. |
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