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| ALMANACRE | |
| Elson Martins | |
Memória confusa de uma guerra Creio que foi em maio de 1980. Eu, o delegado da Contag (Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura) João Maia da Silva Filho e o sociólogo Antônio Dias, editor do Caderno CEAS, da Bahia, chegamos à residência do trabalhador rural Wilson Pinheiro, presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Brasiléia. Wilson era a morte a anunciada do ano. De fato, no dia 21 de julho ele foi assassinado na sede do Sindicato, ao anoitecer, por dois pistoleiros supostamente pagos pelo capataz Nilo de Oliveira, da fazenda Nova Promissão, que dias depois seria fulminado na estrada de Assis Brasil (BR-317), levando mais de 40 tiros no corpo.
Olho por olho, dente por dente. Bem que os companheiros de Wilson Pinheiro haviam jurado durante velório do amigo: a polícia teria um prazo para pegar os assassinos. Se não o fizesse, eles saberiam como agir. Naquele dia quente de maio, encontramos Wilson em casa, com parte de seus oito filhos: sete mulheres e um homem - o mais novo, Ambrósio, ainda de colo. O sociólogo Antônio queria saber tudo sobre o corajoso líder que havia desafiado os fazendeiros com esta palavra de ordem: “Este ano não vamos permitir que se derrube uma árvore que seja, em todo o Acre!”. Era a palavra de homem que falava pouco, de um líder corajoso e honesto, de um dirigente sindical que havia comandado o grande mutirão contra a jagunçada na estrada de Boca do Acre, em setembro de 1979. Almoçamos, conversamos a tarde inteira à sombra de árvores frondosas do quintal da casa e dormimos em redes armadas na sala. A esposa do Wilson tinha saído para visitar uma filha em Brasiléia. Com ele ficaram três ou quatro meninas, entre elas Iliana de Paiva Pinheiro, de 11 anos. Destaco Iliana porque eu a conheci no dia 22 de março deste ano no Rio de Janeiro, durante a gravação dos quatro capítulos da minissérie “Amazônia...”, relacionados à história de Chico Mendes. No estúdio n.7 do Projac, o diretor Marcos Schechtman pediu silêncio e gritou “gravando I” para a cena do velório do líder sindical Wilson Pinheiro. O ator Leonardo Medeiros se acomodara no caixão sobre uma mesa, cercado de garrafas servindo de castiçais, com velas acesas. De repente, irrompeu um choro compulsivo entre os figurantes e, quando a cena acabou, Schechtman pediu uma salva de palmas para “essa mulher extraordinária, filha legítima de Wilson Pinheiro que mora aqui no Rio e, gentilmente, concordou em participar desta gravação”. Eu me dirigi a ela, que queria me conhecer, e nos abraçamos com muito sentimento. Depois fomos conversar numa das salas de espera do Projac, onde os atores aguardavam tomando água e cafezinho, comendo frutas e papeando até que os chamassem para o estúdio. “Eu morria de medo” Iliana tinha apenas 11 anos quando mataram Wilson Pinheiro. Ela estudava num colégio que funciona na rua atrás do sindicato, local do crime. Alunos e professores ouviram os tiros. Hoje com 38 anos, quituteira de profissão, ela reside em Niterói, casada com o bombeiro hidráulico Marcos Alves Pinheiro. O casal possui um filho de três meses de idade, Marcos Paulo, que acompanhou a mãe aos estúdios da TV Globo. Bonita, educada e muito simpática, Iliana explicou que a cena do velório fez ela reviver aquele momento triste de 1980, por isso chorou. Os fatos que sucederam ao assassinato do pai ficaram em sua memória como um pesadelo. Ela disse que sentiu muito medo quando os policiais invadiram sua casa, uma semana depois, caçando os matadores do capataz Nilão: - Eu não entendia aquilo, pois até pensava que o Nilão era amigo de meu pai. Mas fiquei apavorada ao ver aqueles policiais furiosos, atirando e invadindo tudo. Imaginei que era uma guerra e me escondia debaixo da cama. Iliama não pensa em voltar para o Acre, mas fala de sua terra com muita saudade. Disse que das sete mulheres filhas de Wilson, ela é a do meio. Casou a primeira vez em Brasiléia, aos 15 anos. Desse casamento teve uma filha que hoje tem 20 anos e já lhe deu uma neta (5 anos). Ela fala da mãe com muito carinho: - É uma exímia caçadora. Vive com uma espingarda às costas. A profissão de quituteira que possuo (é chefe de cozinha num restaurante em Niterói) tem a ver com as habilidades dela. Preparava um macaco guisado que eu não trocaria por nada, ainda hoje - disse, aparentemente inocente quanto às proibições contidas na legislação ambiental. TAMBAQUI NO LEITE DE CASTANHA Durante a Semana Santa fui convidado para degustar essa especiaria da culinária regional no sítio do João Maia, em Senador Guiomard. Também foi convidado o velho amigo José Maria de Araújo, como João Maia, companheiro de andanças na floresta, durante as lutas sindicais empreendidas nos anos 70/80. Sociólogo e economista rural, João Maia foi quem organizou os oito sindicatos de trabalhadores rurais do Acre e se tornou a primeira grande liderança dos povos da floresta naqueles tempos. Após a morte de Wilson Pinheiro, em julho de 1980, Maia foi enquadrado na Lei de Segurança Nacional no mesmo processo que incluiu Chico Mendes, o líder dos metalúrgicos do ABC paulista, Luis Inácio Lula da Silva, o presidente da Contag, José Francisco da Silva e Jacob Bittar. Maia ajudou a fundar o PT do Acre, depois mudou de sigla partidária e se saiu mal no Congresso, renunciando ao mandato de deputado federal. No fim da década de 90 sofreu um derrame cerebral perdendo a fala e parte dos movimentos do corpo. Hoje está bem de saúde, mas ainda não conseguiu recuperar a fala, o que é uma grande perda para a história do Acre. Zé Maria sempre foi um seringueiro andarilho. Nas lutas sindicais ele, dono de um par de pernas muito compridas e de uma disposição impar para caminhar na mata, era o estafeta que levava de uma colocação a outra, de um seringal a outro, as boas e as más notícias de organização dos seringueiros. Zé é autor da foto histórica que simboliza um marco da luta dos seringueiros em defesa da floresta. Foi clicada durante o “mutirão contra a jagunçada” organizado por Wilson Pinheiro na estrada de Boca do Acre. A foto, que ocupa uma parede inteira no pequeno museu existente à entrada do Palácio Rio Branco, no lado esquerdo, tem sido largamente utilizada por escritores, pesquisadores, entidades ambientais e o próprio governo, que, raramente, colocam o crédito no trabalho. Através deste Almanacre, Zé pediu que transmitisse o seguinte recado: daqui para frente, ele gostaria de ser consultado sobre a utilização de sua foto histórica. É fácil encontra-lo em Senador Guiomard, onde todos o conhecem. |
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