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Arte da sobrevivência Empreendendo por necessidade, diarista descobre nas miniaturas um jeito de viver com dignidade |
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Quando adoeceu e ficou impedido de trabalhar no pesado, o diarista Francisco João da Silva Souza, 30 anos, pai de dois filhos ficou sem condições de manter sua família na cidade de Rodrigues Alves; por isso, decidiu voltar para junto de seus parentes na comunidade do antigo seringal Nova Cintra, localizado a 14 quilômetros da cidade, à qual chega por um estreito ramal cheio de fortes ladeiras que os deixa totalmente isolados durante o inverno. Foi aí que ele buscou dentro de sua própria casa um meio de sustentar sua esposa e filhos. Usando apenas uma faca e uma plaina pequena emprestada por seu pai o carpinteiro aposentado Manoel Roque de Souza,79 anos e pai de nove filhos, que Francisco começou a entalhar miniaturas de canoas que foram rapidamente vendidas em sua primeira viagem à cidade onde recebeu novas encomendas. “Precisava fazer alguma coisa para ganhar dinheiro e embora nunca tivesse feito aquele tipo de serviço resolvi enfrentar o desafio porque sei que as pessoas gostam destes objetos para enfeitar a casa. Esperava que gostassem, mas fiquei surpreso com a quantidade de encomendas que trouxe logo na primeira vez que fui à cidade, aquilo me deixou muito animado porque as pediram para fazer também outros tipos de embarcações como batelões e baleeiras de todo tipo”, relata. Assim passou a produzir uma série de diferentes embarcações, sempre trabalhadas a partir de pedaços de cedro que primeiro transforma em tábuas usando uma motossera. Depois, com a pequena plaina de mão, trabalha nela por horas a fio até que fiquem no ponto de ganhar formas de casco, paredes e demais peças que reproduzem as embarcações com toda sua fidelidade. Durante os últimos dez dias, Francisco vêm trabalhando em seu projeto mais ousado. Sem uma foto ou desenho está reproduzindo em proporções exatas a catedral de Nossa Senhora da Glória, verdadeiro cartão postal e símbolo da cidade de Cruzeiro do Sul.
Construída em estilo harmônico característico da arquitetura da região sul da Alemanha,a igreja com suas paredes sextavadas levantadas em tijolo e cobertura característica exigem perícia e exatidão para que consiga dar à miniatura as mesmas proporções e perspectiva da edificação original. Apesar de só contar com uma faca, plaina, régua e caneta, a notícia de sua obra ainda inacabada se espalhou e dada a perfeição de seu trabalho, a obra que poucos viram já gera disputa entre os interessados por ela em Cruzeiro. Tratando-a com esmero quase religioso, ele explicou que: “Um dia me deu vontade de produzir uma cópia da catedral, então fui até Cruzeiro, rodeei toda a construção, depois entrei e fui prestando bem atenção em como tudo era feito. E quando cheguei em casa, primeiro fiz tudo que tem por dentro da catedral, depois o telhado, risquei de caneta cada tijolo da parede e agora só está faltando completar a mureta da varanda do pátio, o resto está pronto”. Quando lá estivemos já era noite e mesmo sem ter ao menos uma lamparina que iluminasse sua oficina improvisada a um canto da casinha de pau a pique coberta de palha, ele trabalhava diligente na urgência de quem precisa terminar a obra para levar à loja do aeroporto de Cruzeiro, um do pontos em que deixa seus trabalhos para serem vendidos. Com simplicidade esclarece os mister de sua arte: “Trabalho sempre com cedro de uma arvore que caiu aqui na comunidade. Gosto mais dela porque a madeira é macia e resistente, obedece bem à ferramenta, é resistente, fica bonita e por causa de ser amarga não é atacada pelos bichos como acontece com o algodoeiro, por exemplo”. A boa aceitação de seus trabalhos e a urgência em produzi-los para a venda é, ao mesmo tempo, uma vantagem e um problema que Francisco precisa resolver. “Sozinho eu não dou conta de atender todos os pedidos que estou recebendo. Por isso já estou ensinando outras pessoas aqui da comunidade a fazer este trabalho porque assim dá pra todo mundo ganhar dinheiro sem ter que derrubar tanta mata pra fazer roçado novo. A gente sempre viveu de fazer farinha e é esse o meio de vida das famílias daqui”. Descoberto pela equipe do projeto comprador do Serviço de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae-Ac) que em dezembro trará representantes de lojas de todo o Brasil interessados em comprar peças de artesãos acreanos, ele começa a receber orientação para que possa participar desta ação, no ano que vêm. “Para facilitar nosso trabalho a gente precisa de serra elétrica, plaina e outras ferramentas mais modernas permitindo que a gente possa fazer peças em maior quantidade. Fiquei sabendo que em Cruzeiro tem algumas máquinas dessa que estão paradas e agora com apoio do Sebrae acredito que nosso trabalho vai trazer mais vantagem para a comunidade de Nova Cintra”, enfatiza. |
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