OPINIÃO
   CRÔNICA DE DOMINGO

José Augusto Fontes

 

Disfarçando a dor

A dor de quem sente. A falta de quem não tem como sentir, a vontade de quem precisa, a necessidade de quem não pode ter vontade e deve aceitar a dor disso, a dor daquilo, a dor de não poder querer, de não poder sentir sem dor, de sentir que tem que aceitar, tem que sentir, sem querer, e resistir, para continuar. A dor de não poder querer, passando do sentir. É dor que ninguém sabe reproduzir, dizer, apenas imaginar. É dor que nos faz calar, até que a própria imagem da dor nos acorde e revolte, nos mostrando o mundo. E que não é possível simplesmente calar.

Muita gente precisa aceitar que finge esquecer a dor, ou não sentir que finge, porque é necessário insistir e continuar. É preciso não sentir fundo o calar da dor. Alguns suportam, alguns esgotam. E porque é necessário sentir e disfarçar, como quem parece não estar lá nem cá, como quem não está nem aí e deixa fluir, nasce o fingir não sentir. Mas a dor assombra, a dor pede opinião, a dor é doença contagiosa, a dor é até antídoto, para quem não tem o que fazer. A dor sacode e movimenta. A dor de tanta gente que sente, precisa e apenas olha, nos emociona e revoluciona.

Olhamos, quase sentimos, calamos ou comentamos, mas apenas seguimos. Nosso hoje é errante. Amanhã será diferente, por isso, vamos passando, vamos deixando, vamos ignorando, somos especialistas em fingir. A dor vai ficando. Ou vai enraizando, espalhando disfarces, guardando sentimentos, segurando vidas. Depois do comentário, depois do olhar passageiro, não ficará sequer boa lembrança. A dor de quem sente não será sentida por quem apenas olhou, comentou ou calou, e depois seguiu. O que temos com isso? Pergunte-se. Depois disso, tudo passará.

Comentar, enganar palavras, mascarar sentimentos, isto tudo é muito fácil, para quem não precisa aceitar a dor. É preciso receber a promessa do amanhã e trocá-la em miúdos. É preciso agir, deixar o contemplar para depois. A vontade de quem sente, de quem finge com a dor, precisa aceitar olhares distantes, algum comentário dissonante, uma ou outra intenção silente, outro dia que chegará errante. Quem não sente a dor pensa que é perto. Ignora que não é possível simplesmente calar. Enquanto o longe está dentro dos olhos de quem só pode olhar. E esperar pela nossa pressa.

 

 
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Rio Branco-AC, 27 de junho de 2004
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