ESPECIAL
   PAPO DE ÍNDIO
Txai Terri Valle de Aquino e Marcelo Piedrafita Iglesias

Entrevista com o sertanista Meirelles (parte IX)

Na nona parte de sua entrevista-depoimento, Meirelles finalmente fala dos sobrevôos realizados nos dias 28 de abril a 02 de maio de 2008, nas malocas e roçados dos povos isolados que vivem em terras indígenas no Estado do Acre, nas proximidades do Paralelo 10º Sul, linha da fronteira internacional Brasil-Peru.

Esta introdução vai ser curta para dar espaço a algumas das 1.200 fotos que o fotógrafo Gleilson Miranda, da SECOM, registrou nas 20 horas de sobrevôos nas cabeceiras dos igarapés Riozinho e Xinane, afluentes do alto rio Envira, bem como nos divisores de águas dos formadores do rio Humaitá com afluentes da margem esquerda do alto rio Envira.

Algumas dessas fotos, especialmente aquelas em que os brabos aparecem pintados de urucum e jenipapo, atirando suas flechas no pequeno avião, foram amplamente divulgadas na mídia internacional. Pouca gente por aqui conseguiu chamar a atenção mundial para o Acre, como fez o nosso experiente sertanista. Repercussão igual a essa só ocorreu há 20 anos, com a notícia do assassinato do valoroso Chico Mendes.

O sertanista conta com entusiasmo que os brabos acreanos “são fortes, guerreiros e sadios”. E que se sente feliz por ter constatado um extraordinário aumento demográfico dessas populações como resultado do seu trabalho na proteção aos territórios dos isolados, no lado acreano da fronteira. Além disso, reafirma que alguns povos isolados têm migrado para terras indígenas situadas nos altos rios acreanos, em decorrência da intensificação da exploração ilegal de madeira nas cabeceiras dos rios Envira e Juruá, no lado peruano da fronteira.

Vamos ficando por aqui, porque o nosso sertanista vai nos falar hoje e no próximo domingo, encerrando esta série de papos, sobre os resultados dos sobrevôos de 2008, com o apoio do Governo do Acre. Mais uma vez com a palavra o velho do rio. Diz aí, Meirelles! (Txai Terri Aquino e Elson Martins)

População de isolados aumenta como resultado da proteção aos seus territórios

Txai: Hoje são 5 de maio de 2008. Vamos reiniciar novas conversações com o nosso sertanista. Esses papos do Meirelles parecem que não têm fim, não é mesmo, Elson? Vamos pedir agora para ele falar dos últimos sobrevôos realizados na região do alto rio Envira.

Meirelles: A idéia desses sobrevôos surgiu numa reunião que aconteceu no Centro dos Povos da Floresta, da Comissão Pró-Índio do Acre (CPI/AC), na qual participaram lideranças e agentes agroflorestais indígenas do Acre, dirigentes de organizações indígenas peruanas e representantes do Centro de Trabalho Indigenista (CTI) e da CPI/AC. Já naquela reunião, em início de 2008, falava-se da necessidade de sobrevôos nas Terras Indígenas Kampa e Isolados do Envira, Alto Tarauacá e Riozinho do Alto Envira, com a finalidade de recolher dados atualizados sobre a localização espacial das malocas, a quantidade de roçados e a estimativa populacional dos povos isolados que vivem nas proximidades do Paralelo 10º Sul, na linha da fronteira internacional do Brasil com o Peru. Além disso, a demarcação da Terra Indígena (TI) Riozinho do Alto Envira, este ano, exigia um sobrevôo nos limites desta terra para verificar se alguma maloca de isolados estaria nos arredores das picadas demarcatórias. Fato esse que poderia gerar incidente como o ocorrido, em 1998, na demarcação física da T.I. Kampa e Isolados do Envira, quando índios isolados queimaram a base da Frente de Proteção Etnoambiental do Rio Envira e cercaram o pessoal da demarcação no limite sul dessa terra indígena. Por sugestão nossa, a Assessoria Indígena do Governo do Acre, por meio do Francisco Pinhanta, viabilizou 20 horas de sobrevôos para estarmos de posse de dados confiáveis e recentes sobre os povos isolados acreanos. De fato, no final de abril deste ano iniciamos esses sobrevôos baseados nas 20 horas disponibilizadas pelo governo do estado.

Elson: Como foram organizados os sobrevôos, quem participou e o período em que foram realizados?
Meirelles: Foi escolhida uma aeronave Cesna Skylane prefixo PT-IEY por ser um avião de asa alta, com trem fixo e velocidade baixa, de 180 a 200 quilômetros por hora. Aeronave deste tipo pode voar sem a porta dianteira direita, o que melhora a visão do fotógrafo e do cinegrafista, bem como a qualidade dos registros visuais. Ficamos baseados na cidade de Jordão que possui pista de pouso de mil metros, coberta de brita, operando independente de chuva e possibilitando a decolagem com os tanques cheios, aumentando assim a autonomia de vôo. Além disso, a cidade de Jordão fica próxima das terras indígenas que seriam sobrevoadas. Nossa equipe era constituída por mim, coordenador da Frente Envira, o piloto Jairo, o fotógrafo Gleilson Miranda e o cinegrafista Pedro Degani, estes dois últimos da Secretaria de Comunicação do Estado do Acre. Quanto ao período em que foram organizados, podemos dizer que foi de 28 de abril a 02 de maio de 2008. No dia 01 de maio não pudemos sobrevoar pelo fenômeno da friagem que chegou forte, anunciando o verão, tempo que não chove na Amazônia Ocidental. As nuvens estavam muito baixas e a visibilidade prejudicada. O dia 28 de abril foi gasto no transporte do fotógrafo e cinegrafista de Rio Branco até Feijó e dali no mesmo dia deu-se o nosso embarque para o Jordão. Chegamos naquela cidade à tarde, por volta das 16 horas, não havendo mais tempo para sobrevôo. Nos outros dias voamos de manhã e de tarde. No dia 02 de maio sobrevoamos apenas no período da manhã, pois à tarde nos deslocamos para Rio Branco com escala em Feijó.

Txai: Qual a metodologia adotada nesses sobrevôos?
Meirelles: Escolhemos as áreas que seriam sobrevoadas da seguinte forma. Primeiro, as malocas já conhecidas cujas coordenadas geográficas já eram de nosso conhecimento. Segundo, as áreas que nunca foram sobrevoadas com possibilidade da existência de novas malocas. Como aquela área específica, próxima ao Paralelo 10º Sul, onde o sertanista Rieli Franciscato, coordenador da Frente de Proteção Etnoambiental do Vale do Javari, navegando no Google Earth, havia localizado imagens de satélite que indicavam a existência de desmatamentos significativos nas cabeceiras do igarapé Xinane, afluente da margem esquerda do alto rio Envira, nas proximidades da linha de fronteira com o Peru. Ao repassar essas imagens por email, o colega sertanista ainda me fez as seguintes recomendações: “Meirelles, achei umas imagens de satélite boas no Google Earth, onde se percebe desmatamentos expressivos nas cabeceiras de um igarapé da margem esquerda do alto rio Envira, já nas proximidades da fronteira peruana. Veja bem isso, porque não fica muito longe da base da Frente de Proteção Etnoambiental do Rio Envira, que você coordena há mais de 20 anos”. Nesses últimos sobrevôos essa informação do sertanista do Vale do Javari foi inteiramente confirmada. Em terceiro lugar, toda a extensão dos limites da TI Riozinho do Alto Envira, atualmente em processo de demarcação. E, por fim, as áreas situadas próximas à base do Xinane e do Posto de Vigilância do Douro, da Frente de Proteção Etnoambiental do Rio Envira.

Elson: Quais as conclusões que você tirou desses sobrevôos de 2008?
Meirelles: Pois bem, Elson. Em primeiro lugar, as malocas das terras firmes dos divisores de águas das nascentes do rio Humaitá, afluente da margem direita do alto rio Muru, com as cabeceiras dos igarapés Paranãzinho, Inês, Maronaua e Anjo, afluentes da margem esquerda do alto rio Envira, não só aumentaram em número como em tamanho. Os roçados são enormes, todos plantados de macaxeira, milho, algodão, banana, cana, batata, mamão, urucum e possíveis outras variedades de legumes que não são detectáveis nas fotos. Localizamos agora seis malocas desse grupo isolado. Podemos então afirmar que desde o primeiro sobrevôo realizado a vinte anos atrás até hoje, que esse grupo isolado praticamente dobrou a sua população. Foram justamente os índios isolados deste grupo que apareceram nas fotos amplamente divulgadas mundo afora. Esses brabos acreanos são fortes, guerreiros e sadios. Foram eles que, pintados de urucum e jenipapo, receberam nosso avião invasor com arcos e flechas. Essas seis malocas do Humaitá/Envira são de ocupação antiga nesta região. Ultimamente estão se deslocando mais para o lado do Envira. Interessante isso, Elson, suas malocas estão sistematicamente se deslocando cada vez mais para o lado do Envira. Talvez, porque esteja mais tranqüilo por lá do que nas cabeceiras do rio Humaitá, uma terra indígena que os isolados de lá compartilham com os Kaxi da TI Kaxinawá do Rio Humaitá. Esse grupo é mais veterano, vamos dizer assim, porque a gente os conhece há mais de 20 anos. E, desde então, aumentou muito, muito mesmo, a sua população. Podemos falar que houve um aumento populacional e de malocas fantásticos.

Acho que com todas as limitações, com todos os defeitos, vamos dizer assim, do nosso trabalho, ele vem dando bons frutos. Penso que esse aumento demográfico nas populações de isolados é uma prova concreta disso. Os povos isolados só aumentam as suas populações se suas terras estiverem tranqüilas, sem sofrer pressões e invasões externas. Assim dá tempo para colocar roçados com tranqüilidade, sem estar correndo e fugindo de um lado para o outro. Pode-se ver nas fotos que eles possuem grandes roçados, vivendo atualmente numa grande fartura. E, além disso, quando estão tranqüilos, procriam muito, aumentando suas populações.

A segunda conclusão, vamos dizer assim, é a de que as duas malocas encontradas nas cabeceiras do Riozinho também estão com roçados grandes, novos e velhos, com muita banana, macaxeira, mamão, milho e outras plantações que, nas fotos, parecem batata doce ou amendoim. Também estão vivendo na fartura e colocando novos roçados. Essas duas malocas foram localizadas pela primeira vez nos sobrevôos que fizemos em 2003 e 2004, por ocasião dos estudos de identificação e delimitação da TI Riozinho do Alto Envira, coordenados pela antropóloga Maria Elisa Guedes Vieira. Agora nesses últimos sobrevôos de 2008, um fato que nos impressionou bastante, foram os seus deslocamentos mais para perto das margens das cabeceiras do Riozinho, o que não acontecia antes. Com o controle da área, as invasões diminuíram e eles se sentem mais tranqüilos para viverem na beira de igarapés maiores, como o Riozinho, o Furnanha e o Jaminauá, facilitando a captura e o consumo de peixes. Pelo mapa dá para perceber que essas malocas do Riozinho estão bem próximas do Paralelo 10º Sul, linha da fronteira internacional do Brasil com o Peru.

A terceira conclusão desses últimos sobrevôos foi a descoberta de duas novas malocas nas cabeceiras do Igarapé Xinane, que nos mapas do IBGE é chamado de Cachoeira Progresso. Essas malocas das cabeceiras do Xinane, afluente da margem esquerda do alto rio Envira, encontram-se também próximas ao limite da fronteira Brasil-Peru. Foram justamente elas que o nosso colega de trabalho Rieli localizou nas imagens de satélite do Google Earth. Também no ano passado, numa expedição terrestre realizada nas proximidades daquela área, vimos muitos vestígios de índios isolados.

Anotei as coordenadas geográficas daquela área porque já desconfiava que pudessem existir malocas de brabos por ali, o que, de fato, se confirmou. Uma dessas duas novas malocas é bem recente, confirmando a migração recente deste grupo isolado do lado peruano da fronteira para as florestas dos altos rios acreanos. Certamente, essa migração forçada de isolados para o Estado do Acre seja uma das conseqüências da atuação de madeireiros ilegais nas cabeceiras dos rios Juruá e Envira, no lado peruano da fronteira. Trata-se de um terceiro grupo de índios isolados, distinto dos outros dois que falamos acima. A distância entre esses três conjuntos de malocas, ou seja, das duas malocas do Xinane para aquelas das cabeceiras do Riozinho e do Humaitá/Envira, é muito grande, de quase 100 quilômetros entre si. E a arquitetura dessas duas malocas do Xinane difere das demais. Por outro lado, essas malocas e roçados encontrados agora nas cabeceiras do igarapé Xinane não existiam por lá nos sobrevôos que fizemos em 2003/04. Nas fotos dá para perceber que são bem novos e de pouco tempo. Foi muito difícil visualizar os índios das cabeceiras do Xinane. Provavelmente já tiveram alguma experiência ruim relacionada com aviões no lado peruano. Nem homens nem mulheres foram vistos. Embora a gente tivesse percebido sinais de fumaça dos fogos acesos nessas duas malocas.

Enfim, o fato é que as populações de índios isolados estão aumentando no Acre. E por dois motivos. O primeiro deles, como disse acima, decorre da tranqüilidade que o trabalho de proteção aos seus territórios lhes tem proporcionado. Por conta disso a vida segue normal, com fartura, muita criança nascendo e ninguém sendo morto por invasores. O segundo motivo é a lamentável expulsão de povos isolados do Peru para a TI Kampa e Isolados do Rio Envira, no Acre. Certamente essa migração de grupos isolados para o território acreano é decorrente da intensificação das atividades de exploração de madeiras no lado peruano da fronteira. Sejam bem-vindos!

Txai: Quantos grupos isolados distintos existem hoje no Acre?
Meirelles: Pode-se dizer que nas florestas das terras firmes colinosas dos altos rios acreanos, nas proximidades da fronteira com o Peru, existem hoje quatro povos isolados distintos. Além das malocas e roçados dos três grupos isolados que sobrevoamos em 2008, não podemos esquecer que um bando grande formado por cerca de 300 Mashco-Piro cercou, em 2004, a base da Frente de Proteção Etnoambiental do Rio Envira. Embora não possuam malocas e roçados, porque é um povo meio nômade, seus integrantes circulam por vários rios peruanos e acreanos. Aqui no Acre, já foram vistos nas cabeceiras dos rios Iaco e Envira. Como se trata de uma região grande e os sobrevôos, tanto os de agora quanto os realizados em anos anteriores, não a cobriram integralmente, pode até ser possível que existam outros grupos isolados. Comprovadamente, só podemos falar de quatro etnias diferentes entre si, ocupando terras indígenas já reconhecidas pelo governo federal no Estado do Acre.

Uma coisa que me chamou atenção foi a quantidade de malocas, grandes e pequenas, e de roçados que vimos nessas 20 horas de sobrevôos. Registramos 75 construções entre malocas grandes e casas pequenas. Então, se você colocar aí pelo menos oito pessoas por cada uma delas, você vai ter uma população estimada em quase 600 pessoas. Se incluir os Mashco-Piro que não possuem nem malocas fixas nem roçados, mas que circulam pelas florestas dos altos rios acreanos, essa população certamente será maior. Trata-se, portanto, de uma população considerável. Você não encontra tantos índios isolados assim, pertencentes a diferentes etnias, em todo lugar, não. Talvez só na TI Vale do Javari tenha uma população de índios isolados desse tamanho. Só que lá eles estão dispersos numa área de mais de 8 milhões de hectares, mas concentradas como tem ali nas cabeceiras do Envira, eu acho difícil. Você tem mais de 600 índios isolados em pouco mais de 600 mil hectares.

Então, acho que a gente tem que começar a pensar no futuro desses povos. O que a gente tem que fazer daqui para frente para garantir que os seus territórios continuem protegidos? O que está acontecendo do outro lado da fronteira peruana que tem a ver com isso? A fronteira no Paralelo 10º Sul é bem próxima de algumas malocas desses brabos, especialmente daqueles que vivem nas cabeceiras do Riozinho e do Xinane. Então, já está passando na hora da gente pensar em como vai manter tudo isso. Enfim, foi uma grata surpresa e uma satisfação muito grande constatar que as populações de índios isolados estejam realmente aumentando no Acre, como resultado do trabalho de proteção aos seus territórios que estamos fazendo naquela região de fronteira. Como a situação está tranqüila do lado de cá da fronteira, percebe-se nas 1.200 fotos tiradas agora nos últimos sobrevôos, que está havendo migração recente de grupo isolado para as cabeceiras do igarapé Xinane. Isso se percebe nas suas malocas e roçados bem novos, limpinhos como se pode observar em algumas dessas fotos. Certamente deve pertencer a parentes brabos que vieram do Peru há pouco tempo, justamente fugindo das correrias patrocinadas por madeireiros ilegais do lado de lá da fronteira.

Txai: Então, Meirelles, aquelas fotos dos brabos acreanos pintados de urucum e jenipapo, flechando o pequeno avião que voava sobre suas malocas e roçados, tiveram realmente uma grande repercussão na mídia internacional, não é mesmo?
Meirelles: Então, esses parentes brabos a gente já sabia da existência e do jeito deles, pelos primeiros sobrevôos que fizemos nessa região em fins da década de 90 e ainda por vê-los algumas vezes lá na base da Frente de Proteção Envira. Eles também são bem conhecidos pelos Kaxinawá do rio Humaitá e por alguns moradores brancos do entorno da TI Alto Tarauacá. Podemos, então, dizer que eles têm um corte de cabelo bem característico. As testas deles parecem muito com a dos Kayapó. Eles têm a testa raspada e atrás o cabelo é comprido, grande. Eles usam tiaras de algodão nas cabeças e faixas de algodão nas cinturas, como a gente pode observar nas fotos. É um pessoal bem saudável. Da para gente ver que são bem nutridos e fornidos.

Nesses últimos sobrevôos, vimos muito poucas mulheres e crianças. Nas 1.200 fotos tiradas pelo Gleilson Miranda dá pra ver apenas três ou quatro mulheres. E isso só foi possível registrar no primeiro sobrevôo que realizamos por lá. Depois elas desaparecem com as crianças e a gente não as ver mais. Mas as mulheres usam umas tangas, saias de algodão. Os Kampa uma vez me falaram nisso, quando mataram uma delas numa “correria”. Os homens andam nus, com os instrumentos deles amarrados pra cima, presos nos cintos de algodão de suas cinturas. Não sei se é impressão, mas me pareceu que eles não sejam um pessoal bem miudinho, não. Mas um pessoal forte e bem nutrido, gozando de boa saúde. Eles atiraram realmente muitas flechas no nosso avião, apesar dele voar bem alto.

O primeiro sobrevôo nas suas malocas e roçados foi feito pela parte da manhã. E só deu para ver apenas dois parentes brabos, assim mesmo muito rapidamente. Eram mais ou menos 10 horas da manhã, quando os homens ainda estão no mato caçando, quando ficam apenas dois ou três nas malocas tomando conta das mulheres e crianças. Estas últimas ganharam logo a mata, claro. No mesmo dia falei assim para os meus companheiros de sobrevôos: “quem sabe se a gente voltar por volta das quatro e meia da tarde, a hora que os homens já chegaram das caçadas, a gente vai poder observar muito deles naquelas malocas do Humaitá com as águas do Envira?”. Foi dito e feito!. À tarde demos uma primeira passada sobre suas malocas e roçados e na segunda estava cheio de brabos nos terreiros das casas. Os homens não correram não! Enfrentaram com coragem e determinação. Devem ter pensado assim: “que diabo é aquele troço voando por cima dos nossos roçados e kupixawa, que gavião monstro é esse? Vai querer pegar nossas crianças, vamos flechar e espantar esse troço que voa baixo sobre nossas malocas e roçados!”

Quanto à divulgação das fotos, podemos dizer que elas realmente repercutiram na imprensa falada e escrita internacional. Esperamos agora que essa repercussão nos ajude a proteger os últimos povos isolados da Amazônia. Precisamos de bons aliados para que isso, de fato, aconteça. Estamos abertos para conversar e dialogar com todas as pessoas de boa vontade que queiram nos ajudar a proteger os povos isolados e seus territórios no Estado do Acre. Estamos cheios de esperanças que o governador Binho Marques seja um dos principais aliados nessa luta.

 
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Rio Branco-AC, 13 de abril de 2008
   GIRO GERAL
Com Moisés Alencastro
   NA TRIBO
Com Roberta Lima
   PORONGA
Com Leonildo Rosas
 
 
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