| OPINIÃO | ||
| MIOLO DE POTE | ||
Marcos Vinícius Neves |
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Memória da arqueologia acreana Este ano se completarão 30 anos desde que foram realizadas as primeiras pesquisas arqueológicas cientificamente conduzidas no estado do Acre. Corria o ano de 1977 e já nesta primeira pesquisa o Dr. Ondemar Dias Jr localizou sítios com estruturas de terra, que nos últimos tempos vem sendo erroneamente chamados de geoglífos, e estabeleceu as bases iniciais para o conhecimento da rica pré-história acreana. É essa história que começaremos a ver hoje e nas próximas semanas aqui na coluna “Miolo de Pote”. Pré Há alguns meses tentei dar inicio a uma série de matérias sobre a história da arqueologia acreana. Entretanto, outros temas se impuseram naquele momento e publiquei nesta coluna apenas o primeiro artigo da série, que acabou ficando solto. Por isso hoje vamos retomar aquele artigo inicial, completando-o, e a partir daí trazer a publico algumas informações básicas acerca da pré-história acreana, bem como um pouco da história da pesquisa arqueológica na região. Até porque está na hora de fazermos justiça aos seus pioneiros e fundadores, antes que novos factóides e matérias sensacionalistas sobre o assunto voltem a nos assaltar. Pré-Acre É muito comum os textos sobre a história acreana começarem da seguinte forma: até meados do século XIX o Acre aparecia nos mapas da Amazônia como “Tierras no discubiertas”. Eu gosto de dizer que antes de 1850 o Acre não existia. O que são apenas duas formas diferentes de explicar que enquanto o mundo ocidental já começava a viver sua segunda revolução industrial, a região dos altos rios Juruá e Purus ainda era um território completamente desconhecido da civilização ocidental. O que equivale a dizer, portanto, que até então o Acre vivia sua pré-história. Mas não podemos por isso pensar que o Acre fosse um território despovoado. Pelo contrário, se acredita que essas terras fossem povoadas por mais de cinqüenta diferentes etnias indígenas, com línguas, costumes, deuses, formas de viver muito distintas entre si. Infelizmente essa é uma informação que nunca poderá ser totalmente confirmada uma vez que muitos desses povos indígenas tinham culturas materiais muito simples baseadas nos materiais perecíveis da floresta e desapareceram sem deixar nenhum vestígio. Entretanto muitos outros povos indígenas que habitavam essa região há milhares de anos importavam pedras (matéria-prima inexistente no Acre) para seus machados e fabricavam artefatos de cerâmica. A única forma de conhecermos um pouco da história desses povos é o estudo dos vestígios - como restos de laminas de machado, ossos e cacos ou potes de cerâmica - deixados nos locais onde eles moraram ou desenvolveram atividades diversas. É disso que trata a arqueologia. Chandless e os sítios com estruturas (geométricas) de terra As primeiras notícias que dispomos sobre a arqueologia do Acre foram registradas por viajantes e aventureiros que exploraram essa região a partir de meados do século XIX. Estes exploradores deixaram uma abordagem naturalista e genérica sobre diversas características dos povos indígenas, da geografia e das riquezas acreanas. E foi William Chandless, geógrafo inglês, o primeiro a registrar uma ocorrência semelhante ao que atualmente estamos denominando como sítios geométricos, mas que naquela época ainda estava em pleno uso por grupos indígenas do Acre. “...Na parte do Aquiry que acompanha o paralelo 11º S. encontramos duas tribus indigenas, ambas - como pareceu - de pouca gente....são ... mui medrosos....Ao avistarnos ... correram para o matto ... os fugitivos espantaram tambem uma maloca vizinha; pelo que à nossa chegada achamos esta dispovoada. Tudo quanto foi portatil tambem tinham levado. Esta maloca parece ser a principal, e para assim dizer a capital da nação. Tem 3 ou 4 casas .... outra mais retirada, toda fechada, ... que é o armazem das cousas de festa, ... Entre o armazem e as casas ha uma trincheira (assim -_- ) as extremidades deixam só uma entrada estreita, encostada no matto. Esta imaginamos ser uma obra de defeza; mas os indios depois nos disseram que não foi mais do que um arranjo para as festas. Nas casas achamos uma panela enorme, de 5 ou 6 palmos de largura, e 4 de altura ... dous dias mais tarde ... seguiram por terra e nos alcançaram. São gentios altos, alvos e limpos ... mas não bonitos: as mulheres não vimos ... As malocas não são muito retiradas (1/4 a ½ légua só) da beira... Plantam bananas, milho, aipim (mandioca não vi) canna de assucar, algodão, e o mamão ... Fazem novelos de fio de algodão, e tecem panno que as mulheres vestem pela cintura, ... fallam em voz alta ... a lingua é uma coisa guttural... Estes indios tem ferramentas ao menos pedaços quebrados, que, é, claro, compraram de outros mais ricos que elles; provavelmente da tribu que achamos mais acima. Naturalmente eram muito desejosos de comprar cousas de ferro, mas não roubaram, nem procuraram roubar das canoas. As canoas delles são ubás de paxiaba...as flechas delles tem ponta de osso e não levam linha: para a defeza eles usam taquaras. Não conseguimos saber o nome da nação ... Estes indios não se estendem até o rio das Pragas, um affluente grande que entra no lado direito....” (Chandless, 1866, pág. 3) Com esse relato Chandless foi o primeiro a descrever e fornecer informações sobre o povo que tinha o habito de construir estruturas de terra. O geógrafo inglês ao avistar a trincheira de terra da aldeia, rapidamente abandonada por seus ocupantes, logo pensou se tratar de obras defensivas, a exemplo dos arqueólogos modernos. Sua surpresa, com a volta dos índios assustados foi saber que era um mero arranjo para festas, ou seja, tinha um uso eminentemente ritual/cultural. Além disso, a referencia à fabricação de grandes panelas de cerâmica aumenta ainda mais a possibilidade de estabelecermos uma relação entre o grupo descrito por Chandless e os sítios arqueológicos geométricos, que tanta polêmica tem causado ultimamente, uma vez que nestes encontramos material cerâmico deixado por seus construtores. Pena que o geógrafo inglês não conseguiu saber, e nos legar, o nome desse grupo indígena. Pós É importante ressaltar que em suas expedições pelo rio Acre e Purus, Chandless foi guiado por Manoel Urbano da Encarnação, o verdadeiro descobridor do Acre, nosso “Pedro Álvares Cabral”. Com a diferença que não era português, mas um caboclo escuro do Manacapuru. Entretanto, Manoel Urbano não sabia escrever, apesar de sua grande inteligência natural, como fez questão de frisar o próprio Chandless, por isso não deixou relatos escritos de suas andanças pelo Acre indígena. Mas logo outros exploradores seguiriam os passos de Manoel Urbano. Homens como Serafim Salgado, Silva Coutinho, Antonio Pereira Labre e outros, que buscavam as riquezas ocultas nestas terras inexploradas e deixaram importantes relatos acerca dos povos que aqui encontraram. Da mesma forma como Chandless logo foi seguido por diversos outros naturalistas e cientistas que serviam como ponta de lança para a futura exploração econômica da região. Ehrenreich, Nusser-Asport, Koch-Grünberg, Rivet, Steere foram alguns dos que, entre o final do século XIX e as primeiras décadas do XX, se aventuraram nas terras do Aquiri, Purus e Juruá, deixando seus próprios estudos. São, portanto, estes dois grupos de cronistas, exploradores caboclos e viajantes estrangeiros, uma das fontes primordiais para estabelecermos pontos de ligação entre os povos nativos dos primeiros contatos e os atuais povos indígenas acreanos. |
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