| OPINIÃO | ||
| CRÔNICA DE DOMINGO | ||
Francisco Gregório Filho * |
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CORRESPONDÊNCIA XIII – GRATIDÃO Porto Velho, 23 de novembro de 2005. Gregório, Começo este breve diálogo com algumas palavras do poeta Manoel de Barros: “Em poesia que é voz de poeta, que é voz de fazer nascimentos – o verbo tem que pegar delírio”. “Pegar delírio” é o efeito de sua performance sobre nós, seus ouvintes. Sua apresentação na última segunda-feira, dia 21 de novembro, em Porto Velho, foi um presente para a platéia, o seu verbo foi delírio repleno, e fez com que saíssemos levitando pelas asas de suas histórias. Primeiro, com a leitura do poema Guardar, de Antônio Cícero, revisitamos o significado desse verbo. Vimos que guardar uma coisa não é encerrá-la, escondê-la, mas “iluminá-la ou ser por ela iluminado”, é compartilhá-la, colocando-a em contato com o mundo, com os outros para que ela sempre possa voltar para nós. Alberto Caeiro é o guardador de rebanhos; Manoel de Barros, o guardador de águas; Francisco Gregório Filho, o guardador de palavras. Depois, com a narração de um mito de origem, em contato com todo o público, o narrador Gregório (de gregário, que reúne ... palavras ... e pessoas em torno delas) mostrou-nos, de uma forma contada-e-sugerida, que os mitos, em vez de simplesmente explicarem a realidade, acomodam o homem ao mundo, e dotam de sentido mágico algumas ações cotidianas. Da narração do mito da origem do amor, fomos conduzidos por você para um romance medieval. A música do romance de Laurinda Bela, conjugada ao humor do enredo, embalou todo o público presente no auditório, fazendo-nos ca(o)ntar uma narrativa muito mais antiga do que nossos tataravós, uma história de mais de mil anos. Os sentimentos, as ações dos homens podem mudar no tempo e no espaço, mas há práticas e gestos que ficam perpetuados, retornam com novos tons e apesar de velhos soam sempre como novos. No ciclo de sua performance, enredou-se o causo das toalhinhas, tão autobiográfico, mas tão comum a todas as mulheres e a todos os homens sensíveis à simbologia e à função do sangramento feminino. Contar com poesia um fato tão “mensal”, comum, e, no olhar esvaziado do cotidiano, tão sem beleza, é fazer o verbo pegar delírio, fazê-lo vibrar em adormecidas significações. E, no fim, você ainda nos brindou com a história do jabuti e da onça, fábula tão cheia de sentidos para os povos da floresta. A onça, a implacável, a fria, a morte. O jabuti, o que se esconde e, por esconder-se (ato que no senso comum é sinônimo de covardia), consegue ser sábio e manter-se vivo. Na fábula contada por você, o jabuti é o que vence a onça, vence o poder, a morte. Fábula cheia de sentidos para todos os povos! Gregório, gregário ... a sua performance configura mansa e generosamente uma rede de sapiências. Refiro-me aqui ao significado atribuído por Roland Barthes a essa palavra: a sapiência constrói-se com nenhum poder, um pouco de saber, um pouco de sabedoria e o máximo de sabor possível. Mais uma vez minha gratidão por sua vinda a Porto Velho. Marisa Martins Gama-Khalil Rio branco, 24 de novembro de 2005 ------------------------------- Prezada professora Marisa, Agradecido pela carta e pelo convite para estar em Porto velho e contar histórias para os acadêmicos de História, Pedagogia e Letras e aos professores das diversas áreas do conhecimento. Bonita iniciativa essa de conversar sobre a transdisciplinaridade. Parabéns. Voltei dessa cidade em estado de graça pelo acolhimento carinhoso. A educação é de fato a esperança de todos nós. Falo de uma educação diferenciada e de qualidade. A leitura é a chave desse sucesso. O esforço de todos nós é para a conquista da humanidade plena e a paixão de conhecer. E de ter muita gratidão. Bartolomeu Campos Queirós escreveu um livro chamado “Ler, escrever e fazer conta de cabeça”, editado pela Global. Pois bem, nesse livro o escritor começa assim: “Naquele tempo, lá. A escola, onde meu pai me matriculou também na caixa escolar – para ter direito a uniforme e merenda –, devia me ensinar a ler, escrever e fazer conta de cabeça. O resto, dizia ele, é só ter gratidão, e isso se aprende copiando exemplos”. * Contador de História Gratidão [Do lat. tard. gratitudine.] |
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