| OPINIÃO | ||
| UM OLHAR FILOSÓFICO | ||
Paulo Pinheiro da Silva |
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A falta de sentido Por que falar? Não seria mais sensato calar? Muito já não foi dito? Mas se eu me calo, então, logo me vem uma verve incontrolável de opiniões, de possíveis textos, de inquietações e problemas prenhes de outros sentidos aos quais eu me rendo e diante dos quais não há escolha. Mas por que isso? De que necessidade surge o ato da escrita? Não pode ser da mesma forma para todos! Talvez uma gama de problemas imperiosos colocados a partir de um plano anterior à possibilidade de formulação de cuja necessidade não se pode fugir por muito tempo e que resiste, se transforma, mas não desaparece? Mas num mundo tão agressivo e infantilmente ávido por satisfação, não se pode mais colocar aquela necessidade senão como patologia, distúrbio, ou seja, como um desvio do caminho “natural” para a felicidade. Algumas vezes, as pessoas se acostumaram tanto a sonhar que não percebem que viver, realizar, praticar exige mais do que boas idéias. Noutras, a obrigação de fruir nos agencia impiedosamente, pois essa promessa que nos é feita de felicidade completa como um direito inalienável e como finalidade última da existência trabalha no sentido de estar ali atrás como uma exigência irrealizável que nunca é superada e que, mais ainda, nunca é abandonada. Mas por que compor, no final das contas? Por se ter algo a dizer? Mas o mundo hoje não é repleto de dizeres que têm a pretensão de esgotar todos os campos? O que pode você contra toda uma constelação de meios de comunicação que dizem e repetem tudo, de várias formas, em vários momentos com intuito de embrutecer e esgotar os últimos suspiros? Mas agora não é a hora de perder as forças. Todo esse estado é apenas uma aparência, o estado de coisas só se mantém por essa aparência que seduz para a sua mentira até o ponto em que as pessoas desejam do fundo de suas almas serem mentiras semelhantes! A multiplicidade da nossa sociedade é apenas uma aparência, pois o que ocorre na verdade é a saturação de umas poucas idéias superficiais e primárias até a exaustão, até que tudo volte para a inércia que se considera segura para o “sistema”. Nunca houve uma normatização da ação pela não ação como acontece hoje: ninguém pode fazer uma diferença real, mas apenas comercial e financeira. Na verdade, nunca foi tão necessário dizer coisas, mas não da forma habitual, não para erigir como modelo estético, cognitivo ou moral. É necessário dizer coisas de forma inusitada, de forma enigmática, sobre coisas inabituais. Não sobre a verdade e a mentira das coisas, mas sim sobre um “outro” mundo (real) que existe no mundo (imaginário) que vivemos. Toda a ansiedade, a inadequação, a insatisfação geradas para serem combustíveis desse homem novo, de sua impaciência em nunca se deter diante de nada e também de nunca se sentir satisfeito com nada, é o nosso maior veneno, pois é ela no final que nos faz perceber tudo nas últimas, que nos dá a sensação de que nada adianta, que nos convence de que estamos sempre atrasados, vencidos, de que nada vale a pena, ou seja, de que estamos, e não apenas nos sentimos, irremediavelmente alijados de tudo que confere sentido. Mas é justamente essa necessidade de sentido que a transforma em veneno a nossa experiência interior e exterior, pois quando a humanidade teve um sentido tão determinado quanto aquele que exigimos agora de nós mesmos? A televisão conseguiu sem nenhuma intenção disso aquilo que todos os confinamentos do mundo só conseguiram por um tempo e á custa de muita violência, ou seja, ela conseguiu deixar os corpos dóceis, passíveis de um amoldamento nunca antes pensado. Por isso aquela diversidade é antes uma tentativa de saturar e dar justamente a sensação de que todas as saídas estão ocupadas! A filosofia pode sem dúvida ser um poderoso antídoto contra aquele estado de coisas. Não para todos com certeza, mas para aqueles a quem os barulhos e as multiplicidades observadas soam como propaganda de televisão. É, na sua exigência de demora, na sua forma de dar um sentido inusitado para termos habituais, na sua forma de dar todo o peso para frases repetidas todos os dias, que a filosofia mostra a sua força. Não se trata de verdades exclusivas, na maior parte do tempo, mas sim de entender o peso da verdade com a qual temos um contato habitual. Mas nós reclamamos da falta de sentido da existência? Por trás de toda a multiplicidade de atos e vontades individuais não se esconde um todo caótico que nunca nos permitiria um fim. Não! O que nós vemos e percebemos de forma dolorosa é que não somos nós, na nossa subjetividade, que traçamos esse fim. Por mais que tenhamos a pretensão de agir de forma livre, temos sempre a impressão (infelizmente verdadeira) de que estamos num campo já determinável e determinado, mas que não tivemos opção de escolha. Mas o que isso mostra? Algo que talvez tenha existido sempre, mas que o nosso mundo moderno deixou a descoberto: a subjetividade não é fonte de novos sentidos, ou seja, se quisermos aprender novos sentidos devemos nos precaver das particularidades soltas que formam uma subjetividade e mergulhar no fundo indiviso, onde não existe subjetividade que não seja dissolvida, ou transpassar os velhos sentidos e percebê-los partidos e em pedaços. Ou seja, as questões fundamentais ou estão além da subjetividade, nas sobras de pedaços dispersos, com um sentido disperso, ou aquém, num todo dissolvido e pré-subjetivo. Nunca a filosofia foi tão necessária para reflexão. Nunca o mundo foi jogado numa tão grande insciência ilustrada, ou seja, a aparência nunca foi tão cultuada e tão defendida por suas vítimas. Mas não há outra saída, apenas com mais circulação de informações será possível prever alguma forma de transvasamento desse estado de coisas para algo novo para o qual nós não teremos olhos, nem ouvidos e quem sabe nem compreensão, mas que as próximas gerações sentirão como a sua verdade. O entreato de que nós sentimos o peso não poderá se prolongar para sempre. Toda a cultura material, espiritual, científica está, já a um bom tempo, num estado de dispersão em que vemos as suas partes separadas de um ou vários todos que lhe conferiam sentido de órgão, de função-meio para uma função-fim dada pelo todo. Agora, os todos se dispersaram, se quebraram e os seus pedaços flutuam num oceano indeterminado sem destino, sem função, mas já pressentindo os novos fins a que se destinarão em novos todos. Por isso aquela sensibilidade de fim, de dispersão e de falta de sentido a que a cultura européia (a arte em especial) está exposta desde o começo do século XX é a contrapartida de uma multiplicidade de fissuras profundas e crescentes nos velhos complexos de fins, meios, sentidos e significados da cultura européia. Talvez não nos caiba juntar os pedaços todos, mas não devemos ficar acanhados em apanhar pedaços velhos e lhes conferir sentidos novos... |
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Mestre em Filosofia |
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