OPINIÃO
   CRÔNICA DE DOMINGO

José Augusto Fontes

 

Sinais do tempo

Vou sair e olhar minha cidade. As mesmas coisas podem mostrar algo novo, podem dizer outro sentido ao que já havia. Mesmo caladas, podem revelar um silêncio significativo, produzir vontade, prazer. Mas se nada for dito, revelado nem calado, há a cidade, cheia de lembranças e de possibilidades, há saudades a tecer, passos a gastar, caminhos a seguir. Há nossa vida, nossa repetida relação, já quase velha, que a cidade vem de antes da minha infância, já quase grande e disfarçada, que às vezes nela vejo sinais de outro tempo.

Acode a certeza de que tantas vezes a vi tornar no sol, depois de dar-se à lua, contente em apenas estar em renovação. Sobressalta o ciúme. A cidade está saindo de mim, saindo do meu tempo e das pessoas que o registraram e o fizeram. A cidade, segundo meu ciúme, tem muitos outros donos, que de tantos, já não os reconheço, não há cumprimentos, não estamos no mesmo arraial. Mas a cidade não parece incomodada com isto. Ao invés de mim, minha cidade não está ficando velha. Está apenas com sinais de outro tempo.

Puxo por ela, mostro a lembrança das antigas ruas, da praça que vi nascer com flores que hoje são outras, da rua que vi sem carros, sem farto movimento, do céu que vi sem grandes prédios, do rio que vi sem pontes, sem concreto no barranco, da vida que vi sem pressa, das calçadas que vi com muita conversa, nas noites sem televisão, sem disfarçada informação, às vezes, também sem energia elétrica. E puxando por isto, lembrei do céu diferente, como se isso fosse possível hoje ou amanhã. A cidade não se comoveu e eu sigo em seus varadouros.

A cidade quer o novo, o viço, quer idéias e projetos, quer concreto e asfalto, altas janelas, a cidade quer o tempo e o momento, ainda que não lhe agrade o esquecimento. Apesar de aldeia, agora com periferia, a cidade pede passagem para outros rumos, enquanto minhas lembranças pedem atenção para novos valores, padrões, contextos, ilusões. É importante envelhecer adaptado ao novo tempo, se possível, aceitando e construindo. Mas para a cidade, importante é não envelhecer, não entregar-se, e enfeitar-se, querendo ser atual e cheia de vidas.

Talvez seja isso que ela ensina, talvez para isso que abre horizontes, talvez nisso o outro sentido para o que já havia. Talvez aí o que olhos pouco inspirados não viram logo. Ainda bem que a cidade ajudou. Se for isso mesmo, vou dar mais umas voltas, beber o rio, saciar a chuva forte, lavar o barro e apagar a poeira. Quem sabe assim, amanheça em mim a revelação do tempo, esse de agora, no qual sempre estive, fingindo que o outro era distante. É simples. A cada dia, o outro se firma e este se instala. A cada dia, sinais do mesmo tempo.

Minha casa sempre esteve aqui, a cidade é mesmo minha. Sei da sua modesta vastidão, dos seus atalhos e truques, sei onde se esconde a beleza. O rio que lhe dá voltas é também meu, dos meus filhos, das pessoas que nele navegam olhos de desde outro ontem. O rio é de quem nele pesca o caminho das águas e das vidas da cidade que nos enche a moldura. A cidade guarda e olha para adiante, acostumada com emoções e disfarces. Só não pode ocultar os sinais do tempo. Ainda menos de quem a conhece desde quando nosso tempo era menino.

 

 
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Rio Branco-AC, 28 de agosto de 2005
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