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Após 35 anos, tragédia que matou 32 pessoas em Sena Madureira ainda é lembrada pela população |
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Assustada, sempre que acordava, a mulher pedia ao marido, Paulo Farias da Silva, 76, o Paulo Caçote, que cortasse a árvore. Ele respondia: “Deixa de bobeira, mulher! Sonho é apenas superstição. Eu não vou perder um dia de serviço derrubando uma árvore de machado”. Paulo Caçote estava errado. A mulher não teve sonhos. Teve premonição. Há 35 anos, às 10h25, do dia 28 de setembro, o avião DC-3, prefixo PP-CBV, da Empresa Serviço Aéreo Cruzeiro do Sul S.A. levantou vôo de Sena Madureira com destino a Rio Branco. A bordo estavam 28 passageiros e quatro tripulantes. Minutos após a decolagem, a aeronave caiu dentro da área do Seringal Boa Esperança, na Boca do Rio Caeté. Todos morreram. Tudo da forma como a mulher sonhara. O avião partiu de Cruzeiro do Sul e fez escalas em Tarauacá, Feijó e Sena Madureira. Quando estava a mil metros de altitude, o motor direito parou. O comandante Dutra tentou o pouso de emergência, mas não deu tempo de finalizar a manobra. Ao fazer uma curva de 180 graus, a asa esquerda bateu na copa de uma árvore. Após ficar dependurada na árvore, a aeronave caiu de bico no chão, provocando vazamento de combustível e, consequentemente a explosão. Foi a maior tragédia aéreas da história do Acre. “Sonho bom eu nunca acertei. Mas quase sempre acerto quando tenho esses sonhos ruins”, comenta Angelina. Na hora do acidente, dona Angelina estava em casa preparando um mingau de Arrozina para o filho mais velho. Sentada na cama, recebeu a visita da vizinha Raimunda Ângelo, a quem já tinha contado sobre os sonhos. Foi Raimunda Ângelo quem percebeu a manobra do avião e falou assustada: “Ele vai cair!”. As palavras da mulher foram ofuscadas pelo barulho do avião batendo nas árvores. Em seguida, a explosão fez a terra tremer. A aeronave foi contida pelo pé de Manitê que Angelina havia pedido para o marido cortar. Foi a árvore que impediu a aeronave de bater na casa. “Se ele tivesse vindo teria matado todo mundo”, diz. Ao ver aquela cena estarrecedora, Angelina comentou com a amiga: “Raimunda, tudo está acontecendo como eu sonhei”. Curiosa para olhar de perto a tragédia, a vizinha chamou Angelina para ir ao local. Ela não foi. Não teve coragem. Mas tomou a iniciativa de sair correndo atrás de pessoas para ajudar. Como não encontrou ninguém, tratou voltar. Foi quando se deparou com várias pessoas que tinham vindo da cidade, entre elas estava o prefeito José Nogueira Sobrinho, que atravessou o rio nadando. “Nunca esqueci aquele dia. Quero guardá-lo na memória para sempre, apesar de ter sofrido muito porque não podia fazer nada. Até hoje lembro da quantidade de pessoas chorando no local”, comenta dona Angelina. Dona Angelina revela que sonhou antes de acontecer outro acidente nas proximidades. Ela diz que ouviu uma voz pedindo para que comprasse 10 libras de velas e acendesse. “Fiquei tão assustada. Até o cachorro fez xixi na casa. Depois, comentei o fato com outra vizinha e ela disse que um avião havia caído”. Impressionada com o que sonhou e presenciou, dona Angelina nunca havia viajado de avião. Tinha medo. Mas, este ano teve que se render. Precisava visitar as filhas que moram em Porto Velho. Não havia passagem de ônibus. Foi convencida a embarcar num vôo da Rico Linha Aéreas, a empresa da qual caiu uma aeronave em agosto de 2003, vitimando 23 pessoas. “Embarquei bastante emocionada e gostei da viagem. Mas, durante todo o vôo, pedi para Dom Giocondo me proteger”. Dona Angelina e seu Paulo moram no mesmo local há 38 anos. Têm 44 anos de casados e 11 filhos. Vivem com a filha Lara Mariana, 11. Segundo ela, a influência positiva que o acidente trouxe é que eles passaram a receber visitas e a conhecer pessoas de várias partes do país. “Depois do acontecido, sempre vem alguém nos visitar para saber o que aconteceu”, comenta. Marido pescando – No dia do acidente, Paulo Caçote não estava em casa. Tinha ido pescar porque um amigo falara que estava passando uma piracema de Branquinha pelo Rio Caeté. Enquanto pescava, ele viu o avião fazer uma manobra estranha e pensou: “Vai cair”. Do ponto onde estava, seo Paulo viu quando a asa esquerda da aeronave bateu numa árvore. Largou o material de pesca e correu. Ao chegar ao local, acerca de 60 metros da sua casa se assustou e pensou: “A Angelina tinha razão quando falava dos seus sonhos”. Só que o momento, diz, não era para pensar em sonho. A cena era digna de pesadelo. O fogo destruía tudo. A estrutura do avião derretia. O cheiro de gasolina e de carne queimada era muito forte. As pessoas presentes não sabiam o que fazer. As cacimbas existentes nas proximidades praticamente secaram na tentativa de apagar o fogo. Somente após às 13 horas foi iniciada a retirada dos corpos. “Só tinha uma pessoas que tinha cabeça. Os corpos estavam tão quentes, que queimavam as nossas mãos”, comenta. Mesmo depois de todos esses anos, Paulo Caçote conta detalhes do acidente. Lembra que as articulações dos joelhos dos passageiros foram quebradas e que teve o cérebro de alguns deles em suas mãos. Sobre isso fala: “O cérebro da gente é muito grande para o tamanho da nossa cabeça”. O homem também conta que durante muitos anos permaneceu um cheiro forte de gasolina e de carne no local. “Se a gente cavasse um palmo de chão, o mau-cheiro vinha. É que foi derramado muito sangue”. Os restos mortais dos passageiros começaram a ser transportados para a sede do município às 18h30. Foram colocados em sacos e levado de canoas. “Naquela época tudo era muito difícil”, comenta. Seo Paulo também põe fim à história de que era possível ouvir os gritos das pessoas na hora da queda: “Quem está fora não dá para escutar quem está dentro”. Dois frangos e uma franga – Um dia depois do acidente apareceram entre os animais domésticos de Paulo e Angelina dois frangos e uma franga. O fato passou despercebido por eles, mas foi notado por um dos filhos do casal, que chamou a mãe no final da tarde e disse: “Mãe, aqueles bichos não são nossos”. Acostumada com a vinda de outras aves de vizinhos para o seu quintal, Angelina não deu importância ao comentário do filho. Achou que as aves poderiam ser que alguém que morava próximo e que logo viria buscá-las. Não foi isso que aconteceu. No dia seguinte, Angelina saiu para perguntar a uma vizinha se as aves lhe pertenciam. Ela disse que não. A verdadeira procedência delas foi descoberta por acaso. À noite, os animais se dirigiram para o local onde o avião caiu e dormiram num dos pedaços da calda. A descoberta de que as aves pertenciam a um dos passageiros gerou boataria. Muitas pessoas diziam ao casal que alguém viria buscá-las. O disse-me-disse teve fim quando o agente da empresa Zequinha Areal foi visitar o casal. Ele era compadre de Paulo e Angelina. “O Zequinha disse: ‘Comadre, já que procuraram a sua casa, eles são seus”. E assim foi feito. Os animais foram criados com todo cuidado pelo casal. Os frangos, quando cresceram, foram capados e vendidos. O dinheiro apurado foi utilizado na compra velas para acender no local do acidente. A franga ficou no quintal até morrer de velhice.
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