COTIDIANO

O preço do desrespeito ao meio ambiente

Acrelândia e Plácido de Castro têm prejuízo estimado em quase R$ 40 milhões com as queimadas

Marcos Vicentti
Euracides Caetano caminha
em meio a cafezal destruído
pelas queimadas em Acrelândia


Tião Vitor

A chuva que caiu ontem em Rio Branco aplacou bastante os focos de incêndio e reduziu sensivelmente a fumaça que vinha sufocando a população. Entretanto, no município de Acrelândia, um dos mais afetados pelas queimadas, nenhum sinal de chuva foi registrado. Já em Plácido de Castro, outro município que amarga prejuízos com as queimadas, choveu bastante, mas ainda há preocupação com queimadas que acontece na fronteira com a Bolívia.

Com as queimadas, Acrelândia estima uma perda calculada em 16 milhões, isto com base em um levantamento feito por técnicos da prefeitura no último dia 9. O prefeito da cidade, Tião Bocalon (PSDB), crê que as perdas já ultrapassam a casa dos R$ 22 milhões.

Em Plácido de Castro, distante de Acrelândia 35 quilômetros, os prejuízos também são altos. No levantamento fechado no último sábado são estimados em mais de R$ 17 milhões os prejuízos, isso levados em consideração apenas as perdas materiais, como cerca, pastos curruais, lavouras de café, banana, milho, arroz, abacaxi, entre outros. Só de pastagem, o prefeito Paulinho Almeida acredita que foram mais de 28 milhões de hectares queimados. Os prejuízos para o meio ambiente da região são incalculáveis.

De acordo com o secretário de Agricultura e Meio Ambiente de Acrelândia, Euracides Caetano, um número muito grande de animais de pequeno porte, como pacas, jabutis, tatus, cobras e outros são encontrados diariamente mortos na mata.

Esses prejuízos têm impacto direto a economia das duas cidades. Acrelândia, que é um dos maiores pólos produtores do Estado circulam cerca de R$ 100 milhões por ano, tudo oriundo da produção agrícola e pecuária. Mas toda a safra de café está perdida. Isso porque cerca de 70% de dos mais de 1 milhão de pés de café foram queimados. A seca atinge os 30% restante prejudicando a produção. O mesmo acontece com bananas, mas as perdas são maiores. A estimativa é de que 90% dos mais de 1,2 milhões de pés tenham sido dizimadas pelo fogo. Outras culturas, como a de arroz, feijão, pupunha, abacaxi, estão em situação semelhante.

Os prejuízos deverão ser sentidos também nos próximos anos. Quase toda a lavoura de café deve ser reconstituída. “Veja bem, teremos que plantar e esperar que o café esteja novamente pronto para ser colhido. Isso leva em média dois anos. O caso da banana é de apenas um ano, mas há outras culturas que levam mais de dois anos para serem exploradas. Tudo isso vai afetar bastante o desempenho de nossa economia”, lamentou o prefeito Tião Bocalon.

No levantamento da prefeitura de Acrelândia também aparecem cerca de 600 açudes que estão totalmente secos por causa da longa estiagem. Na região não chove em quantidade suficiente para aumentar o volume de água dos açudes a pelo menos 100 dias. “Na semana que vem, estaremos colocando dois tratores de esteira para aumentar o tamanho dos açudes e abrir novos em locais onde eles ainda não existem. Dessa forma estaremos nos preparando para o ano que vem”, disse o secretário Euracides Caetano. Há ainda a necessidade da reconstrução de pontes que também foram destruídas pelas queimadas.

Parque ecológico pega fogo em Plácido de Castro

As 34 hectares de mata nativa do Parque Ecológico de Plácido de Castro sucumbiram ao fogo nos últimos dias. O parque foi fundado no final da década de 1990, pelo então prefeito Luiz Pereira.

O local foi construído para ser um atrativo ao turismo do município. Diversas espécies de árvores nativas, algumas consideradas em perigo de extinção, haviam sido catalogadas. Também existia um mini-zoológico e cabanas para a acomodação dos turistas. Os animais foram salvos, mais o restante foi todo queimado.

De acordo com o prefeito Paulinho Almeida, a floresta do local terá dificuldades para se recompor em virtude da agressividade do fogo. Ele conta hoje com o apoio de militares do Exército, da Polícia Militar, funcionários da prefeitura e ainda membros da comunidade, que estão se empenhando em combater os focos de incêndio.

Famílias perdem tudo

A gravidade da situação vivida em Acrelândia e Plácido de Castro só pode ser comensurada quando visitada as vítimas diretas das queimadas. Afastando-se um pouco da sede da cidade, já é possível ver o que o fogo fez às pequenas propriedades locais. Um exemplo é a situação do agricultor Valdivino Dias da Costa, morador da Linha 1 do ramal Boa Esperança. Recentemente ele adquiriu uma propriedade de pouco mais de 8 hectares. Ele assumiu a dívida de R$ 12 mil do antigo proprietário junto ao Banco da Amazônia, contraída para o plantio de café. Lá foram plantados cerca de 550 pés. O fogo chegou e destruiu tudo. “Não sei o que vou fazer. Vou ter que procurar o banco para renegociar minha dívida porque daqui não vai dar para tirar nada para pagar nenhuma parcela”, disse.

Outro agricultor, Antônio Jobe Bispo, 48 anos, morador da Quadra 16 do projeto Redenção, perdeu todos os seus bens no último domingo, incluído a sua casa, paiol, motosserra, porcos, cachorros e gado. “Vou lutar de novo e reconstruir tudo porque, agora, só tenho a terra pra ficar em cima”, lamentou.

Outra que está em situação semelhante é a senhora Cleide Cunha de Lima 30 anos. No início do mês de agosto ela perdeu o seu marido, Sebastião Nascimento da Costa, 47 anos. Ele foi vítima de uma derrubada. Naquele momento, Cleide estava grávida de 3 meses. Seria o seu oitavo filho. Com a notícia da morte do marido ela entrou abortou e foi levada às pressas para a maternidade de Rio Branco. No mesmo dia o fogo atingiu sua área de terra, localizada no ramal Linha 5 do Orion. O fogo consumiu o pasto, queimou o plantio de pupunha, café e demais culturas. Ela agora não tem como se manter, já que é analfabeta e tem uma dívida com o banco, contraída pelo Fundo Constitucional do Norte (FNO) para o cultivo de café. Sua esperança é que a dívida seja perdoada, haja vista que todas as promissórias estavam em nome do seu marido. “Creio que o banco tenha uma espécie de seguro para casos como esse. Talvez ela tenha sua dívida perdoada. Nós vamos verificar e dar todo o acompanhamento necessário que ela precisar”, garantiu o secretário Euracides Caetano.

 

 
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Rio Branco-AC, 27 de setembro de 2005
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