OPINIÃO
   CRÔNICA

Stella Galvão

 

Um cego amor

Conheceram-se por meio de um desses sites de relacionamento. Ela adorou a identidade dele no meio virtual – gentilmancebo – uma coisa assim meio fora de época mas tão bem-vinda. É de um desses que eu preciso, pensou, e despachou um e-mail todo receptivo e cheio de frufrus. Ele respondeu no mesmo dia, e tão longamente que ela ficou encantada. O homem simplesmente era dado a longas cartas, dessas que muda a página e não se acaba. Falava dele, da vida acadêmica (tratava-se de um físico, mestre em ciência da computação), das múltiplas atividades, do gosto dele por toda forma de arte, e do desejo de amar meticulosamente uma mulher. Quem sabe ela não tinha aparecido sob encomenda para aquele projeto?

No dia seguinte à primeira troca de missivas, já conheciam até mesmo as preferências de cada um em matéria de dentifrícios , se preferiam a noite ou o dia, se a chuva os tornava melancólicos ou não, como gostavam do café expresso e muitos eteceteras mais. Ele pediu o telefone da moça e discava amiúde. Sim, porque estavam em cidades distantes, separados por dois estados da federação. No terceiro dia de frenética correspondência, ela pediu a ele que enviasse uma foto porque não cabia mais em si de curiosidade. Ele consentiu e enviou duas, cuidando de descrever os lugares: um mirante em Salvador e uma ocasião social, de paletó e gravata.

Foi com uma expectativa exacerbada que a moça abriu aqueles arquivos para quase desfalecer com a revelação. Em seguida, ainda titubeante e mal enxergando o teclado, escreveu: “Você parece ter tudo que sempre aspirei num homem, menos dois olhos para se perder dentro dos meus”. Ele pediu a ela que se descrevesse na foto enviada e emendou: “há várias maneiras de um homem perder-se em uma muher e vice-versa”. Ela adorou ler aquilo, sugestivo de um encontro feito de descobertas sensórias, especialmente depois que ele anunciou um modo muito próprio de reconhecer se uma mulher lhe dizia algo, fisicamente falando: pela voz, o toque, o cheiro da pele e dos cabelos, talvez uma expressão salivar. Fantasiosa, deixou-se guiar pelo mancebo cego, e passaram-se exatos três semanas de puro transporte e mútuo encanto.

Ele fazia planos de mudar-se para a cidade dela de bengala e cuia, ela já ansiando e imaginando os deslocamentos dos dois pelo passeio público, os muitos jogos íntimos de encontrar o que não estivesse ao alcance, a perspectiva de brincar de cabra cega sem disfarces.. Tudo caminhava em clima de amorzinho, com ele tendo anunciado o desembarque iminente na cidade dela. Então, dois dias depois do telefone silenciar, ele escreveu que tudo havia acontecido rápido demais, que a vida dos dois estava estruturada em suas respectivas cidades, que não sabia se havia esperança de terem algo juntos. Perplexa com a fé cega que nutrira até então, ela escreveu em resposta: “Eu não tenho mesmo vocação para guia mas, pensando bem, até que foi divertido”. Nunca mais se viram, nem falaram.

 

 

 
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Rio Branco-AC, 28 de outubro de 2007
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