| OPINIÃO | ||
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| Ruy Fabiano * |
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Café sem leite na sucessão A receita dos tucanos paulistas para as eleições de 2010 está pronta – e é engenhosa. Consiste em apoiar este ano a reeleição de Gilberto Kassab para a prefeitura de São Paulo, garantindo os votos do DEM para a dobradinha Geraldo Alckmin (governo) e José Serra (Presidência da República) dois anos depois. Fernando Henrique Cardoso já a chancelou, em recente entrevista ao Estado de S. Paulo, e as conseqüências não tardaram. O governador de Minas, Aécio Neves, presidenciável como Serra e olimpicamente caroneado pela estratégia, passou a sustentar a necessidade de aliança dos tucanos com o PT. Lula deve estar dando boas gargalhadas. Nada melhor que um adversário dividido por lutas internas, que chega previamente enfraquecido para a disputa. Não há, porém, novidades em nada disso. Claro sempre esteve que, em algum momento, as duas lideranças tucanas entrariam em rota de colisão. A entrevista de FHC rompeu uma espécie de trégua, que deveria viger até o ano que vem, resistindo às eleições municipais. Mas não resistiu. Minas e São Paulo representam os dois principais colégios eleitorais do país e protagonizam histórica rivalidade política. Foi o rompimento da aliança São Paulo-Minas, na sucessão de Washington Luiz, nas eleições de 1929, que deu ensejo à Revolução de 1930. A política do café com leite, em que paulistas e mineiros sucediam-se na Presidência da República, buscava acomodar as ambições dos dois principais estados brasileiros. Rompida, pela recusa paulista em ceder a vez a Minas, somente a partir de 1955 aqueles estados voltariam ao poder - primeiro, com a eleição de Juscelino Kubitschek; depois com a de Jânio Quadros (1960). JK governou até o fim, não obstante ter enfrentado logo no início duas tentativas de golpe militar. Jânio renunciou seis meses após a posse, episódio nebuloso que o general Golbery do Couto e Silva, colaborador secundário de seu governo, atribuiu a um porre mal curado (“esqueceram de trancá-lo no banheiro”). De lá para cá, após o hiato dos governos militares (1964-1985), Minas não mais voltou ao poder – ou voltou apenas circunstancialmente, com Itamar Franco, sucedido pelo paulistano (embora carioca de nascença) Fernando Henrique Cardoso. São Paulo, desde então, não mais largou o osso. Lula, pernambucano de origem, mas paulista por adoção e domicílio político-eleitoral, dá continuidade ao reinado do café sem leite. Golbery, a propósito, advertia que, se o poder político voltasse a São Paulo, que já detém o poder econômico, dificilmente de lá sairia. Lula, nesse sentido, exerce papel estratégico magistral: sua naturalidade nordestina faz supor que não joga aquele jogo, o que favorece a consolidação de nova candidatura paulista. A chance efetiva dos mineiros frustrou-se em Tancredo Neves, que ganhou, mas não levou, e teve sua vaga ocupada pelo maranhense José Sarney. Somente agora, com Aécio, neto de Tancredo, Minas dispõe de um nome com chances efetivas de ocupar pelo voto direto a Presidência da República. Aécio fez carreira vertiginosa. De deputado federal a governador reeleito, tem sido sistematicamente avaliado com louvor por seus governados. Nenhum outro como ele recebe aprovação em escala superior a 80%. A ele, atribui-se a reviravolta eleitoral de Lula em Minas, no segundo turno das eleições presidenciais passadas, após um primeiro turno francamente pró-Alckmin. Já ali, queixam-se os tucanos paulistas, começava a sucessão de 2010. É possível. Os argumentos pró-Serra baseiam-se no fato de que lidera desde já as pesquisas, sendo nacionalmente mais conhecido que Aécio. Ora, em 2006 Serra era também mais conhecido que Alckmin, o que não impediu que este saísse candidato, com o apoio de FHC. Seria, acusam os mineiros, já uma jogada do tucanato paulista para preservar Serra, tendo em vista que, segundo as pesquisas, Lula seria naquele momento (como foi) imbatível. Alckmin teria sido então o que se chama de boi de piranha. Nesse jogo de queixas, Aécio põe as barbas de molho. Vai defender prévias partidárias – e, nesse sentido, tem o apoio de outro pré-presidenciável, o senador Arthur Virgílio, cuja pré-candidatura está sendo vista como peça do tabuleiro de xadrez de Aécio. Virgílio, pertencendo a um colegiado modesto - o Amazonas, cujo universo eleitoral não deve ser muito superior ao de um bairro paulistano como o Bixiga -, sabe que não tem chances efetivas de ser escolhido candidato. Mas sua presença no jogo garante a realização de prévias, o que pode favorecer Aécio. Ele conta com a fadiga das demais bases regionais tucanas em relação à hegemonia paulista. Há outros nomes, embora fora do PSDB, que jogam essa mesma aposta em relação ao eleitorado nacional. É o caso de Ciro Gomes, hoje no PSB, que sonha atrair o apoio de Lula, que daria a seu nome trânsito para além do Nordeste, a que hoje sua popularidade está circunscrita. Todas essas especulações estão em curso na prévia sucessória que começa em outubro deste ano, com as eleições municipais. Nenhuma, no entanto, considera ainda o fator Lula: a quem apoiará ou se apoiará alguém – ou mesmo se acabará pedindo apoio. Não há como desconhecer que a popularidade do presidente excita a imaginação de seus correligionários – e a dele própria – para a hipótese de novo mandato. Seria uma aventura política, mas política tem sido, sobretudo aqui, na América do Sul, aventura – e o que mais há nela são aventureiros, no pior sentido possível. Portanto, a hipótese não pode ser descartada, não obstante os múltiplos obstáculos a serem removidos – entre os quais a crise financeira norte-americana, cujas conseqüências entre nós ainda não foram dimensionadas. Importa, por enquanto, constatar que a sucessão presidencial está deflagrada – e pelo jeito vai ser barulhenta. * Jornalista |
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