A Pré-História Acreana XI
Depois de um longo intervalo, no qual esta coluna tratou de assuntos outros, retomamos a série de artigos que tratam dos “sítios arqueológicos com estruturas de terra geométricas”, apelidados mais recentemente de “geoglífos”. Mas devido ao grande intervalo entre o ultimo artigo da série e esse, é preciso, antes de mais nada, fazer uma breve recapitulação dos temas que até aqui foram abordados nesta série.

Hoje iremos analisar a natureza do trabalho da arqueologia, suas possibilidades e seus limites, e como isso se reflete em nosso conhecimento da pré-história acreana. Assim, poderemos começar a tratar, com maiores detalhes, das informações e interpretações proporcionadas pelos trinta anos de pesquisa que se tem dedicado aos sítios com estruturas de terra geométricas do Acre.
Introdução
Para o leigo em geral, quando ouvimos falar em arqueologia logo vem à mente a imagem que foi popularizada pelo cinema. Uma grande aventura rumo ao desconhecido, onde o arqueólogo deverá passar por mil e um perigos antes de conseguir desvendar um segredo terrível, mas normalmente cintilante e muito valioso. Neste caso, pelo menos, a idéia de que “a vida imita a arte” não pode ser aplicada.
Na verdade, o trabalho dos arqueólogos é, na maior parte do tempo, marcado pela análise de milhares de cacos de cerâmica ou de lascas de artefatos de pedra no laboratório, numa rotina muitas vezes exasperante. O tempo que os arqueólogos passam no campo escavando sítios arqueológicos não ocupa, normalmente, mais do que 10% do tempo total dedicado à pesquisa.
E ainda assim, é importante que se diga, o trabalho de escavação de sítios arqueológicos é extremamente duro e cansativo. Além de bastante sujo, já que consiste basicamente em escavar o chão atrás de vestígios dos homens que ali viveram e que foram soterrados pelo tempo, o que normalmente envolve muita poeira ou terra.
A única etapa do trabalho arqueológico que se aproxima um pouco mais da imagem romântica do cinema é quando se está em trabalho de prospecção para localizar novos sítios arqueológicos. Nessas ocasiões, percorrendo uma trilha na mata sempre se pode deparar com uma jararaca no meio do caminho, ou o barco onde se viaja pode virar ou encalhar num banco de areia, conferindo, às vezes, fortes emoções à equipe envolvida na missão de pesquisa.
Entretanto, nada disso é capaz de tirar o fascínio da arqueologia. Diferente da história que possui documentos textuais, às vezes muito ricos em detalhes da época estudada. A arqueologia é constituída pela análise de quaisquer fragmentos e vestígios que tenham resistido à ação do tempo. O que, em algumas situações significa realizar interpretações sobre muito pouca coisa, frequentemente quase nada daquilo que aquele povo de fato produziu durante sua existência.
Uma situação ainda mais grave quando se trata de Amazônia. No Peru e no Chile, por exemplo, ainda se consegue encontrar tumbas funerárias que guardam, além de múmias que foram conservadas graças ao clima frio e seco dos Andes, uma grande quantidade de objetos e artefatos fabricados em diferentes materiais. Já no ambiente amazônico, o solo ácido e a grande umidade impedem a conservação de todo e qualquer material orgânico. Ou seja, depois de alguns séculos, não sobra nada nos sítios arqueológicos, a não ser artefatos de pedra, cacos de cerâmica e eventualmente alguns ossos que por acaso tenham petrificado naturalmente.
E é a partir destes poucos vestígios e de sua disposição no espaço do sítio arqueológico que os cientistas tentam reconstituir todo o passado daquela determinada cultura. Com o complicador adicional de que mesmo que existam documentos históricos e/ou antropológicos e/ou etnográficos, a comparação entre as informações originadas de fontes distintas, nem sempre pode ser feita plenamente. Existem muitas ressalvas, por exemplo, para a correlação de troncos lingüísticos com as classificações arqueológicas. Ainda assim, é comum recorrermos a essas correlações como uma das poucas alternativas para aumentarmos a quantidade de informações disponíveis para a reconstituição de certa região durante determinado período. E quanto mais antigos os sítios estudados, maior a dificuldade de serem encontrados uma quantidade de vestígios suficientes para reconstituições seguras.
Portanto, ao analisarmos o contexto pré-histórico do Acre com base nos resultados obtidos pelas pesquisas arqueológicas é imprescindível termos em mente estes limites, uma vez que a conservação de vestígios e a qualidade destes vestígios conservados são determinantes para as possibilidades de interpretação das culturas pré-históricas.
Sítios do Acre
No caso dos sítios arqueológicos com estruturas de terra geométricas que ocorrem no Acre não é diferente. Muitos destes sítios têm apresentado apenas fragmentos de material cerâmico e muito raramente algum material “lítico” (que no linguajar dos arqueólogos designa fragmentos e artefatos de pedra). E para complicar ainda mais a interpretação da(s) cultura(s) ali representada(s) alguns dos sítios geométricos não apresentam nenhum tipo de material cultural além das próprias estruturas de terra.
Mas como dizem diversos arqueólogos, às vezes a informações negativas são tão importantes quanto as positivas. Ou seja, se alguns sítios com estruturas apresentam vestígios de cerâmica e de lítico, enquanto outros não possuem nenhum desses materiais, apesar de terem formas geométricas ou dimensões equivalentes, isso provavelmente significa que estes sítios possuíam “funções” distintas. O que no mínimo, é uma interessante orientação para a pesquisa dos diferentes sítios e seus contextos.
Talvez alguns sítios, fossem apenas cerimoniais, enquanto outros tivessem comportado aldeias onde os grupos pré-históricos moraram durante séculos. Neste caso, o primeiro “tipo” apresentaria muito pouco material cultural, ou mesmo nenhum, enquanto que o segundo tipo apresentaria grande abundancia de material cerâmico, lítico, e até, eventualmente vestígios orgânicos (como no caso do Sítio Los Angeles, em Xapuri, ao qual retornaremos mais adiante). Além disso, como os sítios com estruturas de terra apresentam formas geométricas muito variadas, podemos pensar em sítios circulares que desempenhavam determinada função, enquanto que sítios com forma quadrangulares ou com formas mais complexas e compostas, teriam outros usos.
Nesse ponto devemos levar em consideração outros tipos de informações possíveis de serem obtidas através da escavação de sítios arqueológicos. Tão importante quanto os vestígios culturais eventualmente encontrados durante as escavações dos sítios arqueológicos é a sua disposição no solo. Ou seja, é imprescindível para o arqueólogo compreender a disposição horizontal dos vestígios e artefatos, pois com isso se pode diferenciar uma área do sítio onde existiu uma residência, de outra onde funcionou uma oficina de confecção de artefatos, ou ainda de um local onde se cozinhavam os alimentos, etc.
É a analise desse contexto horizontal dos artefatos e dos vestígios entre si que pode nos auxiliar a determinar as diferentes áreas e suas respectivas funções em um determinado sítio arqueológico. Além, é claro, da qualidade desses vestígios. Por exemplo, a presença de uma urna funerária pode ser indicativa de um antigo cemitério, mas não se pode esquecer que muitos grupos não tinham cemitérios delimitados exclusivamente para esse fim, mas possuíam o costume de enterrar seus mortos dentro da própria residência onde moravam. Só a análise da relação dos vestígios é que pode diferenciar estes dois casos.
Por outro lado, os arqueólogos têm que levar em consideração, ainda, a disposição vertical dos vestígios arqueológicos porque essa informação, além de complementar as informações acima relacionadas, ainda nos fornece elementos para compreender a cronologia da ocupação deste ou daquele sítio. Assim, se um material ocorre numa profundidade maior do que outro podemos inferir que aquele é mais antigo do que este. Ou seja, quanto mais profundo se encontra um determinado vestígio, tanto mais antigo ele é em relação àqueles que estão mais próximos da superfície.
É muito comum encontrarmos sítios que foram ocupados diversas vezes em diferentes momentos pelos mesmos grupos, ou ainda por outros grupos mais recentes depois de períodos de abandono destes locais. Assim os arqueólogos durante uma escavação procuram determinar as “camadas arqueológicas” que estão presentes nos sítios que correspondem às diversas e sucessivas ocupações do sítio.
Podemos dizer, portanto, que durante a escavação de um sítio, a disposição horizontal dos fragmentos e artefatos nos informa sobre o uso de suas diferentes áreas (ou em outras palavras: o aproveitamento do espaço), enquanto que a disposição vertical destes vestígios nos fornece informações acerca do período em que foram ali deixados (quanto mais profundos mais antigos, a não ser em casos excepcionais).
É por isso que é tão importante preservar os vestígios arqueológicos nos locais onde são encontrados. Um agricultor que ao se deparar com uma urna funerária, trata de escavar o solo e de retirá-la do local onde foi achada está, na prática, destruindo a maioria das informações que poderiam ser obtidas através dessa urna. E uma das principais missões da educação patrimonial é informar à população em geral, que não é obrigada a saber disso, sobre a necessidade de nunca se retirar um vestígio arqueológico de seu local, sem a presença de um arqueólogo que o fará aplicando as técnicas e métodos necessários para recuperar não só a peça encontrada, mas também um enorme conjunto de informações que estão ali no solo e no contexto em que ela se encontra.