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Exemplo de superação Jovem que perdeu braço por erro médico torna-se campeão de artes marciais |
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Quando alguém, um dia, se detiver a escrever uma historia ou um tratado sobre superação, vai ter que, necessariamente, dedicar um capítulo inteiro a Jameton Alves de Lima. Do contrário, ou o historiador estará mentindo ou a historia não estará completa. Quatro irmãs, morador da periferia de Rio Branco, filho de pais separados, sua história de sofrimento seria apenas mais uma em meio a milhões de histórias caso ele próprio não tivesse pego o destino à mão para escapar das armadilhas e trapaças que a vida lhe reservava: apesar de ter sofrido o drama de ter o braço direito amputado quando tinha apenas nove anos de idade, hoje, aos 23, é cinco vezes campeão estadual de Kung Fu, campeão brasileiro em sua categoria e se prepara todos os dias à espera de uma oportunidade para disputar um campeonato mundial. O Kung Fu é um sistema de luta desenvolvido na China, com práticas de estilos surgidos a partir da observação dos métodos de defesa dos animais e de outras metodologias, cuja origem nem seus praticantes e estudiosos sabem ao certo quando surgiu. Sua história, datada de pelo menos quatro mil anos, é cheia de muitas lendas e ciladas que tornam praticamente impossível qualquer tentativa séria de transmitir uma história compreensiva e puramente factual. Lendas à parte, é uma arte marcial que exige muito do praticante, principalmente quando o atleta é deficiente. “Já ouvi muitas histórias de lutadores que têm um braço só, mas nunca vi nenhum atuando. Acho que, no Brasil, sou só eu. Tanto é que, quando cheguei a São Paulo, em 2000, para participar de um campeonato brasileiro, o pessoal da federação não queria me deixar participar porque os atletas se recusavam a competir comigo”, diz Jametom sorrindo francamente e mostrando que preconceito é uma coisa que ele também sabe tirar de letra. “Só lutei porque o pessoal da liga acreana de Kung Fu conseguiu convencer o pessoal de São Paulo de que, se eu estava ali, era porque era capaz.” O atleta que o enfrentou em São Paulo, conta Jameton, entrou no ringue totalmente confiante de que venceria. “Ele, quando me viu com um braço só, e logo o esquerdo, chegou a rir. Mas quando o juiz apitou, ele viu a coisa preta para o lado dele. Venci. A segunda luta venci por nocaute e aí já me sagrei campeão brasileiro”, disse. Jametom perdeu o braço quando tinha nove anos de idade, numa brincadeira de criança. Caiu, sofreu fratura exposta mas, no hospital, foi vítima de erro médico e teve o braço amputado. Sua primeira batalha não foi exatamente para superar a perda do membro. Foi para convencer as autoridades de que seu caso havia sido imperícia médica e não azar. Ganhou na Justiça, depois de muita luta, uma causa contra o Estado estimada em R$ 50 mil. Agora, ele mais uma vez luta para receber, já que a condenação judicial foi transformada em precatório - o processo formado após a sentença ter transitado em julgado à espera de liberação dos recursos do orçamento relativo à condenação. “Sei que o dinheiro não vai me devolver o braço ou me fazer rico. Mas vai fazer justiça, mostrando que aquele médico errou”, diz, resignado. Resignação é, ao que tudo indica, a outra palavra com a qual o atleta mais aprendeu a viver. “Quando era criança não me dei conta de que tinha sofrido uma perda irreparável, violenta. Comecei a sofrer as dificuldades com 15 ou 16 anos. Queria estudar, trabalhar, sobreviver normalmente, mas havia a dificuldade da superação física. Eu não era normal, igual aos meus colegas”, contou. Mas, mesmo assim, resolveu freqüentar uma academia de Kung Fu do professor Glenilson Araújo Figueiredo, mais conhecido como Nil, um de seus mestres. “Eu via o professor lá treinando, fazendo combate, e pensava: tenho que me superar tanto como ser humano e como atleta. No Kung Fu, você começa a participar e começa a se descobrir, a ver quem de fato você é, a descobrir a verdadeira força que você tem dentro de si. Com a falta de um braço percebi que havia de superar isso também. E decidi mostrar que tinha capacidade de me superar a cada dia”, diz. Jametom treinava muito mais que os outros candidatos a atletas. Sua superação começava desde a hora em que tinha que pôr a indumentária de treinamento, quando tem que colocar a faixa com a cor correspondente à categoria do atleta em volta da cintura. “Todo mundo queria me ajudar a colocar a faixa porque eu só tinha uma mão. Sempre recusei. Aprendi a colocá-la sozinho e faço isso até hoje. Também nunca precisei de ajuda para tomar banho, para me vestir, para calçar sapatos”, diz, enquanto se baixa para amarrar, com laço e tudo, o cadarço do tênis. O atleta diz que, a princípio, sentiu muitas dificuldades. “Mas percebi que poderia criar as habilidades com um braço só, recebendo treinamento específico, e daí fui começando a participar de campeonatos e a ganhar competições. No começo, tinha o preconceito. Hoje sou bastante respeitado devido ao tanto de campeonato que ganhei. Sou cinco vezes campeão acreano, campeão e vice-campeão brasileiro, campeão do mundialito, duas vezes campeão do interestadual em Curitiba. Em primeiro lugar, tenho 15 títulos e em segundo lugar, dois”, disse Ele não pensa em parar tão cedo. “Penso em parar quando chegar a campeão mundial. Um sonho que depende de muito treino e patrocínio também porque os campeonatos são promovidos na China, Estados Unidos, mas vou me preparar para chegar lá”, diz. “E sei que consigo porque ainda não achei o que eu não possa fazer por falta deste braço.” Jametom tem um conselho para quem, como ele, enfrentou e enfrenta dificuldades: “Primeiramente, a pessoa tem que aceitar a condição em que ele está, física e piscologicamente, e tentar superar isso. Eu sempre pensava: perdi um abraço mas ainda tenho duas pernas e um braço. Se alguém se achar um coitado, um inútil, vai morrer mais cedo ou vai ser mesmo um coitado. Acho que sempre vai haver algo que a gente pode fazer, inclusive até melhor do que aqueles que têm todos os membros”, disse. O atleta tem um ídolo na política: o senador Tião Viana, presidente interino do Senado. “Não nego que ele me inspira. Sua forma de tratar as pessoas, sua capacidade de dedicação às coisas do país e a seriedade com que se comporta na política. Além disso, ele é também um parceiro do Kung Fu e sempre ajuda a todos nós atletas quando precisamos”, diz. |
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