OPINIÃO
   CRÔNICA DE DOMINGO

José Augusto Fontes

 

AMANHECER DO AMOR

O carro percorre o mesmo caminho de antes, muitas luzes ainda estão acesas, o dia vem chegando devagar, a noite vai se entregando, além das preliminares. Percorremos uma rua alta e ali embaixo a cidade parece adormecida, a luz maior do sol ainda não se mostrou inteira, deve estar alguns minutos atrasada, embora a barra do dia já risque um horizonte ao pé do olho. Viajamos com as músicas. “Me diz quantos desastres tem na tua (minha) mão”. Enquanto canto, por um triz não perco o caminho de volta para o cotidiano. A mulher que me fascina é o mais novo conceito do amor, mas o caminho de volta não tem definição, apenas é, apenas prossegue, é um seguir que vai deixando, na volta, as definições pelo caminho.

Igual ao carro que corre, igual à música que já mudou, igual à noite que nos deixou, os amores são fluentes em sentimentos forasteiros, desses que chegam e vão, com a poeira da saudade. Só os amores podem dizer, definir. Chegam, mostram grandes novidades repetidas e seguem, como a nova música que agora ouço só. Assim é o amor, que me cura de uma loucura qualquer. Bastou encostar no teu peito, bastou encostar no teu jeito, bastou o carro dobrar a esquina, descer a ladeira, e minha atenção voltar-se para as ruas, para o pensamento de outro voltar, de entregar-me ao sono, sem sair do tom habitual. Todo dia ela faz tudo sempre igual, preciso ser pontual. As confissões do novo amor ficaram na noite.

Para dormir, o sono pede braços de antes de ontem, pede amor de gestos conhecidos, de palavras caladas, de juras eternizadas, amor sem tempo para conceitos, amor que se sabe em olhar, ao embalar o adormecer. Tudo passou, há agora o calor ambientado na interseção dos corpos que quase dormem, enquanto se escutam, é diferente do que havia naquele movimento de carinho combativo, naquela guerra de dois vencedores, em que minha lança invadiu teus domínios. Passou, com a noite. A carne repousa sobre o pensamento. Depois do sono, vou olhar de novo o céu, o sol estará bem andado, o pensamento estará mais sentado nas costas de todos os compromissos, de tudo que sempre há. Amar sem limites será uma lembrança.

Aquela definição do amor vinha num corpo que não cabe nestas linhas, tinha uns olhos que não podem aqui ser dados a ver, era possuída de um jeito dissimulado, tomando conta de tudo, quase sem jeito, depois de rasgar o silêncio da noite. Vai escapando aquele grito, o doce gosto do momento, tudo ficando na promessa, esperando a próxima farra, para despejar tudo nos copos sobejados de ilusões. A boca vermelha ainda está pintada em mim, olhos negros me perseguem. Se eu pudesse, não sairia de ontem, voltaria pra mim, permaneceria no encanto, ainda estaria agarrado aos teus cabelos, aos teus pêlos, atrás da porta, no tapete. Só consigo reclamar baixinho, sem flores nem vastos amores. Não adianta nem tentar, durante muito tempo eu não saberei definir, apesar de ser tudo sempre igual.

Foi assim de novo. Depois de amanhecer, nosso amor caiu num sono quase eterno, há mesmo algo de infinito no amor. A manhã relaxou e um sonho novo o traiu. Fui acordado por uma voz pontual, algum trabalho reclamava meu abraço, o café pediu um trago de carinho. Só a música no carro, depois de tudo, ainda quis ser feliz. O movimento das ruas me lembrou teu vai-e-vem. Lembrei-me e segui, pois já era de tarde, era preciso pensar no amanhã, e você foi ficando nas teclas em que defino minhas mentiras, a música já mudou, a poeira foi tomando assento, o amor puro da música escondeu-se na noite que chegou sem aviso; de novo, me resta aprender a ser só. Sigo fingindo, enquanto o carro percorre o mesmo caminho, vou sem saber pra onde, haverá um amor para anoitecer. Depois, haverá o caminho de volta.

 

 
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Rio Branco-AC, 28 de janeiro de 2007
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