| OPINIÃO | ||
| OPINIÃO | ||
Tião Maia * |
||
O que um certo religioso me ensinou: a capacidade da indignação
E Deus então apareceu para o monge desesperado e disse, calmamente: “Eu já fiz, meu filho”. E o monge, cada vez mais exasperado, pergunta: “Fez o quê, Senhor?”. E Deus, definitivo: “Eu já fiz você!”. A parábola eu ouvi em 2002, durante uma palestra do dominicano Carlos Alerto Libânio Cristo, o Frei Betto, um dos grandes pensadores da atual Igreja Católica e autor de diversas obras literárias das quais a que me é mais marcante é “Batismo de Sangue”, que conta o martírio dos religiosos dominicanos após a morte (um dos muitos assassinatos do bandido/policial Sérgio Fleury, segundo “Autópsia do Medo”, também outra grande obra, esta do jornalista de Percival de Souza) de Carlos Marighela. Frei Betto veio ao Acre ao convite do governador Jorge Viana para uma palestra destinada a estudantes, professores, padres, freiras, militantes políticos e personalidades democráticas de vários matizes ideológicas, no anfiteatro da Universidade Federal do Acre (Ufac). Ainda hoje penso que aquela palestra teria que ser mais bem divulgada, o que tento fazer agora, neste artigo. Ali, um sempre lúcido Frei Betto defendeu a geração de empregos e criticou duramente a globalização, que chamou de “globocolonização”, porque, segundo ele, o fenômeno da globalização não é diferente do sistema colonial, quando as nações mais poderosas saqueavam os povos e nações de regiões empobrecidas. Além disso, a globalização é a principal causa da fome e do desemprego em todo o mundo. O desemprego é um problema moral porque fere a dignidade humana, disse ele. O principal problema da globalização é que o neoliberalismo transformou o planeta num único mercado especulativo, que não dá importância aos setores produtivos. “A humanidade está dividida pelo neoliberalismo entre os que têm acesso ao mercado e os que não têm”, definiu. Outro problema não menos grave, segundo o religioso, é que a submissão dos governos aos interesses do capital internacional resulta no aumento da exclusão social e no que ele qualificou de “privatização de nossos valores subjetivos”. Por isso, “estamos ficando menos solidários, menos participativos”. Para o religioso, é inconcebível que os países desenvolvidos tenham criado tecnologias capazes de matar a humanidade 36 vezes e não tenham criado meios para resolver o problema de apenas uma geração, que é a fome. Apenas 20% da população dos Estados Unidos, do Canadá e de alguns países da Europa consomem 80% do que é produzido no mundo. Isso é injusto, denunciou. Outra denúncia: a fome mata muito mais que a Aids em todo o mundo, mas a ONU (Organização das Nações Unidas) prefere fazer uma conferência mundial sobre a Aids. A prioridade de combate à Aids e não à fome é perversa porque a Aids não faz distinção de classes. A fome só mata aos mais pobres, aqueles que, nessa ótica perversa, não deram sorte na loteria da vida, acusou. E o que isso tem a ver com a parábola com a qual começo o presente texto? Tudo, simplesmente tudo. Ao recorrer à parábola, o Frei certamente quis dizer que não adianta só esperar por Deus e que, mesmo em tempos de globalização, cada um de nós, cristão ou não, tem que fazer sua parte, de forma ética e, sobretudo, com senso de Justiça. Justiça é a razão da espiritualidade cristã, definiu o religioso. Nesta última frase surge uma crítica acida aos religiosos que impedem a Igreja de debater a cidadania e nada faz para barrar a estratégia consumista que atinge, prioritariamente, as crianças. Aos críticos da politização da Igreja, o frei foi incisivo: “Pregação evangélica que não fale dos pobres não há como dizer que é Evangelho”. E acrescentou: “O bispo sul-africano Desmond Tuto disse que não há nada mais político do que dizer não a política na religião”. Não por acaso, Desmond Tuto foi prêmio Nobel da Paz por sua luta contra o apartheid na África do Sul, ao lado de Nelson Mandela, em 1984. A união do cidadão em torno de associações, de sindicatos, de partidos políticos que priorizem a construção da cidadania é uma forma de resistência a esse processo econômico que insiste em transformar o ser humano cada vez mais em consumidor. “Enquanto nós queremos transformar o homem em cidadão, a globalização quer transformá-lo em consumidor”, disse. A máxima de Descarte (“Penso, logo existo”), a cada dia que passa transforma-se em algo perigoso. “Agora, o paradigma é seguinte: compro, logo existo”, afirmou. A estratégia consumista, para o religioso, passa, primeiramente, pela erotização precoce das crianças. Quanto mais uma criança presta atenção em seu corpo, mais ela passa a copiar os adultos e torna-se cada vez mais num consumista quase autômato. “Hoje não tenho idéia da marca do tênis que usava na minha infância. Mas hoje qualquer criança sabe um sem número de grifes. Isso porque a criança de hoje é um grande mercado. A criança não tem discernimento de valores e acaba por convencer os pais ou responsáveis, na base da chateação, a comprar aquilo que a propaganda lhes impingiu”, disse. “O neoliberalismo está matando a fantasia das nossas crianças.” Para combater essa estratégia, o frei aconselhou que os pais e responsáveis invistam pesado na educação, inclusive religiosa. “Não há neutralidade em ética ou em valores. Ou você educa [o filho] ou a Xuxa [sim, ela mesmo, a “rainha” dos baixinhos] educa”, afirmou. A educação, segundo Frei Betto, precisa ser mais abrangente do que o modelo atual. A educação atual não fala, por exemplo, de fracasso, de sexualidade, de morte e de espiritualidade. “Assim, em termos de educação, a sociedade e a família estão num mato sem cachorro e com muita televisão”, disse. “O que fazer? Educar o filho para a TV em 15 minutos detonar tudo?”. E concordo que os defensores da despolitização da Igreja nos ensinar que Jesus Cristo foi sacrificado exclusivamente porque dizia ser filho de Deus. A verdade é que Jesus morreu como prisioneiro político sob dois processos do Império Romano. “Por que ele não foi aplaudido pelos poderosos de sua época? Porque seu discurso incomodava os poderosos de então”, lembra Frei Betto. Portanto, são também os poderosos dos dias atuais que insistem numa Igreja arcaica, que não lutam por cidadania. A despolitização da sociedade é a estratégia do sistema. Quem tem nojo de política, será governado por quem não tem nojo. E se a maioria pensa assim, ótimo para o sistema, porque a maioria será governada, sempre, por uma minoria. “Mas, se você, a cada dia mais se interessar por política, aí aqueles que integram o sistema, aqueles políticos mal intencionados, vão tremer nas bases”, ensinou Frei Betto. A política nos dias atuais, segundo Frei Betto, pode ser feita também de forma religiosa porque Deus nos ensina que a solução está na nossa luta. “Ele nos enviou Jesus para mostrar como é que a gente luta. E nesta luta a gente entra para ser semente”, disse ele. Um exemplo de como a luta deve ocorrer: uma senhora de São Paulo, aos 93 anos, com filhos e netos criados e bem resolvidos financeiramente, alguns inclusive promissores seguidores da cartilha do malufismo, passa o tempo a costurar bandeiras para o MST (Movimento dos Trabalhadores Sem Terra). Uma mulher que já nem sai de casa, mas encontrou uma forma de participar da luta. Resumo da ópera: é preciso se indignar, se revoltar com tudo o que nos ensina ser natural, como, aliás, fez aquele monge do começo da nossa história. Enquanto houver alguém com capacidade de se indignar, penso, a chama da esperança por um mundo melhor estará acesa. Pensemos nisso. Feliz Ano Novo ! Jornalista |
||
|
||
| GIRO GERAL |
| Com Moisés Alencastro |
| NA TRIBO |
| Com Roberta Lima |
| PORONGA |
| Da Redação |
| |