VARIEDADES

Eládio Perez Gonzalez

“A voz é um traço físico que você herda de algum antepassado e, evidentemente, o ator tem de aprender a usá-la, mas em primeiro lugar aceitar a voz que ele tem.”

Val Fernandes
Eládio prepara os alunos com
exercícios para aquecer a voz antes de entrarem em cena

Com formação que inclui vivências em países como Estados Unidos, Alemanha e França, Eládio Perez Gonzalez inaugurou junto com o diretor teatral João das Neves o curso de Teatro da Usina de Arte João Donato, promovido pelo governo do Estado, por meio da Secretaria de Estado de Educação, Fundação Elias Mansour e Usina de Arte João Donato. Barítono e autor do livro “Iniciação à Técnica Vocal”, com vários prêmios, Gonzalez tem auxiliado o trabalho de muitos regentes de coro, atores e cantores, além de ter atuado desde a década de 70 em cursos na Fundação de Educação Artística em Belo Horizonte.

Um traço forte no professor Eládio é a aversão aos currículos extensos: “Num festival contemporâneo no México meu canto teve o sucesso que costuma ter, nada de excepcional, mas o meu currículo teve um sucesso enorme porque eu disse simplesmente: ‘nasceu, canta de vez em quando e um dia vai morrer’. Esse foi o meu currículo, teve mais sucesso do que meu canto”.

Eládio veio ao Acre a convite de João das Neves, parceiro em vários projetos teatrais, para ministrar a oficina de Técnica Vocal. Nesta entrevista, ele fala do trabalho que desenvolveu com os alunos na Usina e a importância da voz na preparação do ator.

Qual a proposta técnica da oficina?

Era trabalhar com um grupo de pessoas interessadas em fazer teatro. Então, eles não tinham experiência com a técnica vocal que é necessária indispensável para o ator. O diretor João das Neves fez a triagem e comecei a ouvir as vozes e começamos o trabalho.

O senhor trabalhou com qual idéia?

A intenção é fazer com que o ator tenha consciência da voz que ele tem. A voz é um traço físico que você herda de algum antepassado e evidentemente o ator tem de aprender a usá-la, mas em primeiro lugar aceitar a voz que ele tem. Ele vai falar e cantar com a voz que ele tem e não com a voz que gostaria de ter. O ser humano é o único bicho que mente, que forja coisas e por exemplo você pode forjar uma voz que não é a tua, mas a natureza sempre acaba cobrando os seus direitos.

Que metodologia o senhor costuma utilizar nas oficinas? Uma mescla de várias técnicas?

São simplesmente exercícios que levam em primeiro lugar a pessoa, no caso o ator, a tomar consciência de sua própria auto-percepção. Ele tem que saber como faz aquilo que ele faz e que isto também é um treinamento específico. Ele tem que se concentrar no processo e não no resultado, que é conseqüência do processo.

Na preparação do ator/voz, como o senhor trabalha a respiração?

Quando você é você a tua respiração é conseqüência de um processo que se formou desde a infância e você já deve ter percebido que raramente existe qualquer tipo de acidente quando você está falando, existe uma adequação. A tua inspiração se faz de acordo com o que você vai dizer, que é texto teu. Como ator você declama ou fala um texto que não é teu, mas do autor da peça, então você tem que aprender a se por a serviço do autor, e isso exige um treinamento uma análise do texto. O ator marca os lugares onde tem que respirar e vai ensaiando até que isso se automatize.

Quanto à memória e a voz?

Em geral no início o ator ler o texto e através de inúmeras repetições aquilo que era atenção torna-se memória, aquilo que era consciente e até super consciente vai se tornar subconsciente, e é aí que entra a memória. Ele memoriza assim como os movimentos no palco. Ele vai memorizar o texto, as inflexões, aquilo que constitui a interpretação. Muitas vezes você vai assistir a uma cena estupenda feita por um grupo de atores incríveis e fica de boca aberta: ‘meu Deus quanta naturalidade’. Não é natural, eles ensaiaram exaustivamente durante três ou quatro meses. Eles tem que parecer naturais, mas não são.

A turma da oficina correspondeu às suas expectativas?

Sim. O pessoal está tendo mais consciência do uso da voz. Veja bem a voz é um traço físico, a palavra já é o uso da voz que através da articulação dos fonemas vai se tornando palavra e carregando portanto uma mensagem de acordo com o seu significado. Então, nós fizemos análise de tudo e eles conseguiram um bom resultado.

Que textos foram trabalhados?

Vários. Por exemplo, O Deputado do Som-Só de Mário de Andrade. Nós trabalhamos com os subtextos porque é um texto extremamente engraçado, até muito cruel, porque o deputado não consegue dizer três frases coerentes, ele fala muita besteira. O autor ao colocar esse texto na boca do deputado faz uma crítica aos deputados dos anos 20. Os alunos acharam que não mudou muito hoje (risos). Depois fizemos um texto de Drummond que se chama Quadrilha e o poema Lagoa e também um texto que tirei de uma canção popular: ‘eu sou macumbeiro, não brinque comigo dizendo que é papo, eu ponho seu nome na boca do sapo e você nunca mais vai zombar de ninguém.

É bem claro e forte o texto.

Isso. A primeira frase é uma afirmação, a segunda uma advertência, a terceira uma ameaça e a conclusão final é triunfante. Pedi aos alunos para decorarem, o primeiro exercício de memória, mas que me fizessem uma pequena cena. O resultado foi maravilhoso. (Assessoria FEM)

 
 
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Rio Branco-AC, 28 de junho de 2007
   GIRO GERAL
Com Moisés Alencastro
   NA TRIBO
Com Roberta Lima
   PORONGA
Da Redação
 
 
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