OPINIÃO
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Raimundo F. Souza *

 

A bandeira do 57

Entre as muitas anedotas contadas e recontadas sobre o cenário político acreano, ainda merecem destaque as atitudes explícitas que demonstram o comportamento tipicamente interesseiro e bajulador que alguns militantes ainda praticam. Pois esses episódios são testemunho vivo de que nem toda idolatria ou juramento de fidelidade corresponde às aparências de defesa inconteste das cores e filosofia dos partidos.

São comum em época dos pleitos eleitorais as cores, os símbolos, os decalques e as bandeiras das agremiações partidárias ornarem todo o Estado. Depois da contagem dos sufrágios, imediatamente quem perdeu se recolhe - como se diz na linguagem popular, “põe a viola no saco” - e quem vence continua exibindo as propagandas por algumas semanas. Depois vão sumindo, sumindo... E após alguns meses somente os puxa-sacos inveterados e que angariaram alguma recompensa (cargos, facilidades em algum negócio entre outras benesses) continuam evidenciando os símbolos dos partidos vencedores. Por sinal, as mangueiras urbanas ficam torcendo para os partidos dos donos de quintais aos quais elas estão plantadas não saírem vencedores.

A propósito dessa questão, queremos descrever um episódio no mínimo pitoresco de um militante padrão, ou melhor, alguém que poderia com justiça ser rotulado de “petista doente”, ou “petista de carteirinha”, daqueles que enquanto defendiam as cores do seu partido do peito, eram iguais aos torcedores chatos, que encontram defeito em todos os outros times e somente o seu é o melhor, ou seja, era daqueles partidários que faziam qualquer observador de plantão acreditar que ele era de fato um petista roxo.

Mas o tempo, esse senhor da razão para quem sabe esperar, logo, logo mostrou a outra face - por sinal, para um bom observador, nem estava tão oculta, visto que um autêntico correligionário não precisa estar por toda vida comprovando sua preferência.

Quem viajou pela BR-364, de Rio Branco a Porto Velho, quilômetro 57, nesses últimos cinco anos, certamente observou nessa localidade uma bandeira vermelha desfraldada a aproximadamente uns quinze metros de altura na ponta de um grande bambu. Essa simbologia era religiosamente trocada - nunca tive o prazer de observar -, mas possivelmente ao som do hino do Partido dos Trabalhadores, de maneira que não ficasse desbotada com a ação do tempo, pois esse cuidado fazia parte do capricho de seu proprietário.

Relata um dos navegantes da BR-364 que essa bandeira transformou-se em ponto de referência, já que em suas constantes viagens, quando vai acompanhado da netinha Bia, de três a quatro aninhos, ao avistar o símbolo ela anuncia: “Está chegando, vovó: lá está a bandeira!”.

Outro relato dá conta ainda de que os vendedores ambulantes que vendem a prazo - aqueles que utilizam os famosos cartões (promissorinhas) e cobram de porta em porta - anotavam o endereço de seus clientes utilizando a bandeira como referencial, ou seja, ensinavam ao cobrador que o endereço era “depois da bandeira tantos metros ou antes da bandeira”, e por aí vai...

E assim, esse símbolo vermelho que passou a ser referência para transeuntes, motorizados ou não, da popular “Estrada de Porto Velho” tremulou sempre altivo em seu mastro por aproximadamente cinco longos anos.

Alguém deve estar curioso para saber quem cuidava com tanto zelo da bandeira. Na verdade, não vou revelar sua identidade, apenas adiantar que essa simbologia encarnada passou a tremular no local primeiro para caracterizar que o proprietário do local era um “companheiro” atuante, militante e que participava do governo vigente. Segundo, talvez porque entendeu que era obrigação das autoridades governamentais se caracterizarem de partidários de corpo e alma, mesmo ele sendo um militante de oportunidade ocasional.

Bem, para finalizar esse proseado tipicamente acreano e pitoresco do mundo da política seringueira, tenho a anunciar para os leitores que, depois do resultado das últimas eleições e da indicação do staff governamental acreano atual, apesar de o mastro (bambu) ter sido trocado recentemente, juntamente com a simbologia do Partido dos Trabalhadores, lamentavelmente esse símbolo oficial indicativo, que tanto serviço social prestou à comunidade da redondeza, deixou apenas o vazio em seu lugar.

É possível que vá acontecer algum apitaço, panelaço ou outro tipo de manifestação em defesa da volta da bandeira do 57.

* Bibliotecário/documentalista

 

 
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Rio Branco-AC, 29 de março de 2007
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Da Redação
 
 
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