| OPINIÃO | ||
| UM OLHAR FILOSÓFICO | ||
Paulo Pinheiro da Silva |
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A natureza e o além do homem Existe algo que distingue os povos objeto de colonização! Eles muitas vezes criam uma série de graus de aparência com os quais traçam a distância entre algo neles que deve ser escondido e preservado, por um lado, e uma fantasia de dominador com a qual enganam e se permitem transitar em “solo inimigo”. Os dominadores ficavam satisfeitos, pois acreditavam que uma hierarquia a seu favor era estabelecida, ou seja, “se eles querem nos imitar devem nos considerar superiores”, pensavam. Mas o que imitavam? A maioria das vezes, aquilo que mais salta aos olhos de quem é objeto de opressão, ou seja, imitavam-se mais os defeitos do que as qualidades: a violência, a arrogância, a arbitrariedade no mandar e julgar. Para o projeto colonizador existia uma dupla vantagem no fato de que eram imitados e de que se escolhia uma imagem tão baixa deles (dos dominadores), pois com esse “modelo” eles (os dominados) nunca iriam longe e, além disso, amplificavam o medo na medida em que representavam uma comédia da violência da opressão! Mas essa é uma das pontas e a mais conhecida, mas a outra é que nos interessa filosoficamente! Existia e continua existindo toda uma gama de modos de ocultar uma outra hierarquia de valores inacessíveis aos dominadores e aos seus lacaios. O grau mais próximo é o duplo sentido. Grande parte das nossas manifestações está entranhada desse estratagema do disfarce: elogios que são ofensas, atos de submissões que são orgulhosamente o contrário, candomblé com roupagem cristã, “desafios” entre amigos, ajudas mal intencionadas, reverências desrespeitosas, verdades ditas como mentiras... Como tínhamos uma metrópole que fazia papel de subalterno na Europa, entre as grandes nações, que apenas a toleravam, esse papel de duplo sentido foi desempenhado principalmente pela classe dominante. Ela já era especialista no disfarce e no malicioso duplo sentido. A sua educação era tão pouco “civilizada”, pelo padrão europeu, que ela negava qualquer acesso a educação que pudesse desvelar a sua “incultura”: as raízes da catástrofe educacional que somos e sempre fomos é mais profunda do que se imagina! Não é à toa que o duplo sentido nos agrade tanto esteticamente e que nós nos esmeremos em sempre fazê-lo “progredir”! Mas toda essa camada não é a mais profunda realmente! Ela é aquela que se chama de ladina, de mestiça, de malandra. A classe dominante e seus lacaios, com esses adjetivos, qualificavam o “resto” em parte como brancos, em parte como dominadores, mas não inteiramente, ou seja, como espécimes de barro impuro, mas ainda barro, como matéria imprópria para um bom resultado e, portanto, como destinados à submissão. Esses adjetivos entravam naquela estratégia: as classes dominantes atribuem como um elogio-ofensa e as classes “dominada” aceitam como um desafio em que procuram atribuir um outro sentido “de que vocês nada sabem”, fruto de uma hierarquia desconhecida, em que um outro quadro de valores se deixa ver, mas apenas para quem tem olhos para ele. A camada mais profunda, entretanto, apresenta sem dúvida um espetáculo! Ali o que se busca não é um novo pertencimento, mas o contrário, ou seja, o abandono de condições na forma de uma transmutação, de um rebatimento do bicho homem no resto da natureza. Algumas tradições indígenas atribuem aos elementos da natureza características humanizadas e às vezes mais “humanidade” na própria natureza do que no bicho homem. Com isso toda aquela prerrogativa da existência humana que pode, partindo desse salvo-conduto, agenciar toda a natureza não existe entre essas tradições. Entre os afro-descendentes há o contrário, ou seja, até o próprio homem faz parte da natureza material. Várias são as marcas dessas duas atitudes na música, no modo de falar, de festejar e representar. Na linguagem corrente existe a tendência de reduzir as formas verbais à terceira do singular – a gente é; você é; ele é – que é justamente a que se utiliza para falar de uma coisa, de um “isto”! A manifestação popular mais difundida é a festa do boi em todas as suas formas e o que é o boi a não ser um instrumento, “uma coisa”? Claro que é um vasto campo de investigação perceber o quanto os escravos e descendentes falavam de si mesmos quando cultuavam o boi, a sua bravura, a sua característica de renascer e vencer a morte. Como se se tratasse de um elemento imortal que estaria para além da experiência cotidiana e que paradoxalmente transformasse a infertilidade do boi (castrado) em uma fertilidade em outros dois sentidos, ou seja, enquanto festa (do bumba-meu-boi e congêneres) que se alastra, se difunde, alcançando mais e mais espaço, enquanto mito que narra, o boi renasce, depois de morto pelo senhor de terra, para celebrar de novo e sempre a sua bravura... Na música de Villa Lobos, Trenzinho caipira, a locomotiva é representada pelos elementos mais matérias: sem levar em conta o apito, mas procurando representar o atrito da roda no trilho e a força do vapor no monstro de ferro. Esse misturar-se com a natureza, se confundindo com os elementos animais e físicos é uma atitude mental e inconsciente com raízes profundas... Mas qual o seu significado filosófico? Uma intenção nada consciente de abandonar a espécie humana e se tornar alguma coisa nova, de não se confundir com aquilo que se chamou etnocentricamente “Homem”. Tem, portanto, conseqüências ontológicas fundamentais na gênese de algo novo...do além-do-homem! |
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Mestre em Filosofia |
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