ESPECIAL
   ALMANACRE
Elson Martins

Lembranças na gaveta

Daniel de Andrade Simões

Preso em 3 de setembro de 1969 pelo delegado de polícia de Alagoinhas (Bahia) e a polícia militar, na localidade de “Jacaré de Dentro”, foram encontrados em meu poder grande quantidade de panfletos, o livro vermelho (cartilha) do Mao Tsé Tung e o Manifesto do Partido Comunista, além de vários documentos com nomes diferentes, documentação pessoal e boa quantia em dinheiro (fruto de expropriação da Shell do Rio de Janeiro).

Comigo tinha também um fuzil 22 com balas, e um 38 com bastante munição. Lá em Alagoinhas pretendia iniciar a guerrilha junto a alguns companheiros com quem me reunia clandestinamente. Queria atender o apelo do Che Guevara e do Marighella e criar vários Vietnãs.
Esses contatos foram organizados em Salvador através de Lúcia e Luiz Bittencourt, talvez por Sarno, Jurema e Bira- Ubiratan Castro de Araújo. Eu não pertencia a nenhuma organização política, pensava em organizar meu grupo de resistência agindo como um convicto comunista.

Minha prisão se deu ao amanhecer, em uma casa de taipa junto a Ferrovia. Provavelmente por denúncia de camponesas que lavavam roupas em um riacho próximo ao esconderijo. A casa foi “estourada” ao amanhecer por soldados armados da PM que me surpreenderam sem chances de reação.
Ainda bem! A bobagem teria custado vidas, sobretudo a minha! Fui violentamente espancado com socos e pontapés, deixaram meu corpo completamente quebrado. Fui arrastado no mato, amarrado com cordas até uma viatura. Passei a noite na prisão da delegacia, pela manhã fui conduzido para Salvador e entregue ao sexto Exército no quartel do Barbalho.

Antes, em 1967 eu tinha sido preso quando participava de movimento estudantil (fazia o curso clássico no Colégio Central da Bahia e era colega de sala do Paulinho Boca de Cantor). Na época eu trabalhava na Petrobrás (desde março de 1963), mas fui demitido em maio de 1968 por razões políticas. Fui incurso na Lei de Segurança Nacional com o processo encaminhado à auditoria da sexta Região Militar.

Em 16 de julho de 1968 passei em concurso da Shell para o cargo de escriturário, e novamente fui demitido, em abril de 1969, sumariamente. Eu estava na luta: participei no Rio de Janeiro de passeatas contra a ditadura, entre elas a dos 100 mil (1968).

Após minha prisão em Salvador, com ajuda financeira de um padre, amigo de Lildes e Lenildes (minha namorada na época), e de João Ubaldo Ribeiro, dono de uma agência de publicidade em que fiz estágio de laboratorista de kodalites – fui para o Rio, e de lá, levado por um casal de companheiros em um karman-guia (carro popular) até a ponte da amizade na fronteira com o Paraguai.

Cheguei ao Chile com uma nova carteira de identidade com o nome de Reginaldo Faria Leite. Permaneci com este nome todo o tempo de exílio. No Chile, fui acolhido pelo grupo dos 70 trocados pelo Embaixador norte-americano seqüestrado no Rio. Morei e participei de grupos de estudo da ALN, passei a ser chamado neste coletivo de Carvalho. Morei com Wilson Barbosa, José Júlio (comandante Mata, morto pelos órgãos de repressão após sua volta do Chile e treinamento em Cuba), Jaiminho (Leopoldo Paulino), Jaimão, Luiz Travassos - ex-presidente da UNE, Zé Duarte (marinheiro) Maria Auxiliadora (Dora), Reinaldo Guarani, Conceição (operária), Rafael etc.

Após sair do aparelho da ALN fui morar com militantes chilenos e o cantor-compositor Geraldo Vandré. Alguns meses antes do Tacanço (tentativa de golpe) o coletivo da ALN nos enviou, eu e Leopoldo Paulino, para a Europa. Fazíamos parte de ações de expropriações com o MIR (Movimento de Esquerda Revolucionária) do Chile. Chegamos a Gênova após viajem de 30 dias de navio, saindo de Valparaíso. Em Roma, faríamos contato com a ALN e, posteriormente, iríamos para Cuba treinar guerrilha e retornar para o Brasil.

Tínhamos um visto de 5 dias e nossos contatos em Roma não funcionaram. O PSI nos deu passagem para Paris, onde o contingente de brasileiros era grande. Fizemos contato com Reinaldo de Melo (Reinaldinho) que nos colocou numa casa de um anarquista espanhol. Mas em poucos dias tivemos que deixar sua casa; não tínhamos dinheiro, a vida era difícil para todos. Nessa ocasião contamos com apoio da Cimade,- organismo de auxílio a refugiados políticos (rua Grenelle, 176), por intermédio de Sergio Menezes, José Rollenberg, Carmen Craidy, Arruda Câmara (fundador do PC do B) e outros exilados em Paris.

A Cimade nos colocou em uma pensão na Rue de Vaugirard, no Quartier Latin, e também nos conseguiu pequenos trabalhos para ajudar na alimentação e transporte. A organização nos propôs ir para Dinamarca tentar asilo. Leopoldo Paulino (Jaiminho) foi antes, se instalou com sua companheira e filho em um hotel do governo dinamarquês, no hotel Corona, e teve que aguardar decisão sobre seu asilo político. Entrou na Dinamarca com um passaporte adulterando data de validade do visto.

A Cimade nos propôs entrar na Dinamarca por uma rota clandestina, traçada por eles que pretendiam esvaziar Paris de alguns refugiados. Procuravam alguém que se dispusesse testar uma rota e enviar fugitivos das guerras coloniais portuguesa. Eles empurravam para alguns paises nórdicos - Suécia e Dinamarca - via Holanda (alguns não mereciam viver em Paris, certamente!).

Para entrar na Alemanha, caminhei com frio abaixo de zero. Na fronteira da Holanda com a Alemanha quase morri congelado na noite fria. Fui socorrido por um casal que fazia parte do esquema. Puseram-me no trem que faz a travessia Alemanha - Dinamarca. Cheguei em Kopenhague e por recomendação do companheiro Leopoldo, seguindo orientação de dinamarqueses solidários com os latinos americanos, me apresentei a Polícia . Ouviram-me e me colocaram numa pensão de malucos, um verdadeiro manicômio: a pensão Olst, onde conheci outros que aguardavam asilo, oriundos de colônias portuguesas e de paises do leste europeu.

Meu pedido de asilo foi negado no início de julho de 1973. Policiais dinamarqueses me prenderam no Hotel Corona e, após resistir com uma faca de cozinha e morder o braço de um policial fui dominado, algemado pelas pernas e braços e levado até uma prisão do Porto, próximo ao Hotel.

Leopoldo Paulino, companheiro de fé e luta, iniciou outro escândalo: já prevendo minha prisão fez alguns contatos com estudantes e políticos (Jaiminho foi líder estudantil em Ribeirão Preto, era filho de ferroviário, um verdadeiro revolucionário). Os amigos dinamarqueses contataram a imprensa e organismos internacionais de apoio a refugiados políticos.

Este caso repercutiu após divulgação na imprensa, chegou a Paris impedindo minha devolução à ditadura brasileira. Deixaram-me na prisão em Kopenhague , fui visitado por um adido militar (com uma cicatriz na cara) a quem não aceitei responder nenhuma pergunta.

Após 40 dias fui entregue à polícia alemã e levado para uma prisão em Dusseldorf (aquela mesma em que trucidaram judeus na Segunda Guerra Mundial). Por aproximadamente 30 dias, comi no almoço e janta batatas (cozidas e acondicionadas numa rede de cordinhas) e salsichas.

Com escândalo do Leopoldo e apoio dos companheiros da imprensa dinamarquesa e francesa, fui colocado num trem de volta a Paris. Aceitaram-me na França como refugiado político, matriculei-me na universidade criada após maio de 1968, do Daniel Conh Bendit, em Vincennes. Estudei cinema e fotografia por dois anos ainda com o nome de Reginaldo Faria Leite. Conheci e casei com Carmen Maria Craidy, tivemos dois filhos: José Daniel e Ana Craidy Simões.

Moramos em Moçambique. Trabalhei como fotógrafo da FRELIMO - Frente de Libertação de Moçambique, tendo como chefe o jornalista e escritor Mia Couto, na AIM – Agencia de Informação Moçambicana. Em 1979, com a anistia, voltei para o Rio Grande do Sul, me separei e casei com Maria Stella Da Poian Petrasi. Em 1980 trabalhei para o combativo Coojornal (criado por uma cooperativa de jornalistas), sabotado e falido em 1981.Trabalhei para o jornal Zero Hora, fui free lancer da grande imprensa.

Com a eleição do Pedro Simon (PMDB) trabalhei como fotógrafo da Secretaria de Saúde. Após seu governo, eu e minha mulher Stella (professora de história) criamos a Gaia-História e Fotografia Ltda.
De 1990 a 2001 trabalhamos no Amapá dentro de um projeto de desenvolvimento sustentável no governo Capiberibe. Participamos com Elson Martins, Jorge Gallina, Eugênio Neves e posteriormente com Osmar Trindade, da criação da Folha do Amapá.

Atualmente vivemos em Porto Alegre esperando Godot.

Nota do editor

O fotógrafo Daniel de Andrade visitou o Acre em 2003. Ele passou uma semana em Rio Branco clicando os escombros do velho mercado da Epaminondas Jácome, antes que o prédio e seu entorno fossem demolidos dando lugar ao novo Mercado Velho. Fotografou, sobretudo, os personagens que ocupavam o espaço há décadas com seus bregueços e histórias.

O resultado de seu trabalho foi um álbum fotográfico que a Fundação Cultural editou e o ex-governador Jorge Viana, no dia da inauguração do mercado restaurado, mandou enterrar numa urna lacrada, junto a jornais locais com a recomendação para ser aberta somente no ano de 2106.
O álbum tem texto assinado por mim e uma segunda seção de fotografias, feitas por Val Fernandes após a restauração. (Elson Martins)

 
 
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Rio Branco-AC, 29 de junho de 2008
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