ESPECIAL
   ENTREVISTA

“O Acre vai estender sua mão amiga ao Lula”

Senador Tião Viana percorre o Estado pedindo votos à reeleição do presidente e diz que o povo acreano só tem a ganhar se compreender a dimensão do atual governo


CedidaTião Maia

Embora reeleito com a maior votação da história do Acre e com um dos maiores índices proporcionais de votos da história republicana, o senador Tião Viana (PT-AC) ainda não descansou. Mal acabou a eleição, já estava novamente percorrendo o interior do Acre agradecendo por sua eleição e a do governador Binho Marques e também pedindo votos para a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Como Lula perdeu para o candidato Geraldo Alckmim no Acre durante o primeiro turno, virar o resultado nas eleições de amanhã, para o senador, virou uma questão de honra. Atingir esse objetivo, segundo Tião Viana, só com a compreensão do povo acreano de que Lula é, acima de tudo, um homem cuja história de vida está profundamente ligada ao Acre. Segundo ele, o Acre tem uma oportunidade única nas mãos que é ter, no governo do Estado, uma figura como o professor Binho Marques e na Presidência da República um homem com a dimensão humana de Lula.

Em meio a uma maratona de entrevistas às emissoras de rádio e televisão do Estado, Tião Viana parou para a seguinte entrevista, ontem à tarde. A seguir, os principais trechos.

Como o senhor avalia esse momento em que a população renova pela terceira vez consecutiva o governo da Frente Popular?

Tião Viana – É um dos mais belos atos de justiça do povo acreano em relação a sua própria historia. Uma história na qual o povo tem aprendido tanto com sofrimento e dificuldade. Imagine o que foi a história de sofrimento do nosso povo no início da colonização do Acre. De cada grupo de 40 migrantes que vinham para cá, 16 morriam no primeiro ano em função da malária, do beri-béri e das febres hemorrágicas. Esse povo foi sobrevivendo e formando as cidades, as áreas de desenvolvimento às margens dos rios, fazendo sua própria historia, traçando seu destino político. Penso que esse povo encontrou um projeto novo de Estado representado pela Frente Popular a partir da candidatura de Jorge Viana ao governo, em 1990, depois prefeito, governador por duas vezes e com essa bancada parlamentar, os prefeitos que assumiram neste conjunto. Isso foi um aprendizado fantástico mútuo entre sociedade e governo e vice-versa.

Onde está a matriz desse projeto, senador?

Tião Viana - Acho que a matriz moral desse projeto veio com o dom Moacir Grechi, nosso ex-bispo, veio do movimento social, com o movimento rural, com o Chico Mendes. Veio de pessoas tão queridas e importantes que no passado nos legaram exemplos na política tradicional em que, mesmo não tendo a nossa visão de desenvolvimento sustentável que nós temos hoje, nos passou valores de ordem moral e nos permitiu chegar a uma geração moderna, mais aberta e com um senso de democracia mais vivo e mais exigente para si mesmo como resposta à sociedade. Isso gerou essa aprovação e acho que termos um Jorge Viana como líder e símbolo de um processo de afirmação da política pública com credibilidade, fazendo o bem às pessoas, nos deixa muito felizes. Andando lá por Thaumaturgo, Rodrigues Alves, no Jordão, em Santa Rosa, nos locais mais longínquos, é emocionante ter o reconhecimento das pessoas e concluo que é muito bonito ver o que está acontecendo na política do Acre. Aqui, a gente tem a confiança das pessoas na maioria dos políticos e penso que aqui nós podemos dar respostas enquanto agentes públicos de que é possível trabalhar para o bem, para mudar a vida das pessoas. Eu dou um exemplo: logo após ganharmos a eleição, voltamos aos locais por onde passamos pedindo votos e dizer às pessoas: olha, o mais importante na política do Acre hoje é que podemos cumprir com aqueles compromissos assumidos antes da eleição. É a credibilidade aliada ao compromisso com a responsabilidade delegada pela população através do voto na vida institucional. É isso que move a mim, ao Binho, a bancada federal, a estadual, os prefeitos. Acho que esse momento é da consolidação de uma etapa nova da democracia dentro do Brasil. No Acre, as coisas estão dando certo e podem contaminar positivamente outros Estados.

Esse é um momento singular também para o PT no Brasil, não é ?

Tião Viana – É um momento importante, sim, e isso pode ser traduzido com o reconhecimento do Jorge Viana como um quadro dentro do governo do presidente Lula, quando o presidente, nas horas difíceis, procura ouvi-lo e no qual os ministros de Estado têm também muita atenção e respeito com a nossa presença, com a presença da ministra Marina, a presença de muitos membros da bancada federal, que aonde chegam têm a escuta das autoridades do Estado, dos representantes do Judiciário e dos órgãos de controle do Estado. Eu acho que isso é um debate muito distinto que temos conseguido tudo fruto da responsabilidade de querer fazer sempre as coisas corretas, mesmo que, em alguns momentos, tenhamos cometido alguns erros aqui e ali – afinal, ninguém é perfeito na vida e todo mundo, ao querer fazer o bem, também pode cometer um erro involuntário. Mas eu acho que isso trouxe uma credibilidade muito interessante para a política do Acre e acho que ela vai atingir positivamente setores da vida institucional do Brasil, não tenha duvida. São três etapas de governo aprovadas pela população com a consolidação de políticas corretas num novo cenário que se completará, se Deus quiser, com a reeleição do presidente Lula.

Nessa campanha, o senhor sempre conviveu com números favoráveis, bem ao contrário do governador Binho, que era desconhecido e, num período de três meses, tornou-se uma grande liderança política. Como se deu isso? É a força da Frente Popular?

Tião Viana – Mais que força do projeto, mostra também a grandeza do Binho. Discordo da afirmativa de que o Binho era uma figura desconhecida no Acre. Acho que ele não estava colocado à luz do dia da política. Ele vivia no trabalho técnico, dando a vida dele pela educação do Acre. Foi o homem que fez uma revolução na educação. Aliás, quando eu digo, por onde passo, que só no Acre há a presença da universidade federal em todos os municípios - fruto de uma parceria entre o governo do Estado e o governo federal - e que no Acre se paga o melhor salário de professores, as pessoas ficam impressionadas. Uma professora de Rondônia, no aeroporto de Brasília, outro dia, me falava ter ficado impressionada com uma professora estadual do Acre quando esta lhe falou de seu salário. A professora ficou perplexa porque o salário da nossa professora iniciante é o que ganha, em Rondônia, um professor com pós-graduação. Isso mostra a responsabilidade da atuação do Binho como gestor público junto com o Jorge Viana. Acho que ele soube traduzir a vida dele e o trabalho feito no governo numa imagem positiva num desafio que o Acre mantém no presente e para o futuro. Por isso é que deu certo. Não seria qualquer um que chegaria aonde o Binho chegou. Tem que ter algo mais que a simples presença de um projeto que dá certo.

Aqui no Acre o presidente Lula ganha no segundo turno? Como está a campanha no Estado?

Tião Viana – A campanha vai, dentro do possível, muito bem. Nós tivemos no primeiro turno aquele susto em que o presidente Lula vinha à frente até três dias antes da eleição e de repente houve uma queda fruto dessa maldade e desse egoísmo em que tentam destruir a história de vida dele. Acho que a campanha vai bem porque o povo acreano começou a compreender que o presidente foi o que mais fez por este Estado, o presidente que elevou o salário mínimo a R$ 350, que está confirmando até dezembro 7 milhões de empregos com carteira assinada, que atende 40 milhões de brasileiros que viviam excluídos da proteção social. Por isso, acho que poderemos comparar no tempo da vida republicana brasileira o presidente Lula e Getúlio Vargas. O Getúlio foi o homem que fez o Salário Mínimo e o Lula o que deu o maior aumento da história; Getúlio foi o homem que trouxe a industrialização e Lula foi o que fez a economia do Brasil se acertar definitivamente e que tirou o Brasil do FMI confirmando uma política externa em que nós vamos passar de R$ 134 bilhões de dólares durante este ano. Temos hoje um Brasil que não é mais dependente da política externa dos Estados Unidos ou da União Européia e que tem uma relação solidária com a África, com a Ásia, com o Oriente Médio, com a América Latina e com o Caribe. Então, o Lula é um presidente que reduziu a pobreza duas vezes mais que qualquer país da América Latina e não olhou apenas para a ganância do crescimento. Ele disse: eu quero que o Brasil cresça mas que partilhe sua riqueza. É por isso que o Lula é um presidente fraterno, que soube ser solidário em relação ao povo brasileiro e fez com que o pobre do Brasil levantasse a cabeça e tivesse esperanças em seu futuro.

O que o acreano pode esperar do presidente num provável segundo mandato?

Tião Viana – Pode esperar muito mais do que viveu neste primeiro mandato. Acho que o Acre sente isso quando vir a BR-364 sendo feita, quando vir Assis Brasil consolidando sua economia. Em Assis Brasil, encontrei um comerciante com uma loja de quatro metros por oito que está exportando R$ 30 mil por mês para o Peru. É uma economia de mais de R$ 700 mil por ano numa pequena loja em Assis Brasil. Quando é que no passado a gente poderia imaginar isso numa região que está explodindo em crescimento econômico? É essa relação do Acre com o governo do presidente Lula e sua economia crescente no Brasil que nos permite acreditar cada vez mais no futuro...

Sendo uma pessoa muito próxima do presidente, o senhor poderia dizer como ele encarou esse segundo turno? Ele se abateu por algum instante?

Tião Viana – Não, ele viu que de fato essa foi uma campanha muito dura. Eu acho que a única coisa que abate o presidente é ele ter uma alma e um coração tão grandes. Ele tem uma visão de solidariedade e de querer ver o bem das pessoas e do país e de repente ser vítima de injúria, da calúnia e da difamação. O Lula foi um homem que teve a coragem de pegar as feridas da corrupção e do desvio moral e pedir que elas fossem abertas pela Polícia Federal. Aí entraram pessoas inclusive do nosso lado. Onde tem dinheiro, onde tem poder tem sempre corrupto querendo se aproximar e tirar um pedaço para si. Aquilo que é um bem sagrado para o povo às vezes é desviado para a corrupção. O presidente teve a coragem de dizer: comigo não haverá a idéia de que o poder está livre da corrupção e que, sendo sujeito à corrupção, onde houver denúncias que elas sejam mostradas e punidas. Essa é a diferença do presidente. Por isso, ele sentiu muito as injustiças. Mas ele é um homem que tem tanto amor por este país que não se permite abater. Imagine a cena que a gente viu recentemente: o presidente acolhendo mendigos dentro do Palácio do Planalto para discutir linhas de crédito para os miseráveis. Por isso eu digo que esse presidente é uma nova alma do homem brasileiro. Veja o caso da redução da mortalidade infantil no semi-arido nordestino, que caiu de 56 mortes em cada grupo de 100 crianças para apenas seis casos. É um homem preocupado com a proteção social das pessoas pobres. É esse homem que está dirigindo este país com essa força de solidariedade que está chegando também ao Acre. É por isso que a população acreana começa a entender a dimensão do presidente Lula e por isso deve reelegê-lo para continuar esta administração tão bonita como foi a de Jorge Viana e como será a do Binho.

O segundo turno o legitima?

Tião Viana – Acho que, com o segundo turno, o presidente vai ter a oportunidade de mostrar à política brasileira, que nem sempre está antenada com a sociedade brasileira, que as organizações populares, que o movimento social está ao lado dele. É o movimento social que dá a garantia da governabilidade a qualquer presidente. Esse movimento está ao lado do presidente Lula. A oposição vai ter que compreender isso e se preparar para dialogar de maneira mais racional, com menos ódio e com menos ressentimento e com menor tentativa de destruição da honra de um homem e de um governo que só quer ajudar o Brasil. É essa é a diferença que o Acre vai entender no segundo turno. Para nós, o fundamental é que o povo acreano compreenda a união. Se já temos o Binho governador, o nosso mandato, a maioria da bancada federal, o governador Jorge Viana prestes a exercer um cargo importante em Brasília, se já temos a ministra Marina, a bancada estadual, os prefeitos, os vereadores, por que a gente não pode ter o Acre agora dando esse belo exemplo de reconhecimento e de gratidão ao presidente da República? Tenho esperança de que sim. Por onde passo ouço as pessoas dizendo que vão votar no Lula porque comprenderam que o presidente foi vítima de uma maldade. Além disso, o Binho ganhou às eleições para o governo. Tenho esperança de que o Acre vai estender sua mão amiga e expressar sua confiança na gestão do presidente Lula com o nosso futuro e o nosso desenvolvimento num Acre, onde os municípios tenham vida própria e independência econômica e social.

 

 
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Rio Branco-AC, 28 de outubro de 2006
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