ESPECIAL
   ESPECIAL

Penitenciárias usam o teatro para solução de conflitos

Cedida
Cena de Teatro-Fórum montada pelos agentes, no qual se vêem alguns
“presos” na cela. Esses “presos” são interpretados por agentes e funcionários do sistema participantes do curso


Alguns presídios brasileiros estão adotando um método pouco ortodoxo, mas com resultados surpreendentes na solução de conflitos: o teatro. Mais especificamente o Teatro do Oprimido, uma criação revolucionária do dramaturgo Augusto Boal, surgida no início dos anos 70, que transformou o palco num espaço democrático de expressão e discussão de idéias. O projeto é coordenado pelo Centro do Teatro do Oprimido (CTO), com sede no Rio de Janeiro, e conta com recursos do Fundo Penitenciário Nacional, do Ministério da Justiça.

“Temos procurado ampliar os horizontes da política penitenciária para que as prisões deixem de ser vistas apenas como um lugar de custódia, mas também de promoção da cidadania”, afirma Maurício Kuehne, diretor do departamento Penitenciário Nacional. “Não temos dúvida de que a arte e a cultura desempenham um papel importante nisso, assim como a educação, o trabalho e a saúde”.

A iniciativa traz benefícios para todos os envolvidos no sistema penitenciário. Com o apoio de profissionais do CTO, chamados de “curingas”, funcionários e detentos elaboram o próprio texto da peça que pretendem encenar. O tema escolhido é uma adaptação da rotina do presídio e dos problemas que enfrenta. A solução é apresentada por todos, atores e platéia. “Nosso trabalho é, através do teatro, ajudar os presos e agentes penitenciários a entender melhor sua realidade e a expressar o que pensam”, afirma Bárbara Santos, coordenadora nacional do Teatro do Oprimido nas Prisões.

Hoje, sete estados adotam o Teatro do Oprimido em seus presídios - Piauí, São Paulo, Rio Grande do Sul, Espírito Santo, Rio Grande do Norte, Pernambuco e Mato Grosso do Sul. O acre será o próximo e já apresentou proposta ao Depen e ao CTO. O projeto inclui a capacitação de “multiplicadores” entre os funcionários do sistema penitenciário, para habilitá-los a realizar oficinas com presos e agentes, além de promover apresentações públicas, seguidas de debate, dentro e fora das unidades prisionais. Juntos, discutem temas como os direitos humanos e exclusão social dos que vivem ou trabalham no cárcere.

Temos testemunhado várias mudanças na vida de presos e servidores penitenciários”, afirma Bárbara. “Em um presídio feminino do Rio Grande do Norte, um diretor mandou construir uma rampa para portadores de deficiência física após ter assistido a um espetáculo em que as presas alertavam para o problema. Num presídio no Piauí, a diretora se comprometeu a alterar o horário da visita das famílias dos presos, também após assistir a uma apresentação teatral”.

Para Ivete Barão, diretora da Penitenciária Feminina da Capital (PFC), em São Paulo, há uma mudança de atitude das pessoas que participam das peças. “Elas não se preocupam apenas em apontar os problemas, mas de trazer solução também”, explica. “Todos contribuem, da platéia aos atores. Os espetáculos envolvem advogados, promotores, assistentes sociais, funcionários e até secretários de Estado.”

Método - O Teatro do Oprimido nas Prisões encena situações comuns nos presídios brasileiros e estimula agentes penitenciários, técnicos, presos, autoridades prisionais e a sociedade em geral a refletir e buscar alternativas para a resolução dos problemas apresentados. O objetivo é tornar o sistema prisional mais justo, humano, seguro e eficiente.

O método consiste em elaborar um ou mais temas, que são levados ao palco por presos e servidores penitenciários. Numa segunda parte do espetáculo, seguem-se as perguntas: o que você faria se estivesse vivendo essa situação? Quais as saídas possíveis? Quem tiver uma alternativa é chamado ao palco para apresentá-la, substituindo a personagem que vivenciara o problema.

Por fim, é formada uma mesa de discussão, que analisa as situações encenadas. A platéia tem a chance de discutir as propostas sistematizadas e votar nas que preferir. As sugestões são encaminhadas às autoridades estaduais (legislativas e/ou executivas), ao Ministério da Justiça e ao Congresso Nacional, por meio da Comissão de Legislação Participativa. Um relatório também é apresentado ao CTO, mesmo quando as soluções não são encontradas, para que seja avaliada uma nova proposta de criação.

“O Teatro do Oprimido não oferece soluções mágicas para problemas concretos, mas é um instrumento lúdico, criativo e eficaz de estímulo à reflexão, ao diálogo e à elaboração de propostas”, afirma Bárbara Santos. Segundo a coordenadora, as sugestões são apresentadas numa terceira etapa da programação, com o nome de Teatro Legislativo, em que se transformam em projetos de lei.

Resultados – Cerca de 120 penitenciárias já receberam o Teatro do Oprimido desde que o método foi adaptado para o sistema prisional, em 1998. Em torno de 250 multiplicadores foram capacitados, entre agentes de segurança, psicólogos, assistentes sociais e educadores.

Para o ex-secretário da Justiça e de Direitos Humanos do Piauí, deputado Henrique Alencar Rebelo, a iniciativa aperfeiçoa o relacionamento entre servidores penitenciários e presos, bem como aumenta o espaço de diálogo dentro do sistema carcerário. “A técnica é adaptada para internos visando a promoção dos direitos humanos em presídios e a ampliação de canais de comunicação com a sociedade”. O estado implementou o projeto em junho de 2005 nas penitenciárias de Parnaíba, Esperantina, Irmão Guido, Floriano e Picos, e capacitou cerca de 30 multiplicadores.

O QUE É O TEATRO DO OPRIMIDO

O Teatro do Oprimido é genuinamente brasileiro, mas hoje é difundido no mundo inteiro - em mais de 70 países. O método estimula uma postura ativa em seus praticantes e espectadores. Como linguagem, pode incentivar à discussão de qualquer tema no qual exista um conflito claro e objetivo e o desejo e a necessidade de mudança. Por fim, oferece condições para que alternativas sejam encontradas e estimuladas, e que extrapolem o âmbito do palco para a vida real, se tornando fatos concretos.

A idéia surgiu na década de 70, época em que Augusto Boal era diretor do Teatro de Arena de São Paulo e um dos principais colaboradores na criação e consolidação da dramaturgia nacional. O projeto reúne exercício, jogos e técnicas que buscam a “desmecanização” física e intelectual dos atores e, especialmente, a democratização da peça, estabelecendo uma relação intrínseca com o espectador. São condições práticas para que o oprimido se aproprie dos meios de produzir teatro e, assim, amplie suas possibilidades de expressão.

No Brasil, o Teatro do Oprimido é difundido pelo CTO-Rio, uma associação sócio-cultural sem fins lucrativos. As ações da entidade visam à democratização dos meios de produção cultural e o fortalecimento da cidadania.

Entrevista Augusto Boal

Qual a importância do Teatro do Oprimido?

O Teatro do Oprimido não é mais uma forma de teatro. É o que eu costumo chamar de teatro essencial. O homem é o único ser capaz de se observar em ação. E dentro da sociedade em que vivemos, essa capacidade tende a diminuir, porque somos bombardeados de informações imperativas, do tipo “faça isso”, “beba aquilo”. Não há espaço para dúvida de nada. Tudo são ordens. Partimos do princípio de que todos somos teatro, mesmo que não façamos teatro. Nós vivemos em ação. Somos expectadores de nós mesmos.

Qual é a fórmula do projeto?

O teatro-fórum indaga a platéia. Qualquer expectador pode entrar em cena, substituir o protagonista e apresentar soluções diferentes. Nós estimulamos a entrada de muitas pessoas no palco para aumentar o número de sugestões apresentadas.

Que tipo de resultados o teatro promove?

Em Presidente Prudente, por exemplo, o presídio era considerado um leprosário pela população, mas após a apresentação do Teatro do Oprimido em uma praça pública, a sociedade local passou a ver os detentos de outra forma. Hoje, os presos recebem visitas até de pessoas que não são seus parentes. Os presos são condenados ao confinamento e não à inatividade, que acaba sendo uma sentença a mais. O teatro diminui isso, por promover uma visão mais ampla da sociedade. No caso de Presidente Prudente, o estigma que as pessoas tinham dos detentos acabou. O teatro provoca a humanização.

Algum outro caso que te chamou a atenção?

Numa penitenciária do Mato Gross do Sul aconteceu uma coisa belíssima. Estavam procurando um local para o espetáculo, mas só havia um espaço em frente a uma cela cheia de prisioneiros. Eles fizeram o espetáculo lá. Na segunda parte do fórum, os funcionários e guardas começaram a intervir, até que um prisioneiro pediu para sair da cela e protagonizou uma cena, mostrando o que achava melhor solução.

Então, pode-se dizer que o teatro é uma solução para os problemas nos presídios?

Não. Ele revela os problemas, mas a solução vem dos atores do sistema.

O tempo que você ficou preso (na época da ditadura militar) influenciou na criação do Teatro dos Oprimidos?

Sem dúvida. Eu passei a entender melhor o sofrimento dos detentos. Em cárcere, fiquei totalmente isolado e conheci o silêncio bem de perto.

Quais são as suas expectativas sobre o projeto Teatro do Oprimido nas Prisões?

O projeto já tem apresentado resultados excelentes, mas precisa ser estendido por mais tempo e gerar o efeito multiplicador, ou seja, todos os atores continuarem envolvidos, para evitar que os presídios sejam depósitos de seres humanos, e sim um lugar onde repensar a vida.

 
 
© Copyright Página 20 todos os direitos reservados    -      Imprimir       -       TOPO
Rio Branco-AC, 29 de abril de 2006
 COTIDIANO
 COLUNAS
 EDITORIAL
 ENTREVISTA
 ESPECIAL
 ESPORTE
 POLÍTICA
 OPINIÃO
 VIA PÚBLICA
 VARIEDADES
 EDIÇÕES
 EXPEDIENTE
 E-MAIL
 
   GIRO GERAL
Com Moisés Alencastro
   NA TRIBO
Com Roberta Lima
   PORONGA
Da Redação
 
 
P E S Q U I S A