OPINIÃO
   CRÔNICA

José Cláudio Mota Porfiro *

 

Reanimando Lênin

Anima, do latim, é alma. Reanimar, então, é dar nova alma.

Este é um ensaio que tem por finalidade uma análise, em sala-de-aula. Por isto, é preciso ser didático. A clientela o exige. São rapazes e moças na faixa dos dezoito ou vinte anos. Convém escrever de forma clara, principalmente, porque as novas gerações não permitem o contrário. Esta é a era da automação, inclusive, dos processos informativos.

É interessante rever alguns autores clássicos que, desde algum tempo, embalam-me o sonho científico. Escrever sobre Lênin, então, é prazeroso, é fazer justiça a um intelectual injustiçado pelas duras regras do poder dos financistas internacionais.

Em realidade, Vladimir Ilich Lenin, a exemplo de Karl Marx, escreveu sobre muitas verdades que abalaram seriamente as velhas ricas estruturas erguidas à custa do suor e do sangue dos mais pobres, escravizados pelo jogo do poder dos endinheirados, donos da propriedade industrial. Infelizmente, as épocas eram outras e as lideranças comunistas que houveram por bem gerir os destinos de alguns países optantes pelo modelo socialista não eram estudiosas o suficiente para entender a mensagem de igualdade social deixada pelos próceres da causa socialista. Stalin, Trotsky, Mao, Fidel ou Abimael Guzmán, apesar das diferenças individuais e de época, leram muito, mas pouco entenderam... E deu no que deu...

Então, o que é realmente capitalismo? Em rápidas palavras, é exatamente esse sistema político-econômico em que pouquíssimos ganham muito dinheiro, e muitíssimos ganham muito pouco, quase nada ou nada ganham. É esse um sistema político-social em que as oportunidades são dadas a uma parcela mínima da sociedade; como no Brasil, onde uma imensa maioria não consegue suprir necessidades básicas como bem comer, beber, vestir-se ou ter moradias dignas. Enquanto uma parcela mínima usufrui de uma gama de privilégios que só o poder do dinheiro pode dar. Seriam uns melhores que os outros? Por que uns poucos têm tanto e a maioria nada tem? Por que freqüentamos escolas sem as devidas condições, enquanto uma minoria rica estuda em escolas onde todas as exigências são plenamente atendidas? Por que, inclusive, há algum tempo, era crime hediondo textos reais como este?

Lênin em Imperialismo, obra de 1916, numa análise deveras lúcida, prega que, enquanto o capitalismo continuar capitalismo, o capital excedente não será usado com o objetivo de elevar o padrão de vida das massas, uma vez que isso significa uma queda dos lucros dos capitalistas. Ao invés disso, será usado para aumentar os lucros pela exportação do capital para o exterior, para os países atrasados. Nesses, os lucros são habitualmente altos, pois o capital é escasso, o preço da terra é relativamente baixo, os salários são irrisórios e a matéria-prima é barata.

Noutras palavras, para um melhor entendimento, convém deixar claro que o dinheiro que sobra dos mais ricos, depois de todas as necessidades e futilidades atendidas, não é repassado para as empresas com o objetivo de melhorar as condições de vida dos empregados; estes deverão levar uma vida de sacrifícios, enquanto os patrões vivem felizes e rodeados de todas as benesses que o poder do dinheiro lhes permite usufruir. Jamais nenhuma medida será tomada em favor do trabalhador; isso significaria prejuízo para o empresário, e prejuízo é palavra que jamais deverá fazer parte do dicionário de quem deseja ter sucesso nos empreendimentos. Assim, o padrão de vida das massas deverá ser sempre o mesmo, quando a tendência não seja piorar.

O dinheiro que sobra, então, passa a ser exportado para países mais pobres, onde possam ser gerados lucros cada vez mais significativos. O alto empresariado americano, por exemplo, exporta seus dólares para países como o Brasil. Aqui podem ser montadas fábricas de diferentes tipos. Aqui o salário mínimo é uma mixórdia, a terra é barata para quem tem dinheiro, sempre há um ou outro incentivo, inclusive o fiscal, e as matérias primas têm preço ínfimo. Os dólares aqui aplicados, em vista dos preços anteriormente levados em consideração, quintuplicam-se gerando uma fortuna amealhada à custa de pessoas sofridas que nada mais sabem fazer que alguma atividade que lhes renda o suficiente para não morrer de fome, ou passar sessenta e cinco anos trabalhando para um patrão - o capital - que jamais lhe renderá homenagem alguma.

Por que então um americano rico iria preocupar-se com o padrão de vida de um assalariado brasileiro?

Este, sim, é apenas um pequeníssimo capítulo da nossa história de escravos dos capitalistas internacionais. E nós, professores e estudantes das classes menos favorecidas do Brasil - e especialmente do Acre - havemos de ter consciência do fato de que só um trabalho muito eficiente, a partir da escola, pode dar novos rumos ao desenvolvimento de um povo que se esforça muito, todavia é penalizado por falsos líderes que lhes ditam regras em parlamento, cujo objetivo único é aumentar a riqueza de patrões que jamais hão de preocupar-se por estarmos vivendo ou morrendo em nome da multiplicação dos seus dividendos financeiros.

Mas há muitas outras historietas comunistas a serem contadas...

* Cronista

 

 
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Rio Branco-AC, 29 de julho de 2007
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