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As cartas do escuro Jovens e adultos que viviam na escuridão do analfabetismo abrem janela para a vida escrevendo cartas e contando o prazer do contato com as letras |
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| Tião
Maia As cartas ou bilhetes guardam uma semelhança entre si: a irregularidade da escrita revela muito da emoção de quem está escrevendo. Afinal, são as primeiras letras de homens e mulheres despejadas no papel a pedido dos professores do programa de alfabetização de jovens e adultos, o “Alfa 100”, como prova de que o cidadão, enfim, rompeu a barreira que o segregava de qualquer possibilidade de conhecimento. Os professores pedem que o aluno recém-alfabetizado escreva um bilhete a uma pessoa especial. “Sr. Lula – presidente – eu já sei ler. Foi uma idéia ótima para as pessoas que não sabiam ler. Que bom seria que fosse mais tempo. Continue com essas idéias que são muito boas”, escreve, por exemplo, Lenice Laucio de Araújo, 48 anos, moradora do Beco do Abacaxi, número 135, no bairro Ayrton Senna, periferia de Rio Branco. “Presidente Lula, estou te escrevendo para dizer que estou a ler e a escrever. Não deixe esse programa acabar”, escreve Miriam Carvalho dos Santos, da comunidade São José. “Prezada Rejane – Obrigado pela oportunidade que a Secretaria nos deu para estudar e mandou uma professora para nós e por isso eu já sei ler e escrever”, diz Laércio Loureiro de Lima, alfabetizado na escola Marilda Gouveia. A dona de casa Marilene Rodrigues da Silva, alfabetizada na Igreja São João Batista, escreve ao filho: “Meu filho Jardeson. Estou feliz. Já sei ler e escrever para ajudar você estudar na escola”, afirma num bilhete em que constam também, como nos cadernos escolares de crianças, desenhos com motivos infantis, como se o contato com as letras reinventasse a vida e fizesse de novo aquela mulher voltar no tempo, para o recomeço da vida. Outros escrevem falando da satisfação de poder pegar ônibus sem ajuda de ninguém ou de poder ler a Bíblia, por exemplo, como é o caso de Maria Auxiliadora de Assis, 65 anos, do bairro Vitória, alfabetizada através do Adjunto da Solidariedade. “Eu tinha medo de morrer sem conhecer a palavra de Deus”, diz. A dona de casa Maria Lucimar de Sousa Silva, 51 anos, realizou o sonho de aprender ler e escrever no ano passado. Depois de freqüentar a sala de aula por seis meses, a aposentada Augusta de Almeida Santos, 56 anos, está alfabetizada. “Minha vida mudou depois que aprendi a ler e escrever. A maior mudança é que, agora, consigo pegar ônibus sozinha”, afirma ela. “Já leio tudo. Hoje, meus filhos têm orgulho de mim. Não paro mais de estudar.” “Minha maior vontade era saber escrever meu nome e ler a Bíblia. É gratificante saber ler. Pretendo continuar estudando”, diz. Maria Lucimar foi alfabetizada em uma sala cedida pela Igreja Assembléia de Deus, em Rio Branco. Todos os cinco filhos estudam regularmente. A mais nova, de dez anos, está na 4ª série do ensino fundamental. Programa Alfa 100 já alfabetizou mais de 48 mil pessoas em todo o Estado Essas pessoas fazem parte do grupo de 48.134 mil alunos já alfabetizados pelo Alfa 100. Na frieza dos números estatísticos, eram apenas integrantes de um exército de analfabetos de 83 mil pessoas em todo o Estado, principalmente na zona rural. De acordo com o censo do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) do ano de 2000, mais de 20% da população acreana não sabia ler nem escrever. Com a implantação do Alfa 100, do Movimento de Alfabetização (Mova), um dos parceiros do Brasil Alfabetizado do governo federal, os números passaram a cair mas também passaram a mostrar uma realidade cruel: a chaga do analfabetismo atinge principalmente as mulheres e que 60% dos analfabetos estão na zona rural, com idade que vai de 25 a 85 anos de idade. Para inverter essa realidade, seria necessária uma verdadeira operação de guerra. Foi o que fizeram, ao chegar ao governo do Estado, em 1999, o governador Jorge Viana e seu secretário de Educação, Arnóbio Marques, o atual vice-governador. Cinco anos depois, os números revelam que o esforço valeu à pena. Quase 50 mil jovens e adultos do Acre estão lendo e escrevendo, como mostram as cartas dos alunos e a meta é, até o final do ano que vem, fazer com que o Acre entre para a história do país como o primeiro estado brasileiro a ter 100% de sua população alfabetizada. “Se Cuba, um país economicamente bem inferior a nós, conseguiu isso por que nós não conseguiríamos também?”, pergunta o governador Jorge Viana. “Esse é o meu sonho e o meu compromisso”, disse. Para tornar o sonho realidade, é preciso logística. Para isso, nesta segunda-feira, caminhonetes, barcos e motos serão entregues pelo Governo do Estado numa solenidade no Teatro Plácido de Castro, como material necessário à continuidade do programa Alfa 100. Na solenidade estará a senadora licenciada e ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, professora que está se doutorando em História em Brasília, que, até os 17 anos de idade, quando saiu do seringal Bagaço, engrossava a lista dos analfabetos. Com o material de apoio e a certeza de que é possível construir a história de muitas outras Marinas, os educadores do programa, um grupo de mais de 1.500 pessoas, vão percorrer colônias e seringais, buscando as localidades mais isoladas, onde está o maior contingente de pelo menos mais 35 mil analfabetos. “Os educadores, além de alfabetizar, têm a missão de convencer o cidadão da necessidade da alfabetização”, diz a coordenadora do Alfa 100, professora Maria Augusta Bezerra. Segundo ela, uma das dificuldades do programa é que o cidadão, na maioria de idade avançada, não considera o aprendizado algo importante. “Ele diz mais ou menos o seguinte: se não aprendi quando jovem, do que isso mais me servir na velhice?”, conta a professora. “Mas o interessante é que esse mesmo cidadão, quando tem contato com as primeiras letras, se entusiasma”. A outra dificuldade está relacionada à saúde. A grande clientela do curso reclama de problemas de visão, principalmente porque as aulas são ministradas à noite. É por isso que, paralelo ao programa de alfabetização, o governo do Estado está desenvolvendo também um grande programa de prevenção e cuidados na área de oftalmologia, inclusive com a doação de óculos a quem precisar. Uma rede de solidariedade que inclui associações e igrejas O êxito do programa só está sendo possível graças à parceria do governo do Estado com algumas prefeituras, a sociedade civil e a iniciativa privada. Os recursos para o programa vêm do próprio governo do Estado, do governo federal e de empresas como a Tim e a Pirelle do Brasil, que disponibilizaram os recursos para os veículos que estão sendo entregues ao programa. As aulas são ministradas em escolas, associações de moradores, igrejas e até na casa dos professores. O curso, com duas horas diárias, tem duração de seis meses. A faixa etária dos alunos varia de 25 a 85 anos. De acordo com Maria Augusta Bezerra Rosa, a Secretaria Estadual de Educação é responsável pela estrutura física das salas e pela produção do material pedagógico. Cada aluno recebe um kit com pasta, caderno, lápis, borracha, camiseta e uma cartilha desenvolvida a partir da realidade do estado. “Adaptamos o material didático à realidade da nossa população, acostumada a muita chuva, a enchentes, à floresta e à vida rural”, afirma Maria Augusta. Para a professora Maria Luísa da Silva, o maior obstáculo ao trabalho de alfabetização é a auto-estima dos alunos. “Muitos trabalham pesado o dia inteiro, cuidam de filhos, netos. Eles não se negam a aprender, mas para mantê-los na sala de aula é necessário muito estímulo”, salienta a professora. “Mesmo com toda a força de vontade que eles têm, muitos se acham incapazes de aprender.” Os bilhetes solicitados pelos professores aos alunos recém-alfabetizados são como uma espécie de atestado de que eles podem, a partir de agora, mudar os documentos pessoais. No local onde constava “não alfabetizado”, eles vão poder assinar o nome próprio mas, muito mais que isso, são uma prova de que são cidadãos. “Quando pedimos para que eles escrevam bilhetes, queremos estabelecer o senso crítico, a observação, a participação no mundo e dizer que agora eles são de fato cidadãos”, diz a professora Maria Augusta. “Antes, diziam que quem assinasse o próprio nome era alfabetizado. Achamos que isso é pouco: alfabetizado é o cidadão que tem condições de ler e entender o que está lendo e, ao mesmo tempo, de escrever e se fazer entender”, acrescenta. |
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