OPINIÃO
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Sandra Starling *

 

Andrew Jackson e Lula

Terminei, há pouco, a leitura do excelente ensaio de Richard Holstadter sobre a presidência de Andrew Jackson nos EUA (1828-1836). O texto pode ser lido em seu clássico “The American Political Tradition And The Men Who Made It” (Nova York: Vintage Books, 1989).

Lembrei-me, prontamente, do paralelo feito por Hindemburgo Pereira Diniz, em 2002, entre as eleições de Jackson e de Lula. Diniz buscava afastar os receios de nossas elites, recordando o precedente norte-americano. De fato, ambos podem ser considerados “outsiders” que romperam os círculos e tradições elitistas de seus respectivos sistemas políticos. Jackson quebrou a hegemonia da burguesia dos Estados do Leste, enquanto Lula reitera, sempre que pode, que é o primeiro a afastar do poder central os que sempre mandaram neste País “nos últimos quinhentos anos”.

Jackson gostava de cultivar a imagem de homem do povo, o corajoso “countryman” dos recônditos do Tennessee, embora fosse um bem sucedido advogado, nascido em família de posses na Carolina do Norte. Sua fama cresceu ao comandar uma milícia que derrotou os ingleses no famoso cerco de Nova Orleans, na Guerra de 1812. Lula também busca destacar suas origens populares. Igualmente ficou famoso por sua coragem, ao enfrentar a ditadura militar, a partir de 1979. Embora lhe faltem os predicados que favoreceram a carreira de Jackson, tem outros que só ampliaram sua legitimação carismática.

Motivada pelo reconhecimento de identidades a que Diniz se reportara, resolvi comparar os programas de ambos. O mais interessante foi ver que a plataforma anunciada por Lula em 2002 parecia ser uma adaptação do “New Deal”, de Franklin Delano Roosevelt. E a associação entre Roosevelt e Jackson costuma ser imediata, especialmente entre os militantes do Partido Democrata norte-americano.

Mas quem tem a oportunidade de ler as páginas de Hofstadter observa o quanto é falsa essa associação. Jackson viabilizou a ascensão do capitalismo liberal, desafiando a cultura de outorgas estatais para as inúmeras atividades que, por concessões, permissões e autorizações, se tornaram privilegiados monopólios privados, a começar pelo sistema financeiro. Seu mote: a concorrência é virtuosa; o Estado deve estimular a concorrência.

Roosevelt, por seu turno, em que pesem suas origens burguesas, ousou enfrentar os monopólios com o remédio oposto ao de Jackson, ampliando a intervenção estatal no domínio econômico.

Ambos, aos seus modos, cativaram multidões.

Para além das aparências, resta o enigma. Ao iniciar o seu segundo governo, Lula buscará inspiração em Jackson ou em Roosevelt? Terá ousadia o suficiente para desbancar setores altamente oligopolizados de nossa economia? Apenas para exemplificar, não custa lembrar que a crise que se abateu, na aviação civil, às vésperas do Natal, nada mais foi do que o sintoma da falta de concorrência no setor. No sentido oposto, o que pensa, a rigor, sobre a intervenção do Estado no domínio econômico? Em outras palavras, até que ponto será necessária a presença do governo na economia para destravar as amarrras do desenvolvimento? Infelizmente, iniciaremos o novo período de governo lulista sem que estejam claras essas orientações.

Roosevelt ou Jackson?

Melhor seria que o seu receituário combinasse, com sabedoria, as boas idéias desses dois grandes presidentes norte-americanos.

* Ex-deputada federal

 

 
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Rio Branco-AC, 28 de dezembro de 2006
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