
MONTEZUMA CRUZ
AGÊNCIA AMAZÔNIA
Boca do Acre (AM) - Barqueiros e pescadores cortam maçaranduba vermelha às margens do Rio Purus. Constroem barcos e casas, alheios ao fato de o município ter sido incluído numa lista de 36 considerados os maiores devastadores da floresta na Amazônia Legal. A garotada solta pipa numa tarde sem chuva do começo do inverno amazônico. Mais Acre que Amazonas, esta cidade vive uma fase de miscigenação de seus habitantes: antes, seus moradores eram nativos; agora a cidade recebe de braços abertos gaúchos e baianos atraídos pela terra barata e pela perspectiva de melhorar a vida.
Mulheres aparecem na janela para observar a chegada do barco dos irmãos Araújo, de Rio Branco (AC), que vendem na região 25 toneladas de peixes por mês e criam alevinos. Após dez horas de viagem, a partir de Porto Acre, o barco ancora no Terminal de Passageiros, Cargas e Entreposto de Pescado Raimundo Alves.
Mesmo com a abundância de peixes, a bovinocultura desponta no município. De acordo com a Associação Andiroba, o rebanho bovino cresce 10% ao ano em Boca do Acre. “Alguns latifundiários chegam a desmatar individualmente mais de mil hectares por ano”, registra um relatório da entidade. Tudo para a formação de pastagem.
Sentimento acreano
“Eu nasci pescando”, diz Sebastião Araújo, 65 anos, cinco filhos. Ele e o irmão Miguel Araújo torcem para que um dia este município de 28,4 mil habitantes e 21 mil quilômetros quadrados passe a pertencer ao Acre.
“Estamos a 208 Km de Rio Branco e a 1.028 Km de Manaus “, compara Miguel. “Tudo aqui depende de Rio Branco”, emenda Sebastião.
Os irmãos demoram meia hora para subir a rampa de chão duro. No desembarque, cumprimentam as pessoas e conversam. Lembram do tempo em que os navios eram amarrados em troncos de mourão, na barranca do rio. Inevitavelmente, a disputa político-administrativa entra na conversa.
Segundo o secretário da Fazenda do Acre, Mâncio Lima Cordeiro, quando exerceu a presidência do Banco da Amazônia S/A, a readequação administrativa das agências criou “pé-de-guerra” com os deputados estaduais amazonenses. Eles ficaram insatisfeitos por perderem espaço para o Acre. O comerciante José de Pádua, 49, garante que até hoje não viu “mais que três políticos de Manaus na cidade”. “É um desprezo enorme”, queixa-se. Na opinião de Sebastião Carmo da Silva, 64, o Pinote da Sanfona, se for feito um plebiscito hoje, Boca do Acre seria acreana “de verdade”.
O perigo da futuras inundações não está afastado. Tem chovido muito na região. Uma escola estadual com investimento de R$ 3,7 milhões foi construída em área sujeita a alagação.
Pequenas mercearias da beira-rio vendem a produção frutífera regional: abacaxi, banana, manga, limão, laranja e abacate. Outros pequenos bares oferecem o sorvete de tucumã. Na pracinha, Altina Pereira de Souza, 65, serve tacacá com pirarucu seco. Servido em cuias, o tacacá vale por uma refeição. É uma mistura de tucupi (extraído da mandioca), goma (extraído da tapioca) e da folha de jambu) e servido em cuias.
Altina sabe de tudo o que acontece. Conversa um pouco com cada freguês. Na roda ouve-se, por exemplo, que depois da grande alagação ocorrida há dois anos os poderes públicos permaneceram na cidade antiga. “O povo quis ficar aqui”, ela advoga. Enquanto isso, o Platô, que se chamaria Valterlândia, numa homenagem ao coronel pioneiro João Valter de Andrade, já atraiu mais de 2 mil famílias que compraram terrenos por R$ 2 mil, regularizados pelo Sistema Habitacional do Amazonas.
Melo, o matuto
Aos 73 anos, três filhos, nove netos e quatro bisnetos, José do Vale Neto, recorda e resume o que foi Boca do Acre: “Além dos índios Apurinã e Capana, tinha por aí portugueses, africanos, libaneses e toda qualidade de gente rodada nos varadouros e no corte da borracha no Iaco, junto com peruanos e bolivianos que dominavam isso aqui”.
“Matuto de canga e corda”, como se considera, Melo enaltece a saga do seringueiro João Gabriel de Carvalho e Melo, que morreu aos 86 anos e foi o primeiro chefe de expedição a navegar com o barco Anajás nos rios da região no início do século passado. O barco pertencera à Companhia de Navegação do Amazonas. “Mário Diogo (outro pioneiro e escritor regional) conta a vida dele. Ele deu nome ao mais famoso seringal do Purus, mandou vestir os índios nus e as caboclas”.
Mas o pioneiro lamenta: “Passaram a mão nos seringais. Os que aqui morreram de tuberculose, malária, beriberi, lepra e hepatite são desconsiderados”, lamenta. “O cemitério daqui era a vala comum. Na febre da construção, não havia tempo para nada. Ouviu dizer que o dinheiro é a febre do mundo?”.
Platô do Piquiá, bairro-cidade fica ao lado de área desmatada
Boca do Acre – Não foi apenas a inundação na área central o motivo da expansão de Boca do Acre. Terra barata a R$ 50 mil o hectare nos arredores já desmatados fez nascer o Platô do Piquiá, um bairro-cidade cidade, a dez quilômetros do centro, cuja área portuária perdeu um grande trecho da Avenida XV de Novembro devido ao assoreamento ocorrido em 2007. Para sobreviver ao fenômeno, o terminal portuário concluído em 2002 depende dos cálculos e das obras da Capitania dos Portos e da Prefeitura de Boca do Acre. Estacas seguram uma parede de madeira próxima ao terminal.
A Prefeitura não estimula mudanças, mas vê com naturalidade a miscigenação dos caboclos de olhos negros e castanhos com os sulistas de olhos azuis. Platô possui lojas grandes com vistosos letreiros e fachadas, e uma diversidade de construções de madeira e alvenaria. Sua gente cultiva muito a fé cristã. A maioria dos 60 templos católicos e evangélicos de Boca do Acre fica lá.
O Sistema de Detecção de Desmatamento em Tempo Real revela que o desmatamento do Amazonas dividiu-se entre os municípios de Lábrea (a 702 quilômetros a sudoeste de Manaus) e Boca do Acre. Cada cidade ficou com 50% de área desmatada. Para o superintendente regional do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), Henrique Pereira, é normal haver queda no índice de desmatamento no primeiro bimestre do ano, no Amazonas, por conta das chuvas. O período chuvoso, segundo ele, dificulta a ação de madeiros ilegais e ajuda a diminuir a devastação da floresta”.
Segundo o deputado Marcelo Serafim (PSB-AM), para que o desmatamento deixe de ocorrer nessa região será preciso “ver a Amazônia de uma maneira diferente: teremos que convencer o Brasil que vale a pena investir na preservação da floresta e isso só acontecerá no momento em que nosso país for verdadeiramente amazônico”. (M.C.)
Gentil agora sabe que jarina vira biojóia em São Paulo
Boca do Acre – Sentado no banco de madeira do Terminal de Passageiros e Cargas, o caboclo Gentil Coitinho dos Santos, 50 anos, aguarda a pessoa que vai lhe oferecer um serviço extra. Ele está fora de casa há oito dias, para acompanhar a mulher dele, Natália Ferreira de Souza, 39, até o Hospital Regional Maria Geny Lima. O casal espera o oitavo filho.
Gentil trouxe o filho Jorge, 8. Os dois pescam para se alimentar. Pai e filho não denotam cansaço, mas alguma expectativa com o parto de que deve ocorrer a qualquer momento. Do Seringal Liege até a barranca do Rio Purus, em Boca do Acre, a viagem dura um dia. Num pequeno lote de terra, ele cultiva um pouco de banana, milho e mandioca. Vende a produção na cidade. Quanto custa uma viagem de lá para cá? – pergunta-lhe o jornalista Elson Martins, com quem o repórter da Agência Amazônia viajou à região. “Uns R$ 70”, ele responde. O motor de 5,5HP consome 20 litros de gasolina mais nove litros de óleo lubrificante.
Marfim vegetal
Gentil conta que costuma colher sementes nativas no interior da Reserva Extrativista Arapixi, criada em 2006. Guarda tudo em casa e vende a semente de jarina por apenas R$ 2 o quilo ao primeiro que aparecer. Segundado dados do Museu Goeldi, de Belém (PA), atualmente vêm sendo estudadas 486 qualidades de sementes. A região amazônica deve ter cerca de 170 mil variedades de plantas.
Há três anos, uma garrafa de um litro cheia de jarina custava R$ 1 nas ruas de Belém. Hoje, uma semente está sendo vendida a R$ 20. O produto sai da Amazônia como commodity e volta com alto valor agregado – remédio, cosmético ou outro produto. Da mesma forma, vai parar em São Paulo, a 3,8 mil quilômetros de distância, onde sustenta o milionário comércio de biojóias, que compõem anéis, brincos, colares, pulseiras, braceletes e outras peças vendidas no Brasil e o Exterior.
É um colono sem título agrário que pouco sabe sobre o mercado verde no qual a semente de jarina, conhecida por marfim vegetal, se tornou uma das mais apreciadas. Ao lado dela, a andiroba e a copaíba são igualmente contrabandeadas da selva para os laboratórios de Goiânia, Belo Horizonte e São Paulo.
Gentil e tantos outros são enganados por espertos atravessadores vindos de diferentes regiões. “A jarina leva quatro anos para germinar e eu ouvi dizer que está se acabando”, comenta o caboclo. Está mesmo, por um motivo simples: o preço dessa matéria-prima aumentou mais de 20 vezes e, conseqüentemente, a exploração vem ocorrendo em grandes quantidades. Não há estatística disponível, mas sabe-se que, além do artesanato, as sementes são vendidas também para projetos de reflorestamento.
Elson Martins, atualmente um dos responsáveis pelo site da Biblioteca da Floresta, em Rio Branco, aconselhou Gentil a armazenar sua produção em saco plástico e só vendê-la, a um preço mais justo, quando for à capital acreana. A biblioteca exibe sacos com sementes nativas, a maioria conhecida por comunidades indígenas acreanas.
Certificação - O Serviço Nacional de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) criou o Grupo de Trabalho de Certificação de Sementes e Produtos Artesanais, do qual fazem parte representantes do Acre, Amazonas, Amapá, Pará, Rondônia, Roraima, Tocantins, a Embrapa, a Universidade Federal Rural do Amazonas, o Museu Goeldi, de Belém, o Museu S.J. Liberto, da Secretaria Executiva de Trabalho e Promoção Social do Pará, o IBGE e do Centro de Educação Tecnológico e de Negócios de Rondônia.
Em São Luís do Remanso (AC), a semente é extraída a partir de critérios ecológicos que asseguram a preservação da espécie. Desde 1998, ali está uma das primeiras experiências de manejo florestal de uso múltiplo da Amazônia, no qual o conhecimento tradicional dos extrativistas se une ao aprendizado técnico.
Não apenas Gentil ignora quantas anda o tal mercado verde. Ninguém até agora ouso dizer, ao certo, quantas toneladas por ano de sementes são coletadas. A falta de dados confiáveis sobre esse insumo tão especial e a inexistência de marco regulatório para o uso econômico das matérias-primas no País exigem a criação de políticas públicas e processo de certificação, a fim de garantir a sustentabilidade do artesanato feito de sementes e dos produtos florestais não-madeireiros.
Segundo estimativas do Sebrae no Acre, cerca de 70 toneladas por ano de sementes saem do Estado para o mercado interno e externo.
Aproximadamente 4 mil famílias trabalham na coleta de jarina, açaí e paxiubão. A maior ocorrência da jarina é no Acre, responsável por 90% das sementes que estão nas biojóias.
A conversa com o caboclo é enriquecedora. Colhendo, pescando e caçando para o sustento, esse amazônida nascido no Seringal Montevidéu, no Rio Pauini, merece dias melhores. E dias melhores virão, agora que ele sabe ser parte de um mundo consumista no qual já pontificam as sementes e o artesanato produzidos na Floresta Amazônica. (M.C.)
Resex estadual ou federal, a dúvida amazonense
Boca do Acre – A Resex Arapixi é um caso de isolamento total. Resolveria o drama da posse da terra, da conservação e do manejo adequado dos recursos naturais. “Quem conhece a realidade do interior da Amazônia não poderia jamais discordar ou deixar de apoiar movimentos voltados para a criação de reservas extrativistas, não importa se estaduais ou federais”., lamenta o pesquisador Evandro Ferreira, do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA) e do Parque Zoobotânico da Universidade Federal do Acre. Ele classifica de “capricho político” a morosidade do Governo do Amazonas em fazer funcionar as Resex de Arapixi e Unini, a pedido de 460 famílias de extrativistas do sul daquele estado.
A Reserva Arapixi, ao longo do Rio Purus, entre a desembocadura do rio Iaco e a cidade de Boca do Acre, é exemplo disso. “Por que o governo amazonense não está muito preocupado com o assunto? Politicamente as 460 famílias representam, talvez, uns 2,5 mil votos. Não elegem um deputado, quem dirá um governador. Talvez não façam nem mesmo a diferença em uma decisão apertada”.
As críticas do professor Ferreira encontraram ressonância. Em nota oficial, o Governo do Amazonas afirma não ser contra a criação das Resex do Unini e Arapixi. “Pelo contrário, na atual gestão foram criadas as duas primeiras reservas extrativistas estaduais da história do estado: Catuá-Ipixuna e Guariba”, assinala.
Lembra ainda o Governo do Amazonas que em 2002 existiam 7,4 milhões de hectares de unidades de conservação estaduais. Ao final de 2005 o total já havia alcançado 15,6 milhões. Ao que tudo indica, a extensão territorial fala mais alto. O governo afirma que está em fase de conclusão um processo de consultas para a criação de um novo mosaico de unidades de conservação com cerca de 2 milhões de hectares em terras estaduais sob ameaça de grilagem e desmatamento. |