COTIDIANO

A luta contra a chama da devastação

A rotina desesperada de quem tenta apagar as labaredas que transformam o verde em cinza na Amazônia

 


Andréa Zílio

Um domingo que antes sugeria dia de descanso, tranqüilidade e sossego transformou-se em horas de agonia de uma gente que não recua diante do trabalho pesado e tem a força e a disposição como principais características para cumprir as tarefas diárias. São peões, ribeirinhos e seringueiros que lutam contra o maior inimigo dessa época, o fogo.

Na rodovia AC-40, a 46 quilômetros de Rio Branco, o retrato do desespero que está vivendo gente de vários cantos da Amazônia com as conseqüências das queimadas.

Trabalhadores da fazenda Iracema há 16 dias tentam apagar o fogo que ganhando força na mata, domina em seguida o pasto. Os bois têm como única defesa, recuar a cada sinal de ameaça. O maior desejo deles, no domingo, é que a chuva aparecesse.

A pequena chama que rasteiramente domina o capim entra em meio às árvores, mostrando sua fúria com grandes estrondos, fazendo das cinzas redemoinhos, e cresce, mostrando que qualquer pedaço de vida verde é alimento para que ganhe forças. Esse é o cenário presenciado dia e noite por peões, ribeirinhos e seringueiros.

Na beira da estrada, qualquer viajante de fim de semana presencia a cena desesperada de um dos lados da fazenda Iracema, que é dividida apenas pelo asfalto. Mas é em num dos impulsos da chama vermelha, que ela ultrapassou a divisória, em busca do pasto e floresta ainda intactos pela devastação.

Briga pelo verde – Dois jovens, Sergio e Renato, correm apenas com um tanque de água nas costas, para tentar impedir que o estrago seja maior. Eles vivem o mesmo episódio há 15 dias, que agora se agrava. Ainda no lado mais afetado, outros homens com um carro pipa de 5 mil litros, tentam apagar o fogo quando brando, e fugir do mesmo, quando está exaltado. É a briga permanente contra a fúria.

Morando no Acre há 20 anos, o baiano Getúlio Rodrigues conta que grande parte de sua vida trabalhou em fazenda e jamais tinha passado por situação semelhante. Responsável por uma de tantas áreas atingidas no Acre pelo fogo, ele fala que muitas vezes tem de dias que precisa chamar até 20 homens para tentar conter o fogo na fazenda Iracema.

A mais forte – Apenas com o conhecimento que adquiriu nos anos de vivência na lida com a terra, Getúlio fala que sabe que o fogo é provocado por queimadas feitas pelo homem, mas, entende que o descontrole é uma fúria da natureza em resposta ao mal que estão fazendo a ela.

“Acho que a derrubada contribui, a falta do homem pensar que faz isso. A gente trabalha dia e noite para tentar apagar esse fogo que mais parece uma praga. Estamos orando por chuva”, diz.

No dia seguinte, depois de muita luta para tentar jogar água na terra que perde seu verde e fica negra, o pedido de Getúlio é atendido com um dia de chuva, dando descanso aos homens. Mas, essa não é a solução definitiva para o problema. E diante de uma das várias áreas afetadas pela Amazônia, a água que caiu de nuvens em alguns municípios do Acre, enfraquecendo o fogo, foi a prova de que a natureza é mais forte que o homem.

 

 
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Rio Branco-AC, 28 de setembro de 2005
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