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Los Porongas: iluminando a selva de concreto |
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Eles são despretensiosos, mas também ousados, acreditam no que fazem e persistem para estar sempre cumprindo bem o fazer rock com o jeito ‘porongueiro’. Desde que mudaram de endereço, saindo do Acre para São Paulo, os rapazes da banda Los Porongas têm ganhado com freqüência as páginas da mídia nacional, sendo destaque diante de notas tímidas sobre outros nomes considerados grandiosos no mundo da música, invertendo um papel quase inexistente nessa área no Brasil, em que uma banda de rock da Região Norte jamais alcançou. Diogo Soares, 25, ex-apresentador da TV Aldeia, é responsável pela performance no vocal; João Eduardo, 25, ex-gerente da Secretaria da Juventude do Estado do Acre, delira junto aos acordes de sua guitarra; a serenidade de Márcio Magrão, 36, ex-servidor do Banco do Brasil, se junta à criatividade de Jorge Anzol, 38, ex-programador da Rádio Aldeia. Juntos, esses quatro jovens formam a grande promessa do cenário musical do país, construindo uma história de muita luta e grandes momentos. Em entrevista exclusiva e emocionante ao Página 20, Los Porongas fala da nova fase, das surpresas, recordações do Acre, saudades e do futuro. Confira!
Como está a nova fase? Era o esperado ou surpreendeu? Estamos muito contentes com a fase que estamos passando. Em quatro anos de banda nossa relação amadureceu muito e o fato de sair do Acre para São Paulo e correr o delicioso risco de viver de música são os alicerces para uma ótima convivência, tão necessária quanto as cordas da guitarra do João, as baquetas do Anzol e os graves do Magrão para continuarmos trilhando um bom caminho. Vínhamos nos preparando para viver isso, para cair de cabeça na vida de artista. Pra falar a verdade, não ficamos surpresos com o que saiu na mídia nem com o que aconteceu na nossa chegada. Sabíamos que o fato de o primeiro show em São Paulo ser num projeto do porte do Supernovas, com a participação mais que especial do Dado Villa-Lobos, atrairia a atenção da grande mídia (RedeTV!, Folha, Estadão), mas encaramos isso tudo com naturalidade, afinal, essa é vida que optamos por levar. Agora, as críticas do disco não nos surpreenderam, mas nos deixaram bastante emocionados. O que está sendo mais difícil em deixar o Acre? A saudade dos temperos, amigos e paisagens. A falta que faz a família... Engraçado que aquilo que nos impossibilitava de deslanchar a carreira, a distância geográfica, hoje é o que nos alimenta a saudade, afinal, não dá pra ir ao Acre todo fim de semana, morando em São Paulo. O que é uma grande pena! Mas é nessas horas que vale a pena não ser como os peixinhos de aquário, que têm cerca de apenas três segundos de memória. Basta lembrar das cores daí que o cinza daqui fica bonito que só, melancólico às vezes, mas bonito mesmo. A saudade é uma grande fonte de inspiração. A Legião Urbana fez a turnê do primeiro disco em pequenas casas noturnas, a do segundo foi em ginásios e a do terceiro álbum em estádios de futebol. Trazendo para a realidade que a gente vive hoje, de verdade, tanto faz, desde que as pessoas que se identificam com a nossa música estejam lá. Na verdade, quando montamos a banda nunca imaginávamos que iríamos lançar um disco no Teatrão, com noite de autógrafos e tudo mais. Nos concentramos na música e em como ela poderia chegar às pessoas e deu nisso. Vamos continuar fazendo, porque independentemente de onde for, se a música for sincera, vai ser massa. Vocês já se deram conta de fato de tudo que está acontecendo? O que parecia impossível de repente está cada vez mais próximo - artistas da Região Norte, de rock, fazendo sucesso no país. Acho que não. A gente nunca dimensionou o tamanho das coisas direito. Só sabíamos que tínhamos que seguir tocando, fazendo as coisas, e hoje olho ao meu redor e estamos os quatro morando em São Paulo, conversando até a madrugada para saber o que é melhor fazer, se vale a pena tocar em determinado lugar, se os acordes da nova música são aqueles mesmos... É novo, mas não surpeendente. Talvez seja para quem não tem acompanhado o processo de construção do momento que vivemos, que não é isolado pois se associa a um novo tempo da música brasileira a partir da integração de inciativas locais como as do Espaço Cubo de Cuiabá, do Catraia Records no Acre, da Tum-Tum produções de Manaus, da Se Rasgum de Belém, da Monstro de Goiânia, do Senhor F de Brasília... Há uma rede de articulação e de muito trabalho duro por trás do “sucesso” das bandas que pegam um atalho ao caminho intrafegável das grandes gravadoras. A integração dessas e de outras frentes possibilitou a criação do Circuito Fora do Eixo, da ABRAFIN, e de outros conglomerados que sustentam os novos rumos do mercado fonográfico brasileiro. Vocês saíram do padrão de falar só da regionalidade, mostrando que não precisa apenas isso para fazer um trabalho diferente e aceito. De que forma acreditam que mantêm o Acre vivo no rock dos Los Porongas? Quando chegamos a São Paulo, olhando a cidade do 18º andar do hotel no centro da cidade, vendo aqueles milhares de pessoas-formigas lá em baixo. Virei pro Magrão e disse: “Se não tivermos certeza de quem somos nessa cidade a gente tá f.!”. Aí a gente olha pra dentro de si e se pergunta quem a gente realmente é e descobre que tudo que somos, como seres humanos, se fez no Acre, nas ruas e calçadas de Rio Branco, principalmente. A nossa música sempre deu asas à intepretação, portanto, acho que a forma de manter o Acre vivo nela é continuarmos sendo honestos, buscando uma estética alinhada com nossa ‘ética musical’, como temos feito, deixando as pessoas livres para interpretar o nosso sentimento/entendimento, assim aproveitamos uma das principais características do nosso trabalho: o respeito pela inteligência de quem nos ouve. Como tem sido a rotina da banda em São Paulo? Enquanto uns dormem, outros levantam e vão caminhar no Ibirapuera; comemos (o Magrão é um gourmet de primeira, mas o João até que se arrisca bem na cozinha); fazemos as missões que foram divididas no dia anterior, o que vai desde lavar a louça até responder uma entrevsita como esta, por exemplo). Acho que vivemos uma relativização da noção do trabalho. Nosso trabalho agora é estar na internet fazendo contatos, respondendo entrevistas, ir às casas e às produtoras negociar shows, etc. Basicamente trabalhar é conhecer pessoas, suas idéias e compartilhar experiências. Isso tudo vai se transformando em música, shows, viagens, matérias... todos estão vivendo em função da banda agora. O Magrão é que vai volta a trabalhar no Banco daqui uns dias, pois está de férias. Nosso arrimo de família (risos). Fora isso tem os encontros com amigos e parentes que moram aqui. Esses dias conhecemos o Kook, um punk histórico que chegou em 87 aí no Acre e deu o start pro Anzol montar a primeira banda dele. O cara é uma figura. Junto disso tudo, tem o deleite cultural de sampa... teatro, cinema, música, artes plásticas, muita coisa barata ou de graça. Logo que chegamos fomos ao MASP e demos de cara com desenhos do Goya e originais de impressionistas como Cezanne, Monet, Manet... anteontem fui a um espetáculo montado sobre textos do peota espanhol Garcia Lorca no Teatro da USP e por aí vai. Tem sido muito bom vivenciar isso, São Paulo é um verdadeiro manancial cultural. A grande selva de concreto tem assustado? O que tem sido mais difícil? Em duas semanas, deu para constatar que São Paulo é apenas uma vila veloz, uma gigantesca vila veloz que não causa medo quando se tem companhia. Estamos uns com os outros, com os amigos daí que estão por aqui, como a Carol Freitas, vocalista da Filomedusa, os amigos de outros lugares que também se chegaram, como o pessoal da Vanguart, os novos amigos que temos feito... como já disse, a saudade é o que pega, mas ela tanto machuca quanto inspira, e isso nos faz lembrar quem somos e de onde viemos. Então é bom. Como pretendem manter contato com o público acreano? Estar presente na terra natal? Ontem mesmo estávamos discutindo isso. Temos a expectativa de fazer dois shows em Rio Branco esse ano, um deles provavelmente no Festival Varadouro. Estamos acompanhando daqui as movimentações rocker da cidade, trocando e-mails com pessoal do Catraia Records, das bandas, afinal se estamos aqui é sinal de que alguma movimentação acontece nas terras de Galvez hoje. Estamos sempre em contato com o público acreano, onde estão nossos amigos, nossos apoiadores e os primeiros fãs. Nossas portas de comunicação são o site www.losporongas.com.br , que está sendo reconstruído pelo nosso amigo Thiago Fialho; a comunidade no Orkut e o velho e-mail losporongas@gmail.com. No show de despedida, no Teatrão, vocês disseram que não estavam indo para o Faustão, tentando expressar as pretensões da banda. Qual o desejo do Los Porongas? Acho que nosso desejo é o de refletir nosso tempo em nossa música. Viver dela e fazer das nossas canções um meio de reflexão, de ponderamento e de diversão, afinal o mundo anda muito tenso e já que não somos médicos, engenheiros ou advogados, o nosso jeito de dar uma força é fazendo música com apreço por quem ouve e se divertindo junto. O que foi essencial nessa caminhada para ter esse resultado? O fato de acreditarmos desde o começo na música como expressão do que sentimos e não como mera cópia do que ouvimos ou nos obrigam a ver e ouvir. Isso nos forçou, intuitivamente, a criar uma linguagem diferente, matizada numa música que traz o Acre implícito em letras, levadas e melodias mas que se enquadra perfeitamente em outras paisagens. Essa construção estética tem criado um bom público porque orgulha os acreanos e desperta o interesse de quem é de fora, por conta, também, das multireferências que estão encravadas na nossa música. Contudo, há algo para além da estética que não pode ser esquecido, algo maior e que se relaciona com a estrutura falida do mercado fonografico brasileiro e a necessidade de uma afirmação cultural descentralizada do nosso país. A interação de frentes de trabalho pela cultura e, mais especificamente pela música como expressão de uma cultura urbana brasileira(ABRAFIN, Circuito Fora do Eixo, festivais independentes) , possibilitou que os Los Porongas ficassem conhecidos nacionalmente, num processo de longa construção que contou com fatores chave como a internet, a sensibilidade de parte da imprensa, dos poderes públicos (municipais, estaduais e federal, em maior ou menor intensidade de acordo cm cada estado/cidade) e da iniciativa privada. Por fazer parte disso, vivemos hoje a construção de uma nova estrada para o modo de produção cultural brasileiro, que passa pela implantação do Sistema Nacional de Cultura, e a consequente revisão das leis de incentivo; criação dos fundos de cultura; além da adequação, no que diz respeito à música, do mercado fonográfico aos novos suportes, novas mídias e novos horizontes que possibilitam que uma banda lá do Acre se faço ouvir nos passos que passeiam no Japão. A banda está tendo algum apoio? Está acontecendo algo muito bacana no Acre: a iniciativa privada está se disponibilizando mais e comprendendo os benefícios que trazem quando se agrega a marca a projetos culturais bem sucedidos. No Acre tivemos o apoio da Livraria Nobel, o ponto de venda do disco; da Bessa Terraplangens; da Pizza da Mama e da Iris Tavares para o show de lançamento. A Granero vai trazer nossa mudança. Nesta fase em São Paulo, fizemos uma excelente parceria com a Center Outdoor, uma empresa que há muito abriu os olhos para a cultura no Acre. O Gil, dono da Center, está apoiando a banda com uma ajuda de custo por seis meses, o que dá uma grande força. Isso é bom porque cria outra cultura de patrocínio no Acre, já que as pessoas estão acostumadas a esperar tudo do Estado. Aliás, apesar das imperfeições inerentes à burocracia paquidérmica da máquina estatal, deve-se lembrar sempre do salto qualitativo e quantitativo que o Acre teve em seu viés cultural nos últimos oito anos e que agora, sob uma administração mais sensível ao real sentido da cultura e das manifestações artísticas, só tende a melhorar. Existe um momento realmente de grande destaque, inesquecível. Ou já são vários? Tem vários momentos muito marcantes e cada um tem a sua viagem com o que acontece com a banda... Mas tem um que lembro sempre. Quando saiu a matéria na BIZZ, em 2006, misteriosamente a revista não chegou às bancas de Rio Branco e coincidiu de sermos convidados para tocar no Rio de Janeiro nessa época. Lembro da gente saindo do hotel Marajó, na Lapa, e indo correndo pra banca. Lá estava a BIZZ com o Skank na capa e dentro... duas páginas falando muito bem da nossa música. Só deu os quatro abraçados e chorando em plena hora do rush no centro do Rio. E parece que as coisas continuam acontecendo sem muita explicação... Esses dias fiz uma foto dos três porongas no metrô, no momento em que eles liam pela primeira vez a resenha da Folha de S. Paulo... Quando a gente sentou e o metrô começou a andar, o João estava com o jornal na perna. Aí eu olhei pra ele e perguntei: “Quando é que a gente achava que um dia estar com a banda em São Paulo, com o nosso disco recebendo uma nota melhor que a do IRA!, produzido pelo Rick Bonnaddio?”. Ele riu e deu com os ombros. Uma mensagem aos acreanos que estão na torcida. Quando formos ao Acre, vamos transformar tudo o que estamos vivendo em um show ensandecido! E a todos que sonham com a música por aí, que sigam sonhando, sentindo e trabalhando, pois a arte é necessária e quem nasceu para fazê-la não se faça de rogado! Muita força a todas as bandas acreanas! |
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