OPINIÃO
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Elson Martins *

 

Debate murcho

Quando a TV Globo anunciou que o debate entre candidatos a governador em todo o País seguiria regras estabelecidas pelo matemático Oswald de Souza, eu imaginei que a chatice iria prevalecer. Nunca me dei bem com as fórmulas matemáticas: já tropeçava na aritmética ensinada nos anos cinqüenta, nos livrões massudos e feios do Exame de Admissão ao Colégio Acreano indicados pelo doutor Marinho Monte; alguns anos após, dei de cara num vestibular para engenharia com o cálculo infinitesimal que encerrou de vez uma possível carreira técnica. No jornalismo, pelo menos, a gente tira sarro do que não consegue entender.

Aqui no Acre, o debate anunciado para a noite de terça-feira criou a expectativa de um enfrentamento mais aberto entre os candidatos com maiores chances de chegar ao governo. Eu aposto no Binho Marques (PT), atual vice-governador, secretário de Educação há 12 anos (municipal e estadual), historiador, militante político colado na luta dos Povos da Floresta há cerca de 30 anos, um cabra, enfim, que qualifica o voto da gente. Mas reconheço que seu principal opositor, Marcio Bittar (PPS), em segundo lugar nas pesquisas eleitorais, não deve ser subestimado.

Escrevi em outra ocasião e insisto agora que estas eleições, mais que as outras, refletem um confronto de forças políticas entre o Acre tradicional - extrativista, lúdico, com história feita de luta e magia - e o Acre resultante da invasão de fazendeiros, grileiros e madeireiros nos anos setenta e oitenta do século passado. O Estado sobreviveu com ganhos e perdas mantendo o controle nas mãos de um governo identificado com os povos da floresta. Desequilibrar para o outro lado significa empurrar nossa região para a agonia que tomou conta de Rondônia e de outras regiões amazônicas.

No debate, os outros candidatos tiveram o desempenho de figurantes mal ensaiados, porém interessados em criar embaraços ao sucessor de Jorge Viana, Binho Marques. O esperto Tião Bocalon (PSDB) argumenta como se o Acre inteiro deve considerar como modelo seu município de Acrelândia, ocupado basicamente por pequenos e médios agricultores que migraram do Centro-Sul para cá. O Zé Wilson (do PSOL), com a disposição de um velho e cansado comentarista de futebol analisando equipes que caem para a segunda divisão, oscilava num muro baixo. Enquanto o ex-deputado federal José Alex (Prona), com a desenvoltura de um bicheiro, prometia empregar 105 mil pessoas no governo a partir do dia 2 de janeiro de 2007, sem concurso público.

O matemático Oswald de Souza conseguiu enfiar todos numa “camisa-de-força” - até o moderador do programa, jornalista Jefson Dourado -, comprometendo o resultado que se esperava esclarecedor aos eleitores. De qualquer modo, o programa serviu de alerta: concretamente, o Acre melhorou muito nos últimos oito anos e o atual programa de governo merece continuidade. Mudar essa realidade para qualquer coisa inconsistente é um risco.

As pesquisas indicam que Binho Marques poderá ganhar no primeiro turno. Se a vitória se confirmar, ainda que seja no segundo turno, a população poderá celebrar o fato de que a velha República de Galvez cada vez mais se distanciará da ficção para assumir papel histórico na realidade amazônica do século 21.

* Jornalista

 

 
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Rio Branco-AC, 28 de setembro de 2006
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