| OPINIÃO | ||
| MIOLO DE POTE | ||
Marcos Vinícius Neves |
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A curva inexistível ! Todo mundo sabe que não se deve curvar o que é por natureza reto, assim como não devemos tentar tornar reto o que é essencialmente curvo. Esta é uma estranha história sobre o que acontece quando pretendemos modificar essa lei básica da vida...
Saindo da Villa Rio Branco, no tempo das chuvas, era preciso andar o dia inteiro pra passar do Seringal Itucumã (onde hoje é a Vila Acre) por um varadouro com intenção de estrada e que afundava (derretia) sob os pés de homens e animais. E foi mais ou menos nesse ponto do caminho que uma grande castanheira chamou a atenção de dois irmãos (um menino e uma menina). Os dois moravam ali próximo e estavam acostumados a passar por esse lugar, mas naquele dia meio cinzento alguma coisa chamou a atenção dos dois ao mesmo tempo pro alto da grande castanheira. No principio parecia haver uma estranha névoa na copa da castanheira. Alguma distorção no ar em torno dos galhos grandes e espalhados da castanheira. Firmando mais os olhos a menina percebeu que não era fumaça, mas uma luz indefinida o que via entre as folhas verdes e altas. Ao mesmo tempo o frio na barriga fez o menino amarelar. A luz descia na direção dos dois e não era por falta de medo que não saiam correndo dali. Nem era curiosidade, sentiam uma enorme necessidade de esperar e ver de perto a luz que se aproximava devagar. E foi assim, completamente assustados e confusos, que as crianças viram a luz tomar a forma de uma mulher. Uma doce mulher que falava diretamente ao coração das crianças. Ela dizia que não deviam ter medo, pois ela só estava ali porque eram bons meninos e gostava deles. Nem a menina nem o menino sentiam mais vontade de correr. Vontade era só de ouvir mais a voz macia da mulher de luz. Quando os meninos chegaram em casa já era noite. Não tinham percebido o tempo passar e aqueles breves momentos, aparentemente tão rápidos, tinham durado a tarde toda e sua mãe devia estar furiosa. Mas é claro que em casa ninguém acreditou na conversa dos dois meninos. Na certa aquilo era desculpa pra alguma aprontação da grossa. Apesar de que uma história estranha como essa é difícil de inventar. A mãe ficou desconfiada com aquela história toda. No dia seguinte lá foram, pai, mãe, tia, cachorro, vizinha, todo mundo ver a tal castanheira com as crianças na frente se sentindo importantes, talvez pela primeira vez na vida. Mas lá chegando ninguém via nada além duma castanheira comum, a não ser uma coisa esquisita que todo mundo sentia, mas ninguém confessava. Talvez com medo dos outros rirem e mangarem. O certo é que um mês depois, já havia ali no pé da castanheira uma pequena capela de madeira. Por algum motivo inexplicável as pessoas tinham passado a ir até aquele lugar pra rezar e sempre que faziam isso se sentiam reconfortadas. Estar ali era bom, trazia paz ao coração, amortecendo as angustias que preenchem nossos dias e isso bastava pra explicar a incondicional devoção de um povo tão temente a Deus. O resultado foi a construção dessa capela da qual todos os moradores do lugar participaram. Agora... Se os meninos voltaram a ver a mulher da luz, ou se tornaram a falar com ela, eu não sei. Só sei que essa capela ali existiu há muito tempo atrás. Hoje não existe mais. Como também não existe mais a tal castanheira. Mas me contaram que era ali, bem depois da curva do Tucumã, do lado esquerdo de quem vai... (2ª Parte) Contam que a construção da estrada que leva de Rio Branco até a vila Plácido, passando pelo Quinari, foi uma verdadeira obra de Titãs. As dificuldades eram imensas. Abater árvores gigantescas que se erguiam no caminho até que não era nada se comparado ao trabalho insano de destocar as raízes dessas mesmas árvores depois de derrubadas. Mas mesmo contando apenas com xibancas e enxadecos contra as imensas raízes amazônicas, os homens eram valentes e avançavam. Só que bastava chover pra parar tudo. Depois vinha o trabalho de terraplanar o chão da estrada à custa de pesados malhos de madeira e muito suor. Mas eram homens fortes. É possível perceber isso nas fotos em preto e branco, já amareladas, que milagrosamente sobreviveram à voragem do tempo e à gula dos colecionadores. Homens baixos, altos, atarracados, pretos, brancos, amarelos (de impaludismo, quem sabe), índios, dá pra ver isso tudo no cinza e branco das fotos. Homens fortes que, desolados, viam os caminhões afundarem no chão até a altura da cabine em qualquer chuva pouca. É! Não era fácil não! Isso também está nas fotos. Mesmo assim com a valentia dos homens e a determinação do Dr. Godwasser a estrada seguia avançando no rumo da Vila Plácido de Castro. Muitos verões de um trabalho extremamente pesado, seguidos de mais trabalho ainda pra reconstruir o que já estava pronto e era estragado pelos muitos e inclementes invernos dessa floresta. Ainda assim a estrada avançava e o povo já ficava animado de ver a pequena vila Quinari crescendo e com mais gente acreditando que ali ia ficar muito bom depois que estrada ficasse pronta. Vai mesmo! Mas um problema inesperado atrasou o trabalho naquele verão em que a frente de construção da estrada já ia bem distante de Rio Branco. Um importante senhor, dono daquelas terras bem no meio do caminho, insistia em que a estrada deveria ter uma curva onde era evidente que deveria ser uma reta. E não adiantava todo mundo falar com ele. “Mas não tá vendo que aqui não precisa de curva? É bem melhor tirar uma reta daqui pra acolá e pronto!” Até o Dr. Godwasser e o Prefeito de Rio Branco foram falar com ele, mas não adiantou. O homem estava inflexível. “As terras são minhas e eu digo que ali tem que ter uma curva e pronto! Ou faz a curva ou não tem estrada nas minhas terras.” Pra desespero de todos não houve mesmo jeito de demover o homem. Estava na cara que ele só queria que a estrada fizesse a curva pra passar bem na frente do alambique que ele tinha ali, assim seria mais fácil tirar seu produto pra cidade. Mudar o alambique de lugar nem pensar. Muito melhor fazer uma curva longa onde podia existir uma reta. Mesmo que isso significasse mais centenas de metros de estrada e muitos dias mais de trabalho. Como não tinha outro jeito, foi feita a curva então. Uma curva que fazia a estrada passar quase na porta do alambique e bem perto de uma velha capelinha que os moradores do lugar haviam construído por causa de uma visagem vista por umas crianças naquele local muitos anos antes dessa confusão toda. Mas isso não tinha importância porque quase ninguém ia mais naquela capela mesmo e ela já estava em ruínas. Agora... Se as coisas se passaram exatamente assim, eu não tenho certeza. Foi mais ou menos desse jeito que me contaram. O certo é que toda vez que passo ali na curva do Tucumã - onde já aconteceram tantos acidentes fatais, sobre os quais se contam muitas histórias de uma mulher-visagem que assombra os motoristas dos carros provocando os acidentes - eu não consigo evitar o pensamento de que seria bem melhor se ali houvesse uma reta ao invés de uma curva. Mas sobre essas outras histórias da mulher da curva do Tucumã eu não vou contar porque o Silvio Margarido está realizando um vídeo sobre ela e prefiro esperar por sua sagacidade e fina ironia (se é que isso é possível num caso como este). Entretanto, não posso deixar de assinalar outra coincidência. Bem próximo dali, logo depois da fatídica curva do Tucumã, está localizada a escola Prof. Rosalina da Silveira (protagonista de outra trágica história ocorrida nos anos 40 e que permanece muito viva na memória de todos os moradores de Rio Branco), do lado direito de quem vai... Obs: Este artigo foi publicado ao longo da semana, em duas partes, no blog “Ensaios Experimentais do Acre Antigo” (memoriacre.blog.uol.com.br). E como lá no blog os ensaios são experimentais, me permiti usar uma palavra que não existe pra dizer o que eu penso sobre essa curva que não deveria existir... mas que, talvez por alguma força irresistível, lá está... |
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