OPINIÃO
   MIOLO DE POTE

Marcos Vinícius Neves

 

A gestação de uma nova sociedade

Em 1999 o Governo do Estado publicou uma revista chamada “Galvez e a Republica do Acre”. Além de comemorar o primeiro centenário da proclamação do Estado Independente do Acre esta revista mudou radicalmente a forma como era interpretada a experiência histórica acreana. De um aventureiro bêbado e irresponsável Luis Galvez Rodrigues de Arias passou a ser visto como o idealista presidente de uma republica que efetivamente buscou a organização da sociedade regional e a superação dos problemas internacionais que perturbavam a vida dos brasileiros do Acre. Educação, trabalho, sociedade foram alguns dos temas prioritários no governo do Presidente Galvez. Uma experiência que não se encerrou com sua deposição e a inacreditável devolução do Acre à Bolívia pelo governo brasileiro, mas permaneceu viva através da Expedição dos Poetas e, principalmente, da guerra comandada por Plácido de Castro que retomou o nome de Estado Independente do Acre após a vitória de 24 de janeiro de 1903, que esta semana completou 104 anos.

A Republica do Acre e Galvez (III)

Novembro

Galvez sabia manipular o imaginário popular em seu proveito. O dia 15 de novembro, aniversário da proclamação da republica brasileira foi todo tomado por comemorações e manifestações de amor e solidariedade à Mãe-Pátria. Em pronunciamento público, Galvez proclamava que “O dia 15 de novembro de 1889 foi o precursor do dia 14 de julho de 1899. O primeiro libertou-nos do caduco e reacionário regime monárquico, o segundo é a demonstração patriótica, indiscutível, de nossas convicções republicanas. O povo que é governado pela Constituição da República do Brasil não pode aceitar leis estrangeiras: daí a nossa revolta e fundação do Estado Independente do Acre”.

Aproveitando-se do momento internamente favorável o presidente Galvez baixou um novo decreto que instituiu o imposto chamado de “subscrição patriótica” que recaia tanto sobre seringalistas quanto sobre seringueiros para garantir a manutenção da milícia e compra de armamentos e vasos de guerra. Além disso, estabeleceu, também por decreto, o imposto de 10 % a ser cobrado diretamente na alfândega de Cidade do Acre. Com isso Galvez reagiu frente à recusa da alfândega de Manaus de repassar os impostos recolhidos sobre a borracha do Acre.

Em mais uma inteligente jogada Galvez reclamou a neutralidade brasileira, quanto ao caso do Acre, já que o Brasil reconhecia como boliviana aquela região, não existindo nenhuma ameaça ao governo brasileiro neste caso.

Dezembro

Os rios acreanos começavam a tomar água, aumentando seu nível e abrindo a temporada de chegada dos vapores que anualmente transitavam por aqueles rios trazendo aviamentos e levando a borracha que alimentava as indústrias européias e norte-americanas. Começava, então, os momentos mais difíceis vividos por Galvez à frente do Estado Independente do Acre.

Apesar de ter enviado vários emissários ao alto-Acre para tentar dissuadir os proprietários dali de lhe fazerem oposição e unirem-se ao seu governo, a Comissão Garantidora dos Direitos Brasileiros continuava disseminando a desobediência a Galvez. Era chegada a hora de tomar atitudes mais drásticas, sob o risco de perder definitivamente o controle da situação. Por isso Galvez partiu em pessoa para Xapuri a bordo do aviso de guerra Liberdade que havia sido equipado com armamentos, buzinas e outras parafernálias que causavam admiração e espanto na população ribeirinha. A frente de tão estrondoso aparato bélico e da prisão de Neutel Maia conseguiu acabar com a oposição que lhe era feita no alto-Acre, cujos habitantes hipotecaram-lhe irrestrito apoio.

Associado a essa ação de caráter interno, Galvez também reagiu frente aos boatos de deslocamentos de tropas bolivianas em direção ao Acre e às pressões que lhe chegavam do governo federal brasileiro e dos comerciantes de Manaus e Belém iniciando aquela que seria sua cartada decisiva: a proibição da exportação da borracha acumulada nos seringais do Acre. Não se pode esquecer que reter o fluxo da única fonte de riquezas da região significava arriscar o colapso da existência da sociedade que o legitimava. Ainda assim a natural habilidade carismática do Presidente Galvez logrou obter apoio popular e dos proprietários, conflagrando toda a Republica do Acre contra uma possível invasão militar.

“Fechando estes rios à navegação brasileira e não exportaremos uma só pele de borracha, enquanto as forças brasileiras, auxiliando os bolivianos, permanecerem no território nacional. A borracha que os proprietários e negociantes do Acre possuem será empregada nas trincheiras que constituiremos em defesa de nossa dignidade.”

Porém a pior oposição a ser enfrentada neste momento por Galvez veio através dos rios que traziam os vapores e seus comandantes imediatamente prejudicados pela dura medida de retenção da borracha nos barracões. Foram esses comerciantes que aclamaram a um dos grandes proprietários do Acre, o Capitão Antônio de Sousa Braga, que acabara de chegar, como novo presidente do Estado Livre do Acre, em 28 de dezembro. A primeira providencia de Sousa Braga foi decretar a prisão de Galvez e logo a seguir declarou livre o transito da borracha pelos rios acreanos. Dias depois, no Riosinho aconteceu uma troca de tiros entre as forças de Sousa Braga e as de Galvez que deixou vários feridos e uma vitima fatal entre os homens de Galvez que caiu prisioneiro na madrugada de 31 de dezembro entregando o poder ao duro e determinado seringalista.

1900 - Janeiro

Sousa Braga era um cearense rude a quem só interessava a manutenção do comércio da borracha. Não possuía o brilhantismo do espanhol no trato com a população. Logo pôde perceber as dificuldades de se governar a Republica do Acre e quanto maiores as dificuldades enfrentadas, mais Sousa Braga compreendia as ações implementadas por Galvez.

Para piorar a situação chegou ao Acre um vapor fretado por autoridades bolivianas que se instalaram no seringal Humaitá, de propriedade do notório aliado dos bolivianos o Capitão Leite Barbosa. No dia 12 de janeiro encontraram-se no estirão da Cidade do Acre o vapor Rio Afuá de Sousa Braga e o vapor Manaus que levava os bolivianos na retomada de Puerto Alonso. O presidente do Estado Independente do Acre ainda tentou parlamentar enviando emissários portadores de bandeira branca. Porém, o Capitão Leite mandou abrir fogo sobre os emissários, o que provocou a morte de um deles. Sousa Braga reagiu então aos tiros dos traidores e depois de acirrado combate, os bolivianos se renderam, sendo aprisionados e deportados de volta para Manaus.

Esses acontecimentos atormentaram Sousa Braga que se preocupava muito com a responsabilidade que assumira e que começava a ficar cada vez mais pesada. Sua admiração pelo governo e pelas idéias de Galvez aumentava na mesma medida em que essas preocupações o assaltavam. Além disso, alguns revolucionários percebendo a indecisão que se apossava de Sousa Braga começaram a pressionar pela volta de Galvez ao comando do Estado Independente do Acre. Sem outra saída para a enrascada em que se metera e convencido da competência e seriedade do espanhol que aprisionara, Sousa Braga devolveu à Galvez o cargo de Presidente da Republica do Acre, ainda em 30 de janeiro, alegando problemas de saúde e financeiros.

Fevereiro

A população do Acre recebeu com festas e alegria a volta de Galvez ao poder. Em que pese essa nova fase de vitalidade do governo Galvez a questão acreana havia chegado a um ponto antes inimaginável por seus inúmeros desdobramentos práticos.

A imprensa continuava dividida entre o apoio e o repúdio à Republica acreana, havendo mesmo um aumento neste ultimo depois da proibição do comércio da borracha. Os “sucessos do Acre” alcançavam as páginas dos jornais argentinos, norte-americanos e europeus. O capitalismo monopolista internacional começava a se impacientar com a possibilidade de diminuição no fornecimento da borracha, insumo indispensável à industrialização que se processava no mundo civilizado. A pressão do governo federal pela imediata solução daquele conflito que se eternizava indefinidamente, minou o apoio, ainda que sempre fornecido ocultamente, do governador Ramalho Junior, do Amazonas.

Dessa determinação do governo federal brasileiro se originou a partida do Aviso-de-guerra Jutai da marinha brasileira rumo ao Acre, trazendo um vice-cônsul para assumir a representação brasileira junto aos bolivianos. Logo a seguir era enviado também o Aviso-de-guerra Tocantins com a missão de acabar com a Republica do Acre e devolver a região ao domínio boliviano. A força do Tocantins era composta de 100 homens e 12 oficiais, sob o comando de um major.

Março

Intimado a entregar o poder e a dissolver o Estado Independente do Acre, Galvez alquebrado pelas febres provocadas pelo impaludismo que o assaltavam, aceitou as exigências das tropas brasileiras. Toda a formação e a base de sustentação da Republica do Acre estava fundada no sentimento patriótico em relação ao Brasil. Não havia possibilidade de comandar os brasileiros do Acre contra seu próprio país de origem. Mas antes de dissolver efetivamente o Estado Independente do Acre, Galvez exigiu uma compensação financeira para si e para todos os que haviam arcado com as despesas ocorridas até ali. Depois de intensas negociações, o governador do Amazonas aceitou arcar com uma indenização aos proprietários sublevados do Acre. No dia 15 de março Galvez assinou a ata de rendição e se tornou prisioneiro sob palavra dos militares brasileiros que efetivamente devolveram o controle da região aos bolivianos. Pouco dias depois Galvez partiu para nunca mais voltar a pisar em terras acreanas. Porém, a semente do sonho de liberdade já estava plantada e nunca mais deixaria de florescer no Acre.

* Texto publicado na Revista “Galvez e a Republica do Acre” pela Fundação Elias Mansour em 1999. Na revista o título deste texto foi editado como “Galvez mês a mês - Diário de uma republica”.

 

 
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Rio Branco-AC, 28 de janeiro de 2007
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