OPINIÃO
   CRÔNICA DE DOMINGO

Francisco Gregório Filho *

 

CORRESPONDÊNCIA IV – ENXERGAR

Cruzeiro do Sul-Acre, 18 de agosto se 2005.

Meu Caro Senhor,

Quero falar de você, para você / do seu olhar, da sua sinceridade / sua voz, sua alma... eu te vi hoje, através da alma / não é amor não é paixão / é simplesmente, admiração pelo que vi, pelo que me foi permitido ver / você / o que presenciei é puro, lindo, sincero, e ao mesmo tempo / indescritível / não falo de você profissional, trabalhador, gente do povo / falo de você humano, gente como a gente / você tem carisma, é puro, justo / tem um olhar cativante...emocionante / um dia, escreverei um livro / são muitos os temas que tenho em mente / mas certamente falarei em “você” / dessa centelha de luz que vi no teu olhar / essa sabedoria explícita, esse olhar místico / essa gana de aprender, de ensinar / essa simplicidade / esse amor pelas pessoas, pelas coisas / detalhes...

Sempre gostei de ler, mais ainda de escrever. Habituei-me a escrever sobre tudo, perdas, conquistas, grandes alegrias...geralmente escrevo mais sobre grandes tristezas, desilusões, sonhos perdidos. Enfim, gosto de escrever sobre tudo, sobre nada, um grande dia, nenhum dia em especial...

Algumas vezes me acho louca, me ausento da realidade com muita freqüência, me perco nas leituras, nas coisas que escrevo na forma de desabafo. Por vezes confundo tudo e acabo esperando muito daqueles que convivem comigo.

Já me considerei poeta, gosto do que escrevo, me perdi um pouco nos caminhos da vida e acabei por fazer algo diferente do que queria, talvez não soubesse o que queria. Por comodidade até, me lamentei por longos anos, e não tomei nenhuma atitude para recuperar o que penso ter perdido. Só agora, nove anos depois, sinto-me com disposição para retomar minha vida.

Conhecê-lo, de alguma forma, não me pergunte por que, me fez ter mais certeza dessa retomada. Acho que tem haver com o seu espírito jovem, e a garra que você aparenta ter, sede de viver, de aprender, de ensinar, passar experiências!

Meu pai era um homem de letras, como costumamos dizer, meus irmãos e eu. Minha mãe, uma mulher guerreira (meu pai tinha o quarto ano de antigamente, assim como minha mãe). Meus irmãos e eu gostamos, todos, de ler e de escrever, muitas vezes nos destacamos por aí a fora, muito mais eles do que eu, na verdade. Às vezes penso que temos uma veia artística, sei lá...

Aos dezoito anos passei no meu primeiro vestibular, era minha grande meta. Por falta de opção fiz Pedagogia. Por falta de uma série de coisas, como juízo, coragem, persistência, não concluí. Quando pude retomar, já com uma filha de três anos e tendo morado em vários estados e cidades, havia sido jubilada. Tentei mais duas vezes o vestibular, sem muita vontade não consegui.

Eu estava vivendo, digamos assim, um período difícil e obrigatório da minha vida, talvez. Sem estímulo, sem expectativa alguma, sem esperança. Aos vinte nove anos, acreditava ter atingido o “fundo do poço”, sentia-me incapaz, inferior às outras pessoas, infeliz e com o triplo de idade.

Tenho duas filhas um marido que me suporta, agora que voltei a enxergar, pensa que me ama, e um mundo de responsabilidades, problemas como todos, desenganos, mágoas, são as intempéries.

O que mudou agora, às vésperas dos trinta?

Agora, graças a Deus, acordei, como um sonâmbulo que esbarra em alguma coisa. Acordei e voltei a enxergar.

Desde menina, sempre tive um sorriso nos lábios, mesmo quando tinha problemas. Passei uns anos sem sorrir, sem me amar, sem querer coisa alguma.

Agora alguma coisa no meio do caminho desfez a bola de neve, quebrou as amarras. Sinto-me feliz, sou uma ótima mãe, tenho apenas trinta anos, um casamento sem amor e um mundo a conquistar!

Retornei para a vida, quero estudar, fazer uma faculdade pelo menos, continuar lendo, continuar escrevendo, mesmo que não chegue a lugar nenhum é a melhor terapia que conheço; além de caminhar, conversar, ajudar as pessoas, entre outras coisas.

Quero ter uma profissão, para ter um salário melhor, custear meus estudos, ser independente e quem sabe um dia, escrever um livro (já tenho filhos, já plantei uma arvore, falta o livro)

Senhor Gregório, sei que parece incompreensível estar falando tudo isso, não sei nada da sua vida, só o que vi hoje, mas o senhor me parece um bom ser humano. Foi à maneira que encontrei de falar um pouco da minha história de vida, de desabafar, não existem por quês. O fato de o senhor escrever...nem sei sobre o que escreve.

Acredito que seja um artista, poeta, ou talvez o senhor pareça o Deus da minha infância, com todos esses cabelos brancos, essa perspicácia, essa sabedoria, humildade, simplicidade!

Perdoe-me se pareço inconveniente, inconseqüente ou qualquer coisa desse tipo.

Tive realmente um grande prazer em conhecê-lo. Pedi a Deus pelo senhor, pela sua família, pelas suas causas. Saúde, paz e vida.

Obrigada pela atenção dispensada

Um grande abraço.
S. M.
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Rio Branco, 26 de agosto de 2005

Ufa! ...minha Cara leitora, corajosa e generosa você, hein? Você é a S. M.?

De sua carta sublinho a palavra enxergar. Bom que você retorna a esperança e quer fazer coisas e estudar. Percebe-se em seu texto que você é leitora e escritora. Parabéns. Estou comovido e tocado por você.

Um abraço afetuoso,

enxergar
[De or. obscura.]
Verbo transitivo direto
1.Ver a custo; entrever, divisar.
2.Descortinar, avistar.
3.Notar, perceber, observar:
Finalmente enxergou o seu erro.
4.Pressentir, adivinhar.
5.Fam. Entender de (um assunto).
Verbo transitivo direto e indireto
6.Enxergar (3):
Enxergou-lhe nos olhos os sentimentos ocultos.
(Dicionário Aurélio)

* Contador de Histórias

 

 
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Rio Branco-AC, 28 de agosto de 2005
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