COTIDIANO

NIXI PAE

Professor escreve o primeiro hinário bilíngüe dos rituais do Santo Daime dos índios kaxinawas, revelando arte e mistérios da floresta

Juracy Xangai
Professor Izaias Sales, o “Ibã”


Juracy Xangai

Há 23 anos, o professor Isaias Sales, o “Ibã”, 42 anos e pai de 12 filhos começou a anotar as histórias contadas pelos pajés e pelos mais velhos de seu povo que vivem na aldeia Chico Curumim dentro da terra indígena do Alto Jordão.

A coleta de contos que a princípio tinha como objetivo guardar as histórias tradicionais para que não se perdessem com a morte dos mais velhos, tornou-se parte do livro Nixi Pae que se constitui no primeiro huni meka (canto do cipó) hinário do povo huni kuin, mais conhecido como Kaxinawas. O livro foi editado com o apoio do governo do Estado através do Instituto de Patrimônio Histórico e da Organização dos Povos Indígenas do Acre (Opiac).

“Meu pai tinha muitos conhecimento das tradições que passou para mim. São contos com nossos cantos rituais do cipó, histórias e mitos que contam as tradições e costumes de nossa gente”. Explica Ibã que depois de concluir o curso do magistério entrou para a formação continuada da Secretaria Estadual de Educação e hoje cursa o sexto período do curso de história na Ufac.

Ibã esclarece que o chá nixi pãé a bebida mais sagrada dos cultos praticados pelos huni kuin. Nele se encerram os encantos e mistérios da jibóia branca, a verdadeira detentora dos conhecimentos que ligam os mundos material e espiritual.

“Tudo começou quando o homem Iubu Inun se casou com a mulher Iubu Xanun com a qual vivia feliz até o dia em que ela mostrou para ele o chá do nixi pã. A curiosidade atiçou seu desejo de saber o que acontecia porque ela disse que ele teria o poder de mostrar o passado, o presente e o futuro”.

Ardendo em curiosidade ele bebeu o chá, através dele atravessou o véu que encobre a realidade e descobriu que na verdade avia sido encantado por uma jibóia branca, que era sua esposa, a qual o levara para viver com ela no fundo de um grande lago junto com os sogros que também eram cobras. “Percebendo o que estava acontecendo, o sogro cantou o hino Iuxu Iká e a miração foi embora, mas a essa altura, o marido Iubu Inun já havia descoberto que na verdade tornara-se prisioneiro de uma mágica família de serpentes”.

Ainda vivendo sob o mundo encantado das águas, conheceu no dia seguinte o peixe Ixkí que estava por ali de passeio e ao ouvir suas queixas deu lhe um empurrão que o jogou para fora do véu devolvendo o homem para o mundo material. “Ele veio trazendo o conhecimento dos encantos do cipó. Assim ensinou para o povo huni kuin os mistérios do nixi pã (cipó forte ou cipó poderoso) agora traduzido no livro como huni pae (homem forte) numa analogia à resistência de Iubu aos encantos da serpente e na descoberta dos seus mistérios”.

Hinário didático

Escrito em huni kuin e português, o livro Nixi Pae está sendo vendido nas instituições indígenas de Rio branco e sendo levado às escolas do povo huni kuin com objetivo de ajudar as crianças a entender melhor a cultura tradicional de seu povo. “Agora podemos ensinar com mais facilidade as festas e rituais do cipós para as nossas crianças. Nele, além da letra dos hinos e muitas histórias, também estão sendo ensinadas quais são os tipos de folha e quais são os cipós que servem para fazer o nixi pã e também as pinturas rituais de kenês iubu katê para serem usados nessas ocasiões. Logo vamos revelar nossa pesquisa sobre a medicina tradicional”.

Em resumo, a religião huni kuin cultua um deus principal, Iã que vivia no caos e ao se mexer deu origem a Ewá Iuxibu (mãe de todos) criadora de todas as criaturas vivas. Junto com ela surgiu Iubu Bê, que governa o reino espiritual dos que vivem na terra. O homem roubou os encantos da serpente e, com isso, construiu uma ponte que lhe permite transitar pelo mundo espiritual em busca de ensinamentos que ajudam os homens a viver melhor.

Redescobrindo caminhos

Ibã lembra que a partir de sua alfabetização aflorou também o interesse em conhecer mais a cultura de seu povo e os ensinamentos tradicionais. “Nesta caminhada, eu e os outros aprendemos muito sobre nós mesmos, nossa identidade e o nosso povo. Respeitando as regras de nossa religião tradicional nos afastamos das bebidas alcoólicas. Respeitando costumes preparativos para os rituais lavamos a cabeça antes de comer edepois de ter bebido o chá”.

Embalados pela cadência do tambor e a suavidade da flauta, o uso ritualístico do nixi pã trouxe renovou os conceitos e o orgulho de ser do povo huni kuin. “Com o cipó as pessoas ficam mais concentradas e abertas para aprender os ensinamentos que vai nas palavras da cantoria. Encontram dentro deles uma nova animação e o desejo de conhecer mais a língua, os diferentes ritmos. Nesses caminhos espirituais aprendem o mistério da cura das doenças além de conhecer os segredos do passado, presente e futuro”.

 

 
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Rio Branco-AC, 28 de dezembro de 2006
   GIRO GERAL
Com Moisés Alencastro
   NA TRIBO
Com Roberta Lima
   PORONGA
Da Redação
 
 
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