| OPINIÃO | ||
| CRÔNICA DE DOMINGO | ||
José Augusto Fontes |
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AMOR PURO Há o sentimento, há esse permanecer que precisa dizer te amo. Não importa o mal entender do falar, não o agrava a sem-resposta do querer, é sempre urgente dizer, hoje foi possível. Eu disse, repeti, teus olhos ouviram, tua mão não segurou o instante. Segui com a urgência, ela incomoda, é presente, vem de longe, invento que será futuro. O amor não amanheceu hoje, mas há o insistir de amanhã, interessa a tua possibilidade, não seria fácil passear em outros olhos andantes. Ninguém engana o querer. Tua mão recebeu carícias na contramão, eu disse o que havia na bagagem, não houve tradução. Teus pés embaraçam o meu dizer, minha voz tropeça em intenções, sempre tímidas, sempre boas, eu finjo que calo o amor, imito gostar, teu rosto me distrai, não digo mais o que queria, esqueço o que devia, a despedida está na porta, no movimento, no horário. Vou indo, te deixo, também fico aí. Você não me vê depois que saio, não me vê agora, não olha bem, não te entendo, te quero, não sei dizer de outro jeito. Na música que ficou há um convite, vou voltar, não sei bem, imagino. Amor assim perde a hora, a roupa não sai, o grito não vem, só as intenções são boas, tanto tímidas, que não desatam o prazer. Um pouco de ilusão. Encontro a idéia de insistir, que estava perdida no fascínio dos teus olhos. Impossível perder a intenção de gostar, ela já cresceu, vem de longe. Não sei dizer, assim, com palavras boas, com jeito à toa, só sei afirmar, nisso me perco, nisso não alcanço, pouco expresso, nisso te perco. Mas não posso. Ficaram fotografias do momento, há um carinho digitalizado, haverá a impressão de um sentir meio embriagado, meio estonteado, sem jeito, até enamorado, a lembrança disso não se perde. Mas o querer pede mais, há esse impasse, o sentimento viaja em outros mundos, não importam as idéias, os acontecimentos do plano visível, o amor é intransigente, inquieto, cheio de coisas, é acessado pela imaginação, entre nós, pela fantasia, como um brinquedo longe da criança, como a criança que está no pensamento. Algum acorde pode tocar tua emoção, alguém tocou tua tatuagem (lembra?), mas só à flor da pele. Ninguém entendeu o teu ritmo. Teu corpo, teu olhar arredio, tua mão quieta, a música para tocá-los está comigo. Outros sons não vão rimar. Tua sensibilidade continua em espera, a música que há em ti ainda não foi tocada. Teu movimento, o momento de solidão, tua dança, o verso para dizê-los é meu. Tua voz para soltar, um falsete para calar, a vontade de te revelar, escrevo um poema vazio que precisa da tua poesia. Quer sair de dentro o que está guardado, te pegar, invadir, quer conhecer a força que tem, penetrar o que não há em mais ninguém. Tua boca diz que não é hora de divagações, já saímos da idade, da festa, o sono te chama, teu gesto ainda não me ama. Mas não é isso que dizem teus olhos, enquanto passeiam pela varanda da noite, percorrendo o amanhecer que dorme ao som do Djavan, te cantando para dizer só o que for bom. Teus olhos afirmam, calados, que há um querer mal tocado, disfarçado pela alegria do teu sorriso. Aí eu vi que preciso dessa poesia, para escrever a música do teu amor. |
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