OPINIÃO
   CRÔNICA

José Cláudio Mota Porfiro *

 

Lágrimas de América

Caminhei por trilhas íngremes. Percorri vales e sonhos sombrios, antes e depois de pôr-se a lua do hemisfério sul. Andei às idas e vindas exposto ao sol abrasador destes tristes trópicos. Estive envolto pelo pó da roupa de um tempo velho de muitas guerras perdidas e tão poucas ganhas. Vi-me em meio a um turbilhão de duelos dantescos e dados falsos e fatos históricos sempre esdrúxulos, nunca dignificantes. É que as massas de espoliados não se rebelam. Muito pelo contrário, ainda colocam seus parcos interesses sob a apreciação das lideranças mais bizarras destes quintais de Sul América.

Sim! Este é um grito remoto demais. Realmente não basta o exemplo horrendo e a desdita da mãe África corroída pelas guerras seculares entre irmãos negros que se engalfinham, apenas pelo fato de uns narizes serem um pouco arredondados e alguns pés serem ligeiramente esparramados. Ó Deus!... E, lá fora, a sede de sangue dos capitalistas fomenta, sob risos e galhofa, a carnificina que lhes rende dólares aos bilhões... As doenças ceifam vidas de tão poucos sonhos porque, desde tempos imemoriais, à significativa maior parte dos africanos sequer é dado sonhar. É o eterno infortúnio cantado entre nós desde Castro Alves, o poeta dos escravos.

Quanta miséria se estende pelas planícies e montanhas das Américas Central e do Sul. Porto Príncipe, Tegucigalpa, San Salvador, Belize, Manágua, Lapaz e algumas outras estão enterradas no pântano da violência e da impunidade. Os guetos regurgitam de ódio e imundície. O valor da vida já não existe. Mata-se a troco de nada.

E assim também fazem as nações maiores. Assassinam as minorias e emprestam o exemplo trágico segundo o qual o mais forte será sempre o menos fraco. Em terra de caolho quem tem dois olhos é herói... E assim caminha aquela parte da humanidade esquecida de Deus... E a juventude destas nações - conceito de grupos humanos - hiberna incrédula à espera do dia em que os grandes leões do norte lhes ofereçam um naco de carne com o que poderão aplacar um pouco da fome secular.

E quantos poderosos ficaram estarrecidos com a gravidade das palavras do chileno Neruda quando, em 1947, escreveu o poema “A nata”:

“Grotescos, aristocratas falsos da nossa América, mamíferos recém apodrecidos, jovens estéreis, burricos sisudos, fazendeiros malignos, heróis da bebedeira no clube, salteadores de banco e de bolsa, falsos elegantes, grã-finos, metidos a besta, ataviados tigres de embaixada, pálidas meninas principais, flores carnívoras, ervas das cavernas perfumadas, trepadeiras chupadoras de sangue, esterco e suor, cipós estranguladores, cadeias de jibóias feudais. Enquanto tremiam os prados com o galope de Bolívar, ou de O’Higgins (soldados pobres, povo açoitado, heróis descalços), vós formastes nas fileiras do rei, da poça clerical, da traição às bandeiras...”

E jorra a verdade mais plena pela pena de intelectuais aniquilados em becos escuros por não compartilharem da insanidade que ainda hoje aniquila tantas nações de tantos homens e mulheres. Houve perseguição, sim, contra Neruda. Eduardo Frey foi barbaramente assassinado pela polícia política de Pinochet... Quase toda uma nação de gente inteligente e trabalhadora - o Chile - foi dizimada. Uma grande pena!

E os poderosos dão-se ainda ao esquecimento de que, segundo o poeta Horacio Guarany, uruguaio,

“Se se cala o cantor, cala-se a vida porque a vida é mesmo toda um canto. Se se cala o cantor, morre de espanto a esperança, (...) Afirmo, senhor ministro, que a verdade está morta. Hoje em dia, se jura em falso por puro gosto e nada mais. Enganam inocentes sem nenhuma necessidade e me falam de liberdade.”

Brutalizados, atônitos, bestificados, elegem o primeiro líder iconoclasta que lhes aparece à frente. E os exemplos crassos não faltam, desde Morales, el cocalero, a Sánchez, de Bermudez a Somosa. E os cidadãos comuns não sabem porque os fizeram esquecer que os falsos líderes de ontem é que inspiraram os populistas de hoje que não buscam remédios para os males sociais que assolam desde Yucatã à Patagônia.

Ora, irmãos! Que exemplo podemos tirar da Argentina, assolada desde mais de um século pela corrupção e pelo escárnio de falsos líderes que lhe jogaram numa falência econômica e social jamais sequer pensada. Por isto, conforme Violeta Parra, “Faz falta um guerrilheiro”:

De niño le enseñaría
Lo que se tiene que hacer
Cuando nos venden la pátria
Como se fuera alfiler;
Quiero um hijo guerrillero
Que la sepa defender

Repito e vuelvo a decir,
Cogollito de romero,
Perros cobardes mataron
A traición al guerrillero,
Pero non podrán matarlo
Jamás em mi pensamiento.

Violeta é chilena e este é o Chile dos vinhedos por entre os quais tanto sangue escorreu a mando de um carrasco da modernidade com ares de nazista tardio.

E o que dizem os maiores, os que estão lá em cima, Estados Unidos e Canadá? Ora, é salutar, para eles, que estes quintais da América Latina definhem ideologicamente ao ponto de, quem sabe, um dia, tornarem-se protetorados americanos como fez a Inglaterra com a Índia de Gandhi e Indira.

E o Brasil, que hoje parece querer respirar, ainda não passa de uma colônia de Tio Sam. Os avanços sociais existem, mas são aqueles permitidos por eles. Senão, é só observar o exemplo da educação brasileiras. O FMI e o Banco Mundial cobram, hoje, tão somente, dados quantitativos dos gerentes do nosso MEC. E estes, felizes, alardeiam que porcentagens altamente significativas de crianças estão sendo alfabetizadas, que os nossos adolescentes estão concluindo o ensino médio em grande número. Ora, senhores, a verdade é que as crianças não sabem ler, os adolescentes não sabem pensar e os universitários estão impedidos de subir aos patamares do verdadeiro conhecimento científico que lhes iluminaria os caminhos na busca da verdadeira liberdade...

Ora, irmãos! Os donos das Américas não tomariam medidas erradas. Se agissem de forma diferente, estariam eles financiando pobres pretos e brancos que hoje ainda não sabem a verdadeira raiz do mal e ainda não aprenderam a reivindicar, como os poetas que choram estas lágrimas de América.

 

 
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Rio Branco-AC, 28 de outubro de 2007
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