COTIDIANO

Homens da floresta na luta contra o fogo

Dados mostram que o Acre está na normalidade com as queimadas, mas governo fica em alerta e age junto aos parceiros e à população

 


Andréa Zílio

Em meio à fumaça, eles surgem com um propósito que cria uma coletividade. Os passos, inicialmente, desajeitados e o corpo ainda não familiarizado aos equipamentos, não os impedem de se sentirem heróis. Todos com a única meta de aprender a apagar o fogo que os fizeram chorar ao verem suas plantações e de seus vizinhos, sendo destruídas por grandes e devastadoras chamas.

Este é o cenário visto em cada preparação das Brigadas Comunitárias Voluntárias, que até agora, somam capacitações em 126 associações, com o treinamento para mais de mais de 1 mil 125 agricultores. E são eles, os principais protagonistas da Brigada, que se apresenta como uma proposta ousada e de grande impacto.

Por serem os agricultores, os autores de queimadas em pequenas propriedades, que são maioria no Estado, e de difícil cobertura de atuação do Instituto de Meio Ambiente (Imac), para realização de trabalho educativo, as Brigadas é uma oportunidade de um trabalho duplo: o de educação ambiental - que trabalha a conscientização, e como queimar -, e o de preparação para uso dos equipamentos para evitar grandes incêndios florestais.

Diante de dados, com um cenário que remete o Acre ao estado de normalização que vive todos os anos neste período, com exceção de 2005, considerado atípico, o secretário de Meio Ambiente e presidente do Imac, Edegard de Deus, diz que os órgãos ambientais, Defesa Civil, SEATER e instituições parceiras estão mobilizados e dando ação às atividades apresentadas no Plano de Prevenção, Combate e Alternativas ao Uso do Fogo, onde uma delas é a Brigada Voluntária.

Os dados de satélite mostram que o Acre foi o que menos queimou este ano, e um reflexo positivo nesta baixa, são os melhores índices de pluviosidade e o nível do rio Acre.

Somente no último dia 23, quarta-feira, o resultado de vários satélites, registrados no Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), mostra que o Acre apresentou 110 focos de calor, enquanto que em Rondônia foram 2 mil 632, e Mato Grosso 2 mil e 700 focos, ou seja, 25 vezes mais. Outro dado que da mesma data, que também surpreende, é o de Bolívia, ao total, foram encontrados 5 mil 306 focos de calor, ou seja, 50 vezes mais que o Acre.

Estes dados foram apresentados na última quinta-feira, no treinamento da Brigada com 25 pessoas, realizado na comunidade Baixa Verde, no quilômetro 58, da BR-317, sentido Boca do Acre.

No local, Edegard explicou que o frio que vem do sul com a corrente de vento, assim como traz a friagem para o Estado, é um fenômeno que traz também a fumaça desses lugares vizinhos.

As queimadas no Acre

Apesar da fumaça no céu acreano, principalmente, do Baixo e Alto Acre, o Estado respira melhor que em 2005, é o que garante os dados de satélite. E se dependesse apenas da queimada local, isso seria mais visível ainda.

Em uma comparação, no período de 1 a 24 de agosto do ano passado e deste ano, os dados mostram as mudanças. Todos os Estados queimaram menos, mas a queda maior foi no Acre, que este ano, queimou 15 vezes menos que ano passado.

Aprendendo com o fogo

Equipes do IMAC, junto aos parceiros, Corpo de Bombeiros, Secretaria de Assistência Técnica e Extensão Agroflorestal (Seater) e Ministério Público Estadual (MPE), estão direto em campo, realizando a preparação das Brigadas Voluntárias.

O treinamento começa com o trabalho de Educação Ambiental, em que um vídeo educativo que fala como seria um planeta com escassez total de água, aponta para alguns problemas que o mundo já vive. Um momento em que imagens e textos impedem que a emoção não seja expressa.

Na comunidade Baixa Verde, os olhos dos agricultores e até mesmo de técnicos, se encheram de lágrimas, pois as recordações do ano de 2005 são fortes e a tragédia vivida abalou o povo que sobrevive diretamente da terra.

Depois do vídeo, uma reportagem mostra o cenário de 2005, e muitos agricultores se encontram nas imagens, ou reconhecem parentes, vizinhos e colegas. Outro momento de emoção e de reflexão. É então que a equipe do Imac reforça a importância de usar os recursos do meio ambiente com sabedoria e assim proteger a vida.

Queimar consciente

Conhecer e entender a legislação ambiental é uma oportunidade repassada com simplicidade e objetividade pelos técnicos. E é neste momento que os agricultores aproveitam para tirar as dúvidas que possuem, sem precisar ir à cidade pedir informação.

Mas para o povo que vive do plantio, do roçado, o que vale são alternativas, e isso, a SEATER faz questão de mostrar que é possível. A secretaria apresenta formas de queimar com mais segurança, que é o caso do aceiro, que deve ser feito para impedir que o fogo se espalhe.

Outra opção para o roçado, que o torna mais fértil, diferente de apenas queimar a terra, que dá um prazo de validade de apenas três a quatro anos, é o roçado sustentável, que segundo o diretor técnico da Seater, Ubiraci Vasconcelos, é uma adaptação de uma pesquisa feita pela Embrapa.

“A SEATER usou desta pesquisa da Embrapa e adaptou com outra leguminosa, que é mucuna-preta. Existem 120 roçados sustentáveis, 600 famílias estão treinadas, esperando a época do plantio, e mais 400 serão inseridas neste processo. O projeto tem recurso do governo do Estado em uma parceria com o Banco Interamericano”, diz o diretor.

Soldados da floresta

Na preparação final da Brigada, é hora de encarar o fogo em uma simulação feita pelo Corpo de Bombeiros, após as instruções de primeiros socorros e uso de equipamentos de combate ao fogo e proteção individual. Cada associação participante recebem, no final do treinamento, kits de combate a incêndios.

O sub-tenente Marcos, diz que o trabalho dos brigadistas se torna essencial para evitar incêndios, e no caso daquele de grande proporção, impedir que o fogo se alastre ainda mais para o interior da propriedade, de áreas vizinhas ou da floresta, até que o Corpo de Bombeiros chegue, já que o acesso rápido aos lugares na zona rural é um dos obstáculos enfrentados pelos soldados.

Os agricultores sentem na preparação das Brigadas, uma esperança e perspectiva de dias melhores. Quem viu sua terra queimar, mostra o medo e nele, encontra forças para lutar.

Educar é melhor que castigar

A comunidade Baixa Verde foi mais uma que recebeu o recado do Imac, de que o órgão não é opressor e sim um parceiro no combate ao fogo descontrolado. Por isso, o Secretário Edegard de Deus fala que o Instituto acatou a recomendação do MPE de suspender as queimadas neste período onde estiagem se apresenta com maior intensidade, devendo o agricultor aguardar as primeiras chuvas para a realização das queimadas controladas. Esta informação vem sendo multiplicada por onde os técnicos passam.

“Nós estamos emitindo as autorizações para queima controlada, mas com a recomendação aos produtores de que esta atividade só deverá ocorrer no período em que as condições climáticas estejam favoráveis, para que o cenário do ano passado não se repita. Queremos ajudar os agricultores, e termos a colaboração deles neste trabalho”, diz o secretário.

O secretário diz ainda, que mesmo diante da normalidade, todos os órgãos do Governo, o IBAMA e os municípios do Alto e Baixo Acre estão em alerta total. Inclusive, a Defesa Civil Estadual vem realizando a capacitação de 400 homens do exército brasileiro na região do Vale do Acre e 50 homens do exército boliviano.

“Comparado com os outros anos, exceto 2005, estamos vivendo neste ano um período de normalidade em relação às condições climáticas e as queimadas. Porém, estamos mobilizados e alertas para evitar a situação de calamidade vivenciada no ano passado. Esse trabalho é fruto de uma união dos órgãos com os agricultores, e só assim venceremos esta batalha”, diz Edegard.

Esperança que brota

Maria de Fátima Rodrigues, 50, diz que viu sua colônia incendiar, e somente com ajuda do marido, ficou oito dias trabalhando incansavelmente para conter o fogo. Hoje, com o material que a associação a qual pertence, recebeu do Governo, ela diz que está pronta para agir em união com os outros, para combater as chamas.

Além dela, muitas outras histórias semelhantes, de quem perdeu tudo o que tinha, e está recomeçando, agora, com uma segurança maior.

“O incêndio perto de minha área foi controlado com muita dificuldade, isso porque trabalhamos em equipe, e agora estamos reforçando isso, mas com equipamento que pode nos ajudar e também um conhecimento”, diz o agricultor José Antonio de Souza, 33.

Tristeza em ver a terra queimar, é o que sentiu Maria Ávila da Silva, 71. Hoje, ela não se importa com o cansaço físico e se propõe a aprender e entrar na mata para combater o fogo, se necessário. “Isso é tudo que temos, perdi meu roçado todo ano passado. Não quero ver aquele fogo de novo ardendo meus olhos e matando o que construímos. E agora a gente pode fazer diferente”, ensina.

 

 
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