ESPECIAL
   ALMANACRE
Elson Martins


Ator Antônio Calloni como Padre José

Padre diverte em “Amazônia”

Não importa que nem tivesse nascido, ainda, na fase enfocada pela minissérie “Amazônia – de Galvez a Chico Mendes”, da qual é personagem, porque ele é atemporal. Padre José virou lenda: não contentou a Igreja que o sagrou sacerdote; não soube se colocar, nos anos setenta, do lado daqueles a quem batizou, casou e abençoou na floresta; inventou histórias e mentiu, muito, mas é adorável

Luiz Galvez e Plácido de Castro, inquestionáveis heróis da Revolução Acreana não o conheceram. Quando José Carneiro de Lima veio à luz, em 1912, na cidade cearense do Quixadá, Plácido tinha sido assassinado numa emboscada (1908). E Galvez tinha voltado para a Espanha onde morreu (1935) pobre e doente.

José foi o 13O filho de Telmino Julião e Benvinda Cândida, casal que gerou mais três, somando 16, para ajudar a povoar o Acre com sua prole numerosa. Chegaram ao território conquistado, em 1920, deram nome de sua cidade a uma colocação de seringa e entraram para a história.

José e o irmão Peregrino, o 14o, tornaram-se padres da Paróquia Servos de Maria. Fizeram o Seminário Menor na região e o Maior em Roma, de onde retornaram em 1938 para a aventura religiosa na selva. Tinham quase a mesma idade, eram parecidos no modo de evangelizar, mas José transcendeu em estilo.

O ator Antônio Calloni, que o representa na minissérie, é excelente; a autora Glória Perez criou o personagem com competência e afeto; e o reconhecido glamour da rede Globo encanta espectadores país afora. Ainda assim, falta raça do personagem original.

Em 1977 tive o prazer de entrevistá-lo - melhor, de ouvir suas mentiras engraçadas e inocentes. Eu andava na companhia do repórter da revista Veja, José Alves, pela região do Abunã quando o encontramos. Alves se atrapalhou para gravar e fotografar o padre, de tão empolgado com o que ouvia ele falar: de índios que teve de matar para não ser morto, dos queixadas que abateu a pauladas e outras histórias não menos malucas.

De verdade, como escreveu Glória Perez em seu blog na internet, “o padre José da minissérie é um personagem inspirado na figura muito querida por todo o Acre: o padre que adora caçar, pescar e é conhecido pelo excesso de imaginação que o leva a contar histórias mirabolantes para deleite dos seringueiros e de quem o escuta”.

No livro “Folclore Acreano”, lançado em 1987, Padre José descreve as crendices e histórias de seus fiéis da mata. É uma delícia de livro! Vejam o que ele diz sobre o Boto:

Sempre desconfiei das proezas do boto nos rios e igarapés (...) Quando ia batizar uma criança, muitas vezes ela não tinha pai: era filho de boto tucuxi, o mais danadinho. No baixo rio Acre, encontrei uma família inteira indo embora por causa do boto.

Para se terminar uma festanç, no baixo Amazonas, basta chegar um rapaz novo e bonito, e dali a poucos minutos vai todo mundo embora porque chegou boto... quem tem filhas moças deve zelar pela sua honra e fugir, porque o boto vem procurar moças novas e bonitas.

Encontrei uma família de 9 pessoas viajando em uma canoa (...) Iam em silêncio, remando sem fazer barulho nas águas. O dono da canoa entrou na lancha e me disse, baixinho, que ia embora para longe porque uma mãe de boto estava amamentando o filho perto de sua barraca, e isso era perigoso. Ele disse que não devia falar muito, porque boto “iscuita com 10 quilomito” de distância.

NÃO APRESSE O RIO

Leila Jalul

Ela saiu do mar da Paraíba num navio caindo aos pedaços, na ala destinada aos sem classe. Chegou de pernas inchadas pelas horas passadas no porão. E aportou num desses seringais, com um marido que de pouco lhe valia, duas filhas pequenas, uns contados vestidos, alpercatas e fotos das pessoas queridas.

Mulher de têmpera, dessas que não fraqueja diante de qualquer pé de vento. Tiradas rápidas e certeiras para qualquer situação. Fossem alegres ou tristes os fatos ou os envolvidos, sempre uma sabedoria na ponta da língua. Nem era sumo de bondade e paciência, nem poço de maldades. Tinha lá seus dias de avesso.

Pouco afeito aos trabalhos pesados de seringais, Seu Mulato, como era chamado o esposo, logo deu as costas para a família. Sobrou para a mulher trabalhar que nem demente e agüentar firme e forte os abusos dos seringalistas.

E foi então que a mão divina lhe amortiza o peso. Vai-se a primeira filha, empestiada pela varíola. A segunda, que ainda lhe era onerosa, foi pro reino de Juramidan, recebida com festas. E Dona Otília continuou vivinha. Tinha contas para acertar, tinha tarefas para dar acabamento, tinha defeitos para endireitar.

De seringal em seringal, até chegar a ver as luzes da capital. Com o ofício de costureira, bate à porta de um comerciante próspero, libanês do Líbano (turco era a puta que pariu!).

O velho ainda fazia as vezes de regatão, junto com seu sócio, Manoel Julião. Prato feito para os sócios, pois, além de tabaco, mixira, fósforo, vela, quinado, vermute, querosene e outras coisas de primeira necessidade, levavam confecções do atelier montado pela nova empregada.

Não sei não, mas tenho a impressão que essas medidas intermediárias hoje usadas (PP, MM e GG), foram descobertas e nomeadas por ela. Os gabirus eram diferentes do padrão americano. Eram baixos e gordos ou baixos e magros. Pernas normalmente cambotas, barbas ralas e sorrisos largos quando esqueciam as mazelas.

Agora sim, as festas seriam mais bonitas. Calças de gabardine cáqui, camisas de risca de giz, muita seiva de alfazema garrão, um bom conhaque, e todos felizes. Os seringais Barro Vermelho, Pontão e Calafate tinham os arigós mais bem vestidos e mais sedutores da paróquia.

O sírio-libanês bem que sabia que aquela dona ia ser sua. Já separado da primeira mulher, com quatro filhos, de 11, 12, 13 e 15 anos, tinha que dividir com alguém a criação daqueles entes. A costureira não era de todo feia, porém infinitamente menos bonita que a primeira, com quem casou quando esta tinha, apenas, 12 anos e, com 13, lhe causou o infortúnio de ter uma filha mulher. Essa não vai me dar trabalho!

Do status de costureira, subiu muitos degraus. Agora tinha dono e sobrenome. E com ele viveu, feliz, pelo que parecia. Ele, com a exigência de bem ser servido; ela com a preocupação de bem servir. Aprendeu rudimentos de árabe e manejava um velho ábaco com habilidade de chinês. Coisa bonita de ver! Somar e multiplicar eram suas operações favoritas. Segundo a filosofia, dividir e subtrair, disso a vida se encarrega, repetia sempre.

Somou e multiplicou. Ajudou a todos, inclusive os indignos. Já anciã e muito doente, apenas a enteada mais velha tinha tempo para, todos os dias, passar para asseá-la e alimenta-la, não sem antes pedir:

- Sua bênção, madrinha.

Pediu para ouvir o trecho de uma música (“... e lá no outro mundo, em vez de inferno, encontre glória, e que apague de minha memória o quanto sofri”), tomou um copo de leite e dormiu.

Percorreu todo o rio da sua vida com paciência de monja budista.

 
 
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