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Florentina Esteves * |
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Raízes Relendo Guy de Maupassant, um dos mais renomados contistas franceses, deparei-me com uma louvação a sua cidade natal quando ele diz “Eu amo este lugar, e amo viver aqui, porque é onde tenho minhas raízes, estas profundas e delicadas raízes que prendem um homem à terra onde nasceram e morrem seus avós, que o ligam ao que se pensa e ao que se come, aos usos como a alimentação, às locuções locais, ao sotaque, aos odores do solo, das cidades e até do próprio ar”. E ao acompanhar, através de sua palavra, seu pensamento, me encontrei. E entendi porque me sinto tão ligada a Rio Branco, onde nasci, me criei e vivi, exceto um período em que fui estudar e me aperfeiçoar fora. Viver em minha cidade é, de fato, realimentar minhas raízes. Conviver com seus concidadãos é exercitar meu pensamento, me identificar com ele. Isto sem falar nos hábitos alimentares, no linguajar popular com seus ditos e sotaques próprios, e nos odores da terra. Sim, falemos de odores, que ativam um de nossos mais sensíveis sentidos: o olfato. Quem não é levado a viajar no tempo e no espaço, estimulado por determinado odor? Aquele cheiro de café, ao despertarmos, que nos enche a boca d’água, por exemplo. O cheiro de certo remédio que nos remete a momentos de dor ou de aflição; o cheiro de pólvora queimada dos foquetes que povoam o ar festivo de nossas lembranças; a fragrância que lembra aquela determinada pessoa amada, ou tão importante em nossa vida. E o cheiro de nossa cidade. Sim, o cheiro de nossa cidade, hoje nem tão ativo, tão presente, mas sobrevive em nossa imaginação, em nossa lembrança. Lembrança. Lembrança daquela Rio Branco (hoje centenária) cercada, quase acochada, pelo cinturão verde da mata a seu redor. E de onde vinham os cheiros, trazidos pelo vento, retemperados pela chuva, também nas asas dos insetos. Cheiro de limpo, sem a poluição dos escapamentos dos carros, sem o acúmulo do lixo na rua, sem o Acre das florestas devastadas. Cheiro espargido pelas águas limpas dos igarapés e dos rios. Cheiro que até prenuncia friagem, nas asas dos percevejos. Sim, podemos falar também do clima, que odoriza nossa cidade. Quem não sabe que os percevejos anunciam friagem? Essa mudança de tempo que vem se tornando rara, hoje, banida por condições meteorológicas adversas, e em estreita relação com a devastação de nossa cobertura vegetal? E ate´em pleno centro da cidade já rareia a arborização. Andamos acima e abaixo, procuramos uma sombra que nos proteja da inclemência do sol, e onde está ela? Só nas casas que ainda têm quintal podemos avistar frondosas mangueiras, apetitosos açaizeiros... É, Rio Branco cresceu, modernizou-se. E não lamentamos o progresso. Lamentamos tão somente não mais podermos farejar, como cachorros perdigueiros, aquele seu cheiro que povoou-nos infância. Mas ainda nos resta um consolo: morar, ter o privilégio de morar defronte ao rio, enxergar seus barrancos ou - quando cheio - seus balseiros ou suas embarcações a fazer o trajeto de nossa história - esse rio sempre acompanhou. * Professora e Escritora |
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