COTIDIANO

Jordão: do estafeta ao satélite

Município inaugura Agência dos Correios e banco postal

Cedida
Inauguração da agência contou com a presença de autoridades e populares


Flaviano Schneider

Acessível apenas pelo ar ou por água, o município de Jordão, situado no alto Tarauacá, é o mais isolado do Estado. Desde segunda-feira, porém, um pouco desse isolamento teve fim com a inauguração da sede dos Correios e Banco Postal (Bradesco). O Banco Postal possibilitará que os habitantes da região abram uma conta corrente e recebam seus proventos por meio do banco. Os usuários também poderão abrir uma conta poupança e contrair empréstimos. O município, que sempre viu seu dinheiro ser gasto em Tarauacá, agora vai ter um ânimo a mais, pois a chegada do banco vai irrigar a economia local com cerca de R$ 1,2 milhão ao mês, que vai movimentar o comércio. Além dos funcionários da prefeitura e órgãos estaduais, o banco postal vai melhorar a vida de 400 aposentados e 1.200 beneficiários dos programas sociais do governo federal.

Feliz mesmo ficou o prefeito Hilário Melo. Até agora sempre que chega o fim do mês e tem que pagar os servidores a preocupação do prefeito era muito grande. Por falta de um banco local, ele tinha que buscar o dinheiro dos salários em Tarauacá ou em Rio Branco. Além da despesa com o frete de avião, ainda se preocupava com a possibilidade de ser assaltado.

“Hoje nós nos sentimos mais tranqüilos. Tá com o dinheiro, tá com o coração na mão! A partir de maio fazer o pagamento dos funcionários todos pelo Banco Postal. Vai ser mais cômodo para nós e para as pessoas que vão receber seu dinheiro comodamente, sem correria, o banco está lá aguardando. Vai facilitar a realização de compras, vamos começar a usar o cartão, como nos centros maiores. Saímos do tempo da roda quadrada”.

Para buscar o dinheiro, o prefeito tinha uma equipe preparada. Como ele conta a operação era executada de madrugada, sem deixar escapar alguma pista que pudesse facilitar a vida de possíveis assaltantes. “Além do mais - disse – era muito caro para nós, porque todas as vezes tivemos que fretar avião. Houve casos em que tivemos que ir buscar em Rio Branco. Aí precisava fretar dois aviões. Imagine para um município cuja fonte de renda é só o FPM, isto acarretava uma despesa muito grande para nós. Mas graças a Deus, ao esforço do senador Tião Viana e do João dos Correios conseguimos este benefício”.

Ele conta que no começo das negociações foi para a capital federal: “Estive em Brasília com o senador. Nós enfrentamos uma noite de chuva, para falar com o presidente dos Correios. Lá tivemos uma promessa vaga, mas, sabe como é, promessa feita a um senador tem que cumprir. Depois teve a CPI dos Correios e isto atrasou um pouco. Em dois meses nós entregamos o prediozinho pronto e o povo estava aguardando com muita ansiedade.

Desde 1916 - O prefeito contou que desde 1916 já havia serviço de Correios no Jordão. Membro de uma das primeiras famílias a habitarem a região, o prefeito lembra que seu pai lia os jornais de Tarauacá trazido por estafetas dos Correios. Além disso eles traziam a correspondência. “Nós tínhamos os estafetas que traziam as cartas e os jornais de barco. Eles, primeiramente, vinham no remo e gastavam cerca de 15 dias. Depois apareceram os barcos a motor e os estafetas pegavam carona com eles. Traziam também as cartas e levavam as carta do pessoal daqui. As cartas eram o único meio de comunicação.

Naquele tempo, uma carta de Fortaleza demorava seis meses para chegar aqui”.

Do estafeta ao satélite, a história de Jordão vai mudar muito. Como já mudou em algumas cidades acreanas. No início da parceria entre o Bradesco e os Correios, em 2002 o Acre tinham 13 cidades desassistidas com banco postal. Desde então foram inauguradas nove faltando apenas quatro para cobrir todo o Estado. Dos quatro restantes, Capixaba, Porto Walter e Porto Acre já têm os recursos garantidos, enquanto em Epitaciolândia falta a definição de um terreno.

Diretoria Regional

Segundo o diretor dos Correios no Acre, João Dávila a implantação da diretoria regional da empresa no início do ano passado foi um grande impulso para o avanço ocorrido desde então. Ele agradeceu o empenho do senador Tião Viana que ´viu as vantagens que isto traria para o Estado´. Desde então, João conta que foram construídas novas sedes em Rodrigues Alves e Marechal Thaumaturgo e readaptadas as de Cruzeiro do Sul e Brasiléia.

A grande vantagem com a nova condição é que a independência financeira garante a agilidade na tramitação e execução de projetos. Antes, os Correios do Acre tinham 60 motos mal conservadas; hoje elas estão recuperadas e há mais 70 novas. Todas as bicicletas estragadas foram substituídas ou consertadas e existem mais 200 de reserva. Fruto do esforço da atual diretoria, a agência da Via Chico Mendes será transformada em um centro operacional e já tem recursos de R$ 1,5 milhão para isso.

Inauguração concorrida

A Inauguração da agência e banco postal foi muito prestigiada pela população de Jordão, onde a maioria é composta de índios da etnia Kaxinawa. Os índios com seus rostos pintados e colares faziam a diferença dando um colorido todo especial, entre ele o vice-prefeito Siã Kaxinawa, líder indígena que demonstrou sua satisfação pela chegada do banco postal. Também estiveram presentes o senador Tião Viana, o vice-governador César Messias, o deputado federal Nilson Mourão, os deputados estaduais Moisés Diniz e Mazinho Serafim, o gerente da Diretoria dos Correios em Rondônia, Carlos Teixeira e o diretor-geral do Banco Postal Bradesco, Gerson Costa.

Segundo Gerson o banco postal surgiu da necessidade de levar o atendimento bancário básico à população desprovida. “Inauguramos a 1ª unidade em 2002. Então o Brasil possuía cerca de 2.100 municípios sem qualquer atendimento bancário, e as pessoas precisavam se locomover de avião e de barco. Hoje destes 2.100 mais de 1700 municipíios já contam com atendimento bancário”. No total o Bradesco possui 5.620 agências em parceria com os Correios em todo o Brasil.

Depoimentos

Araci Feitosa de Araújo tem um pequeno restaurante e hotel no Jordão. Na expectativa de que o movimento de seu negócio melhore a partir de agora, ela conta que há 47 anos mora no município e vê a possibilidade real de crescimento do município a partir de agora. Araci avalia que com o progresso que vai acontecer ela poderá até contrair um empréstimo para melhorar e ampliar suas atividades.

O comerciante Olavo Farias considera que, com mais dinheiro circulando na praça de Jordão, seus negócios serão beneficiados

Mecânico Daniel Napoleão: “Sofremos para conseguir essa agência e banco postal. Os salários às vezes atrasavam. Agora teremos cartão de banco e senha. Vai melhorar.”

Casal de aposentados Maria Helena e José Pedro (direita) gostaram de saber que vão receber suas aposentadorias no Jordão mesmo. “Agora ficou muito mais tranqüilo para nós”, disse José Pedro.

Nilo Pereira é coordenador de cultura indígena em sua aldeia Boa Esperança, no Alto Jordão. Servidor do município ele considera que muita coisa vai mudar a partir de agora. E será melhor para todos os servidores.

Joel da Silva mora no ceringal Boa Vista, colocação Cachoeirinha. Tem nove filhos, dois dos quais estudam no Jordão. Beneficiário do Bolsa Família, considera que o banco e o correio na cidade são importantes para melhorar a vida de todo mundo. Espera um futuro bom para seus filhos com o progresso do Jordão.

 

 
© Copyright Página 20 todos os direitos reservados    -      Imprimir       -       TOPO
 COTIDIANO
 COLUNAS
 CHARGE
 EDITORIAL
 ENTREVISTA
 ESPECIAL
 POLÍTICA
 OPINIÃO
 VARIEDADES
 EDIÇÕES
 EXPEDIENTE
 E-MAIL
 
Rio Branco-AC, 28 de fevereiro de 2007
   GIRO GERAL
Com Moisés Alencastro
   NA TRIBO
Com Roberta Lima
   PORONGA
Da Redação
 
 
P E S Q U I S A