OPINIÃO
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Wilson Figueiredo *

 

Lula não vai jogar dados com Deus

Quem dispõe de muitos candidatos mas terá de se contentar apenas com um pode, muito bem, acabar sem nenhum. É da natureza da coisa política tanto simplificar para resolver quanto dificultar para escafeder-se. Lula não espera facilidade para passar deste segundo mandato para um limbo político. Falta ao passado rigor científico para lidar com o que vai acontecer. O presidente se move em ampla coalizão de interesses, montada sobre um denominador comum de vantagens sob eterna suspeita. Ruma para o terceiro mandato como fatalidade de interesses que dependem mais da montaria do que do cavaleiro. E deixa impressões digitais por onde passa. O signo dos dois mandatos de Lula é a erupção de escândalos e, por mais que lave as mãos, não é Pilatos. Sempre que possível, carimba com um sinal de preferência alguém de olho no seu lugar. O mais antigo é Ciro Gomes, que sofre de comichão presidencial, já agraciado com uma obra capaz de transformar água do rio em votos sob a proteção do São Francisco. Que se cuide.

Candidatas já freqüentam cálculos que o presidente Lula não confia nem a calculadoras de bolso. O eleitor já pode considerar as hipóteses Marta Suplicy (se preferir louras) e Dilma Rousseff (se optar por morenas). São dois estilos femininos eleitoralmente nada desprezíveis. Disso - eleição - Lula entende. Desde cedo vem operando com as duas, ambas de porte político de esquerda (conversíveis ao centro) e vocações confirmadas para a vida política. Declarou-se desinteressado do terceiro mandato e conquistou ingênuos que acreditaram.

Não se pode ver qualquer semelhança com JK, quando o demônio lhe armou a apoteose de obras prontas, visíveis a distância (certamente até da Lua) e inauguradas no último ano de governo. Juscelino Kubitschek botou para correr os áulicos e provou, republicanamente, que considerava a Constituição, que havia jurado defender, acima da eleição que funciona como a mola da alternância democrática. O episódio nada lhe rendeu politicamente. A oposição da época também não percebeu sinais do terremoto constitucional de 1964. Corria solta aquela idéia segundo a qual pior para um, melhor para o outro.

Lula entendeu cedo que não faltam áulicos, nessa banheira em que a coalizão se afoga, para lhe lembrarem que, entre o segundo e o terceiro mandato, não vai jogar dados com Deus. Não há candidato em condições de enfrentá-lo, enquanto as pesquisas disserem dele o contrário do que diz a oposição. Desde que assumiu a administração da própria imagem naquela ida a Paris, faz lembrar aos íntimos de assuntos históricos a figura de Henry IV, que pagou pela coroa da França o preço de uma missa. Lula deu em Paris a entrevista que parecia despedida, cheia de prenúncios agourentos, tanto a renúncia (na melhor hipótese) quanto o desmoronamento geral (na pior). E ressuscitou na repercussão. As pesquisas lhe garantiram, dali por diante, mais da metade da opinião pública. Lula passou a ser outro e o Brasil continuou o mesmo. A oposição também desafinou e nem o terceiro mandato a devolveu à cena neste segundo ato.

Em último caso (digamos penúltimo), o presidente se disporá ao sacrifício e se curvará à vontade enganosa dos plebiscitos, que nem precisam de democracia. Bastam maiorias parlamentares, de preferência não qualificadas. A democracia aceita tapando o nariz. Afinal, o governo do PT não modificou apenas os mais necessitados. Lula também acertou várias diferenças que o travavam.

* Jornalista
(Transcrito do Jornal do Brasil de 26.11.07)

 
 
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Rio Branco-AC, 27 de novembro de 2007
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