OPINIÃO
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Mário Eugênio Saturno *

 

E a descoberta era brasileira

Foi divulgada na revista científica Nature a notícia de que dentistas americanos, liderados pelo cientista Gary Hack, haviam descoberto um novo músculo facial. Essa “descoberta” surpreendeu um grupo de pesquisadores brasileiros. O músculo, chamado pelos cientistas da Universidade de Maryland de esfenomandibular está envolvido na mastigação, mas já havia sido descrito pelos brasileiros em 1978.

O problema é que o artigo foi publicado na Revista da Faculdade de Odontologia da Unesp em Araraquara, de pouca circulação e em português. Os autores, Luís Roberto de Toledo Ramalho, Carlos Landucci e Hélio Ferraz Porciúncula, acharam que era pouco provável que fosse um músculo novo, considerando os séculos de dissecção passados, e o rotularam como sendo apenas “uma região profunda do músculo temporal humano”.

Luís Toledo enviou uma copia do trabalho a Gary Hack, de Maryland, declarando que não estava interessado em nenhum tipo de polêmica, só querendo mostrar que já haviam trabalhado no assunto. Gary Hack declarou que sua equipe ficou fascinada, principalmente porque as descrições do artigo brasileiro vão além do que já encontraram em qualquer livro texto. Os americanos consultaram toda a literatura disponível, inclusive 15 livros texto, sem encontrarem menção ao músculo.

Luís Toledo reflete a respeito de artigos publicados em português em revistas locais e no que mais pode estar enterrado (já descoberto, sem que o mundo saiba) nesse tipo de revistas. Deve-se acrescentar que muita pesquisa feita no Brasil nem sequer é publicado em revistas locais. Isso quer dizer conhecimento perdido e dinheiro desperdiçado, um verdadeiro crime contra a humanidade.

Assim, o grupo norte-americano teve que redescobrir e, consequentemente, ficar com os créditos. Vale recordar sobre o moto “quem não estuda a história, está condenado a repeti-la” e completá-la para “quem não registra sua história, não pode estudá-la e já está condenado a repeti-la”. Toda experiência deve ser registrada e divulgada. Veja-se, por exemplo, os índios e japoneses que consideram e valorizam seus velhos pela experiência de vida que adquiriram.

O erro dos pesquisadores brasileiros serve de contra-exemplo para todos nós. Vejam os jovens que criticam seus pais sobre muitos aspectos e quando se tornam adultos cometem erros semelhantes, ou dos candidatos que uma vez eleitos mudam gradativamente o discurso como os porcos de “A Revolução dos Bichos”, de George Orwell. Ou seja, perderam a sua história.

Isso sem falar dos mesmos erros que todos nós cometemos ao longo de nossas vidas. Assim como nós podemos nos aperfeiçoar escrevendo um diário para nos conhecermos ou ir a um psicanalista, devemos ter em mente que somos agentes da história, em maior ou menor grau.

* Tecnologista Sênior da Divisão de Sistemas Espaciais do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), Professor do Instituto Municipal de Ensino Superior de Catanduva (www.fafica.br) e congregado mariano.

 

 
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Rio Branco-AC, 27 de novembro de 2005
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