| OPINIÃO | ||
| CRÔNICA DE DOMINGO | ||
José Augusto Fontes |
||
Imagem azul Abro a porta do quarto, meia luz, penetro, é quase imaginação, uma imagem azul se desenha a meia altura, sinuosa, meio oferecida, me aproximo, vou passando a mão, pego-a na parte mais alta, ela dança um pouco, fantasia, há um balanço familiar, quase sinto o cheiro, o tecido é macio, quase sonho. Ela, a imagem, se abre percorrida pela minha mão que a alisa. A outra, minha imaginação, se fecha, sorri, acendo a luz, recebo a sensação, um carinho imóvel acaricia meu pensamento e a matéria agrada o corpo que vem da madrugada insone, que vem dos bares e da poesia, que vem da vida lá fora, distante do prazer de estar só e quieto, acordando lembranças, sonhos, desejos... Passo ao lado e vou adiante, olho no espelho um rosto de hoje, ontem raspei a barba, agora há pelos brancos pelo queixo, molho o rosto, vou à geladeira, outra água desce pela garganta, pigarreio o cigarro que apaguei há meia-hora, volto para o vulto que havia, apago a luz, abro toda a imaginação e deito com a imagem, por cima dela, que recebe o peso e range, vai para um lado e para o outro, eu dou corda, me acomodo e me embalo, penso na vida vazia, percorro o momento, o azul me envolve, estarei no céu, em gozo infinito no paraíso da mulher vadia de amor? Pego um travesseiro e dou mais um embalo na minha rede nova, azul-marinho, tecido quase puro. Pego outro e abraço, bem no meio da solidão, com a mão de prosa deixada na noite fugidia. Desligo da vida eterna, vida e meia lua, na madrugada minguante, meio acordado já sonho, havia um céu azul de ilusão lá fora, onde ficou uma melodia. Aqui dentro, deito nele de algodão. Até amanhã, outra escuridão, minha rede pesca o sono que me vigia. |
||
| COTIDIANO |
| COLUNAS |
| EDITORIAL |
| ENTREVISTA |
| ESPECIAL |
| POLÍTICA |
| OPINIÃO |
| VARIEDADES |
| EDIÇÕES |
| EXPEDIENTE |
| GIRO GERAL |
| Com Moisés Alencastro |
| NA TRIBO |
| Com Roberta Lima |
| PORONGA |
| Da Redação |
| |