VARIEDADES

Uma das Marias do Brasil

História de Maria Ferreira é uma entre tantas outras no país. Sua persistência e força de vontade servem de exemplo

Marcos Vicentti
Maria acorda diariamente às 3 horas para iniciar o trabalho que só termina às 17


Andréa Zílio

Não é difícil encontrar pessoas reclamando do emprego que têm, de acordar às sete e ter que trabalhar às oito horas, da falta de tempo. Maria Ferreira, 53, não é de queixar-se - apenas faz o que precisa todos os dias para ter o alimento a dar aos dois filhos e continuar pagando a faculdade da filha que estuda administração. Consegue isso empurrando diariamente o carro em que vende café, leite, açaí, jatobá, suco, pão com carne e sopa.
Romper o silêncio que permanece na mulher de olhar triste, corpo com as marcas de um tempo que lhe foi injusto, sugerindo mais do que a idade que tem, não é tão fácil. A vaidade já não lhe é presente, e a vergonha cora ainda mais seu rosto rosado de tanta exposição ao sol, que também evidencia as manchas causadas pelo vitiligo.

Maria Ferreira nasceu em um seringal no Purus, e trabalhou cortando seringa, mas não conseguiu a aposentadoria que desejava pelos muitos anos de esforço nos varadouros. É de uma família de oito irmãos, os pais morreram no seringal, de onde saiu quando casou-se. Hoje mora no bairro São Francisco e diz ter sido deixada pelo marido apenas com os filhos - a menina agora tem 15 anos e o menino, 14. Ele ficou com a casa e o que havia dentro dela.

Com a conversa prolongada, depois de muitas respostas curtas, Maria sente-se à vontade para falar mais. Ela relata que sua rotina começa às 3 horas, quando levanta para fazer as bebidas que vende em seu carro de mão. Seis horas ela sai de casa e só retorna por volta das 16, 17. Quando enjoa de comer o que vende, faz as refeições em pensões ou lanchonetes, mas isso é regalia para poucas vezes, pois o faturamento nem sempre permite que ela seja cometida.

Em média o lucro da venda é de R$ 20 a 30, o que pode ser considerado um bom dia de venda, mas naqueles em que o resultado é contrário, conseguir levar até R$ 10 para casa é um grande saldo. Mesmo assim, ela não desiste, enfrentando problemas de saúde, em que conta com a solidariedade dos outros para socorrê-la quando desmaia pela rua, o que já aconteceu diversas vezes.

O sonho de Maria – Sonhar é algo que Maria se permitia com mais freqüência no auge da juventude, quando sua grande vontade era ter um comércio. Ela construiu junto ao ex-marido uma pequena venda, hoje diz que não ter mais esse desejo, porque tem medo dos assaltos. Mas os poucos sonhos de Maria direcionaram-se aos seus filhos. Ela diz que seu maior desejo é ver os dois filhos formados e emociona-se ao comentar sobre eles.

“Eu enfrento chuva, sol, tudo para que meus filhos não passem pelo que passei, para que não sofram o que eu sofri. Vivi muitas dificuldades na minha vida, enfrento discriminação ao invés de receber ajuda, as pessoas tratam mal quando deveriam ser gentis. Fico cansada, eu também sou um ser humano”, desabafa Maria.

A acreana Maria Ferreira é simples, humilde, uma mulher que se define fraca, apesar de não permitir fraquezas diante da necessidade de vencer obstáculos. Ela diz ser simplesmente Maria, e é uma entre as tantas Maria com outros nomes, ou seja, vencedoras em um mundo cheio de desigualdades.

 

 
© Copyright Página 20 todos os direitos reservados    -      Imprimir       -       TOPO
Rio Branco-AC, 29 de maio de 2007
   GIRO GERAL
Com Moisés Alencastro
   NA TRIBO
Com Roberta Lima
   PORONGA
Da Redação
 
 
P E S Q U I S A

 COTIDIANO
 COLUNAS
 EDITORIAL
 ENTREVISTA
 ESPECIAL
 ESPORTE 20
 POLÍTICA
 OPINIÃO
 VARIEDADES
 EDIÇÕES
 EXPEDIENTE
 E-MAIL